149 - O ASSESSOR QUE SE JULGA INDISPENSÁVEL

30/01/2013 13:09

      Artigo de Francisco Ferraz

     Fonte: http://www.politicaparapoliticos.com.br

   É um erro compreensível, humano e até mesmo ingênuo. Mas, ao contrário do que diz na política, nem sempre compreender tudo leva a perdoar tudo. O assessor incide nesse erro porque houve um momento em que ele foi indispensável e as evidências dessa sua condição eram óbvias para ele, para alguns outros do círculo mais próximo do líder e para o próprio chefe, que, implícita ou explicitamente, demonstrou pensar assim. Quando tal momento ocorreu não importa. Pode ter sido durante a campanha, durante o governo ou no período em que ele esteve fora do poder.

    O fato é que ocorreu.

    Há ocasiões em que o assessor se supera. Outras em que, frente a um problema aparentemente sem solução, ele surpreende com uma resposta clara, límpida e consistente, que permite resolver a dificuldade. Noutras, ainda, seu trabalho é tão intenso e com tantas delegações de autoridade, que ele economiza um tempo precioso para seu chefe dedicar- se a outras ações.

   Em condições assim insinua-se na mente do assessor uma perigosa convicção: ele é indispensável. Está seguro em sua função porque seu chefe "depende" dele, "não conseguiria levar suas atividades sem a sua ajuda e conselho".

   Tal convicção é ainda reforçada pelo fato de que o político ao qual serve envolve-o em matérias que, de ordinário, não o incluiriam; convida-o para reuniões com pessoas de hierarquia muito mais alta que a dele e, volta e meia, demonstra sua confiança, estima e valor, ao conversar com ele sobre matérias de ordem pessoal, seu futuro político e até faz confidências mais íntimas.

   Pode ocorrer que relações dessa natureza se mantenham por muitos anos - algumas por toda a carreira do político. Para tanto, é necessário que o chefe seja um tipo especial de político e o assessor, um tipo especial de assessor.

   Por tipo especial, entenda-se, basicamente, pessoas mais pacatas e de pouca competitividade.

   Pessoas ambiciosas, competitivas e agressivas acomodam-se com muita dificuldade neste perfil, já que, na luta permanente para aumentar seu poder, estão sempre comprometidas com a mudança - nos temas, planos, na maneira de ser e operar, nas expectativas e exigências, para citar algumas. São indivíduos que estão sempre travando novas relações, conhecendo novas pessoas, descobrindo as falhas de sua estrutura de apoio, bem como as virtudes dos outros.

   Com tal comportamento estarão continuamente comparando sua organização, sua campanha e seus assessores com os outros. São políticos que têm pressa, que buscam atalhos, que protagonizam lances ousados e aceitam os riscos. Em conseqüência, são políticos compradores: estarão sempre dispostos a localizar no mercado auxiliares que o ajudem a alcançar as metas a que se propõem, não hesitando em alterar sua equipe, quando julgarem conveniente. Eles já sacrificaram muito de suas vidas familiar e pessoal para terem maiores escrúpulos em sacrificar um assessor, por mais leal e competente que este tenha sido até então.

   Mas o sentimento do assessor não é assim. Este, em razão da condição privilegiada que sempre desfrutou, desenvolve uma relação de afeto, estima e proteção em relação ao chefe, que, combinada com o sentimento de estabilidade fundada no fato de se perceber indispensável, justifica toda a sorte de sacrifícios pessoais.

   Há, portanto, nesses casos, duas curvas que têm entre si uma relação inversa: a do chefe passa da intimidade pessoal para a instrumentalidade e o distanciamento afetivo, enquanto a do assessor desloca-se do profissionalismo objetivo à amizade, admiração, intimidade e lealdade absoluta.

   Assim, a liberdade e a autonomia quase absolutas anteriores são tacitamente revogadas. Os planos mudaram, outras formas de executar as tarefas são adotadas porque outras pessoas passam a ter maior influência sobre o chefe e, em conseqüência, os antigos procedimentos não se justificam mais.

De sua parte, o assessor envolvido com toda a sorte de missões e problemas custa a entender o que está acontecendo e continua agindo como antes. Isto o torna, sem sombra de dúvida, um obstáculo à mudança.

Os momentos de intimidade, as oportunidades de lazer e a presença em reuniões importantes escasseiam - quando não desaparecem. O subordinado tende a interpretar que isso é resultado do acúmulo de trabalho. Não há mais tempo livre como no início e o chefe, de tão atarefado, esqueceu-se de convidá-lo.

Amparado naquele sentimento de que é insubstituível e de que é indispensável, o assessor aposta na folga de poder e prestígio que possui e, longe de se sentir ameaçado, não chega a fazer uma análise mais detida e objetiva da situação. De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, envolta numa explicação meio confusa sobre reformulação do trabalho,

amenizada por vagas referências a retornarem a atuar juntos no futuro próximo, a notícia da sua dispensa chega-lhe como uma bomba, fazendo-o descobrir o que deveria saber desde o início: que ninguém é indispensável ou insubstituível, sobretudo para um político ambicioso, competitivo, em luta ativa e permanente pelo poder.

   O choque é brutal, sobretudo porque, para o assessor é difícil compreender as razões daquilo. Ele busca na memória suas ações, seus erros e acertos, atrás do motivo que explique a dispensa.

   Mas não é lá que a explicação vai estar: é na cabeça do político, em sua ambição, na postura de comprador, na lealdade condicionada, na disciplina que, em silêncio, adquiriu para subordinar seus sentimentos a seus planos.

   A razão resultou daquelas mudanças que, aos poucos, foram sendo adotadas e que representavam novas metas. Àquilo que o assessor não deu a devida importância o transformou de indispensável em descartável.

   Foram as mudanças no comportamento do chefe, que o assessor interpretou como excesso de trabalho ou esquecimento, que o impediram de perceber a nova dinâmica que estava em curso e à qual precisava, com urgência, se adaptar.

   O sentimento de indispensabilidade é muito gratificante, mas tem o poder de anestesiar o espírito crítico. O assessor deve lembrar que foi escolhido por que possuía virtudes de argúcia, lucidez, malícia e sutileza analítica. Uma vez no poder, nunca deverá se afastar delas: deve usá-las em favor de seu chefe, mas, por igual, em seu próprio benefício.

 

 

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