56 - A MELHOR CAMPANHA VENCE

18/09/2012 07:29

    Artigo de Francisco Ferraz

    Fonte: www.politicaparapoliticos.com.br

   Acreditar que o sucesso eleitoral dispensa planificação é cometer um erro que pode custar muito caro ao candidato.

Quem tem melhores chances de se eleger: um bom candidato com uma campanha desorganizada e ineficiente ou um candidato médio, com uma campanha eficiente?

   Na grande maioria dos casos será eleito o candidato médio que foi capaz de montar e operar uma campanha moderna e eficiente, porque a vitória eleitoral tende a premiar a campanha mais bem organizada, que comunica, de maneira eficaz, uma imagem atraente de seu candidato e uma mensagem de governo relevante e prioritária para seus eleitores potenciais.

   Este é hoje um princípio elementar da campanha eleitoral confirmado universalmente, e válido para qualquer campanha, seja para o Governo de um estado, seja para a Câmara Federal, seja para a Câmara de Vereadores ou até mesmo para a Presidência da República.

   Entretanto, campanhas eleitorais estão sempre lutando contra duas dificuldades críticas: recursos e tempo. Na imensa maioria dos casos, os recursos que uma campanha eleitoral consegue captar são invariavelmente muito inferiores ao que necessita. De outra parte, numa campanha pode-se comprar tudo, menos o tempo.

   Há um número limitado e não expansível de meses, semanas, dias, horas e minutos que estão disponíveis para a realização da campanha. Se não forem aproveitados, não há como recuperá-los. Fazer o melhor uso possível dos recursos e do tempo disponíveis é portanto um desafio logístico e pessoal do candidato e da sua equipe. Esta é a grande e fundamental responsabilidade do planejamento numa campanha.

  É somente por meio dele que se consegue distribuir as ações de campanha – e do candidato - no tempo, respeitando os parâmetros de natureza financeira, organizacional, de publicidade e sobretudo de estratégica.

   As resistências ao planejamento

   A mitologia da política, assim como a tradição, sugere que o sucesso eleitoral dispensa planificação. Mais ainda, que as qualidades necessárias ao sucesso – flexibilidade, oportunismo, iniciativa, experiência - não apenas dispensam como não se harmonizam com a elaboração de planos.

   Se esta é a lição da mitologia, a lição da realidade é que as campanhas eleitorais vitoriosas, mesmo para os cargos mais iniciais da carreira política, recorrem cada vez mais ao planejamento, para definir sua estratégia e organizar suas atividades.

   Campanhas eleitorais têm tudo para tornarem-se caóticas: tempo limitado, recursos insuficientes, pessoas tensas e cansadas, candidato ansioso e insatisfeito, forte envolvimento emocional, ocorrência freqüente de fatos novos e inesperados,  desempenho público, etc.

   A forma habitual de lidar com esta realidade dinâmica e nervosa costuma ser não ignorá-la, e “enfrentar os problemas na medida em que eles aparecerem, e tomar as decisões na medida em que sejam indispensáveis”. Nesta forma de pensar presume-se que o respeito a esta máxima é suficiente para resolver qualquer problema. Não é.

   Para a tomada de decisões, gasta-se horas em reuniões.

   Sem o mapa da viagem que o plano proporciona, a campanha tende a ser pautada pelos adversários, pela mídia ou pelos fatos novos, tornando-se desfocada, reativa, dispersa, contraditória e ineficaz. Somente o planejamento pode controlar esta tendência para o caos que ameaça qualquer campanha. É certo, entretanto, que a tentativa de introduzir o planejamento na campanha vai despertar - no candidato e/ou em membros de sua equipe - reações contrárias e hostis.

   Estas reações tenderão a assumir uma ou mais das seguintes desculpas que buscam basicamente manter em funcionamento fatores prejudiciais à campanha e à vitória, como: preservar espaços já conquistados, proteger reputações, manter a liberdade de improvisação, evitar uma avaliação de desempenho, e fugir do desafio de ter que aprender a fazer de outras formas mais modernas, aquilo a que a pessoa se acostumou a fazer à sua maneira, no seu ritmo, e com seus prazos.

   Uma campanha não é “concurso de beleza” entre políticos, entre marketeiros e publicitários, entre família e staff, ou entre os que têm mais experiência.

   Uma campanha ou é um empreendimento coletivo, racionalmente organizado e gerido, arduamente construído ou não é nada mais que perda de tempo. Perder faz parte do jogo. Mas perder por fazer “gols contra” é o máximo da incompetência e desqualificação política.

   As desculpas mais usadas para evitar a introdução do planejamento na campanha, serão possivelmente as seguintes:

   - Argumento do tempo: É perda de tempo.Vai se gastar muito tempo em reuniões e escrevendo.

   - Argumento da teoria x prática: É cair na teoria (no sentido pejorativo do termo). ”Na prática nós já sabemos o que precisa ser feito”. Argumento da experiência: “Nunca se fez plano assim e nunca precisamos. Nenhum plano vai ter o conhecimento da cidade x, região x, ou do bairro x, como fulano.” Argumento da rigidez: O plano vai tornar a campanha rígida e pesada.

   A eleição é muito dinâmica, a toda hora acontecem coisas não previstas. O plano vai inibir a agilidade, a iniciativa e a liberdade de ação, qualidades que são indispensáveis a uma campanha eleitoral.

   Nenhum destes argumentos se sustenta logicamente. Tomados em conjunto eles compõem uma caricatura, que está muito distante do tipo de planejamento que estamos propondo.

   Ao contrário, o planejamento feito com competência:

   - Ganha tempo,

   - É todo voltado para a prática,

   - Tem critérios para discernir quando a experiência é útil e quando é superada,

   - Incorpora necessariamente procedimentos para sua modificação,

   - Assegurando à campanha flexibilidade, sem comprometer a continuidade do que está funcionando bem.

   Fazer ou não um plano de campanha portanto, por todas essas razões e outras mais, além de necessário, deverá ser uma das primeiras,e certamente uma das mais importantes decisões que o candidato deverá tomar. Campanhas sem planejamento estarão sempre alguns reais a menos, e algumas semanas atrasadas em relação ao que se propõem. O planejamento é, portanto, um imperativo e não uma opção para quem se propõe a vencer uma eleição.

   Fazer o planejamento significa entre outras coisas, e desde logo, adquirir o hábito de pôr as idéias no papel. O papel é mais exigente que o ouvido. O texto escrito exige maior coerência, precisão e objetividade do que as infindáveis discussões em intermináveis reuniões.

   O papel não aceita idéias “aparentemente brilhantes”, mas na prática irrealizáveis; ele mantém vivas as prioridades; impõe uma rigorosa relação entre as ações e os objetivos buscados; gera critérios para avaliar o desempenho, e os resultados; e cria as condições para que as inevitáveis mudanças, que serão introduzidas no planejamento original, corrijam os erros de avaliação e de procedimento, sem desfazer os acertos conseguidos.

Além disso, só o planejamento faz com que as decisões decidam. É muito comum numa campanha gastarem-se horas numa reunião para discutir os assuntos e tomar decisões, que na próxima reunião se descobrirá que continuam abertas as discussões e sem decisão tomada. O problema está no fato de que:

- Cada campanha toma muitas decisões, em vários níveis de poder, sob diferentes aspectos da campanha, simultaneamente;

- Cada decisão tomada, por outro lado, depende, para sua efetivação, da realização de múltiplas tarefas coordenadas entre si, tarefas que, o mais das vezes, estão sob a responsabilidade de pessoas diferentes;

   Tomada a decisão, o que se conseguiu até então, foi apenas a exteriorização da vontade política. Falta ainda torná-la uma realidade concreta. Se não houver um cuidadoso detalhamento daquelas tarefas (quais, quem é o responsável, quem entra com o que, qual o prazo, como financiá-las etc) e um igualmente criterioso acompanhamento de sua execução, ter-se-á tomado mais uma decisão que não decide.

   Planejamento, portanto, significa sempre, no mínimo, reflexão que precede a ação, escolha racional do que fazer e disciplina para executá-la. Todos eles, procedimentos que dependem de uma atitude assumida conscientemente.

   Sem esta atitude, e a disposição de assumir também todas as conseqüências que ela acarreta, o plano será letra morta e o tempo e trabalho gastos para elaborá-lo terão sido perdidos, e a campanha dificilmente vai encontrar seu foco.

   Ao contrário do que se pode pensar, o planejamento não é um luxo ao alcance somente das campanhas “ricas e importantes”. Quanto mais carente de recursos for a campanha, mais necessário se torna o planejamento.

   É verdade que não basta ter um plano escrito. Se ele não for bem concebido e competentemente executado sua utilidade é mínima ou nula. Entretanto, para a imensa maioria dos candidatos, um plano bem concebido e uma campanha moderna e bem organizada é a diferença entre ser eleito e não ser eleito.

 

 

 

 

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