138 - VISÃO POLITICA E O HORIZONTE EM V.PTA.

07/01/2013 07:53

    Baseado em texto de Fernando Gabeira, em O Estado de S.Paulo

   Um traço perceptível da visão política é a perda da linha do horizonte. Nesse sentido, a política tem deixado a desejar nos últimos tempos, pois seus principais movimentos aparentemente não apontam para lugar algum, exceto a luta por espaço no governo.

   Politicos afirmam que coexistem unidade e luta na base do governo. Numa visão consensual na esquerda/centro/direita, esses elementos existem em qualquer estrutura política e, para alguns, até na matéria física. Mesmo adotando a visão de unidade e luta para explicar o que se passa na cidade, não se consegue explicar o sentido dessas lutas.

   Em outros momentos históricos os confrontos se davam em torno de idéias e os protagonistas tratavam de difundi-las para ganhar apoio. A simpatia popular era vista como essencial para definir o vencedor. Com o naufrágio da política, as lutas tornaram-se subterrâneas, quase clandestinas. A imprensa, que no passado difundia as ideias dos atores, hoje se conforma em descrever seus movimentos e analisar os resultados.

    A posse e a escolha do presidente da Camara Municipal usou de uma simples votação para mandar seu recado ao governo e munícipes. Querem mudar as relações de forças. A cobertura da imprensa, e outras midias, torna-se uma forma mais ampla de transmissão do recado. O governo entra em cena dizendo-se confiante e promete fazer tudo para manter um bom diálogo. Com esse movimento passa um recado ampliado à base. Políticos competem entre si, via recados, mas nunca fica claro o que cada parte quer.

   Por trás de tudo, nada mais que cargos, poder e dinheiro. Os rumos da cidade parece que não interessam nem estiveram na mesa de debates. Ninguém ascende ao governo porque teve ideias específicas, ninguém sai porque discordou politicamente dele. Ao sair um vereador, entra outro para reafirmar que a mudança das peças não altera o rígido jogo de xadrez. E o barco vai, mas para onde se horizonte não está claro ?

  São poucos os discursos interessantes, quase nenhum projeto, ainda que polêmico, emerge desse barco à deriva. A imprensa sumiu do plenário, vai pouco às comissões: não acontece quase nada lá. Há sempre uma ou outra gafe, uma intervenção pitoresca, mas isso acaba repercutindo logo; é fácil recuperar as imagens nas gravações oficiais, mas a questão é ter acesso a elas.

   Grande parte da energia é gasta nos bares e nos corredores, onde circulam queixas, ameaças e recados. Não e possível saber que conjunto de ideias está em jogo, porque simplesmente não há conjunto, só uma ideia fixa de ocupar espaços rentáveis.

   A política local dá mostras de fechar-se nela mesma, despojou-se de suas características sociais e virou uma corporação que cuida dos próprios interesses. Sua única vulnerabilidade é um timido trabalho investigativo da imprensa, que revela alguns episódios de corrupção e as vezes desata um drama cujo andamento todos suspeitamos. Num debate internacional sobre os rumos da política (Making Things Public, Atmospheres of Democracy), o editor dos ensaios, Bruno Latour, usa os astrólogos para definir certos momentos históricos: algumas conjunções dos planetas são tão negativas que o melhor é ficar em casa até que os céus mandem mensagem mais animadora. Se pergunta se o presente político não é tão desolador a ponto de termos de esperar a passagem dos líderes e todos os atores que se movem no palco para voltarmos a nos interessar pela cena política.

   O cenário político demora mais a mudar se nos desinteressamos. É necessário ficar o mais próximo que o estômago possa tolerar. As coisas não mudam rapidamente sem luta, não o tipo de luta interna no governo e na Camara, mas a que tenta levar adiante algumas ideias que parecem corretas a seus defensores.

   É uma ilusão achar também que as coisas não mudam de maneira alguma, e que isso só acontecerá quando o Sol estacionar no céu.

   Várzea Paulista nunca realmente viveu uma boa fase, com crescimento sustentável, distribuição de renda e qualidade de vida. Isso não significa ausência de desafios. Uma luta centrada em cargos e dinheiro não é resposta adequada. Os políticos envolvidos na luta por poder e dinheiro, nem percebem o mundo mudando, as táticas evoluindo, o profissionalismo se impondo.

    Se verdade ou não as especulações dos bastidores, onde a base do governo estaria, ou esteve, negociando com vereadore(s) garantias de apoio em troca de cargos e outras benesses, devem o Sr. Prefeito e Srs. Vereadores considerar que a dinâmica da mudança das coisas acabará sacudindo uma vida política naufragada na ausência de um horizonte claramente democrático. Portanto, durante o mandato, trabalhem com e pelo povo, ou o pequeno mundo em que estão acabará sendo implodido nas ondas eleitorais das proximas eleições, se nada for feito como deve ser e para o qual foram eleitos. 

 

 

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