211 - V.PTA: A MANIFESTAÇÃO E O GOVERNO

24/06/2013 08:57

 Adaptação de artigo de Dora Kramer - colunista do Jornal O Estado de São Paulo

   Comentam que é conversa fiada a alegação de governantes, partidos e políticos em geral de que não estão entendendo direito a razão das manifestações. Eles sabem muito bem do que se trata. Só estão - como  todo mundo - intrigados com o fato de a coisa ter surgido assim, supostamente "do nada", com adesão impressionante.

   Na realidade surgiu e se alastrou em decorrência "do tudo". Mal explicada mesmo estava a discrepância entre o registro de satisfação nas pesquisas e a insatisfação dos que, no cotidiano, se perguntavam por que não havia reação aos desmandos em série. O que, afinal de contas, estava assim tão bom se o custo de vida sobe e o governo não faz a sua parte e cumpre as promessas de campanha ?

   O recado está dado, a mensagem perfeitamente captada principalmente quando as manifestações mais contundentes ocorrem depois de prefeitos e governadores anularem aumentos em tarifas de transportes coletivos. Atordoados pelo barulho improvisaram um “alivio” que, como se viu, não foi satisfatório aos manifestantes.

   Agora, com os protestos, seria hora de começar a pensar em deixar de lado entusiasmos e aturdimentos para abrir espaço à objetividade e praticidade.

   Olhar, primeiramente, com frieza, para a violência que emerge em todos os atos, salvo raríssimas exceções. Se o governo não pode ficar inerte diante de depredações - até porque hoje se agride o patrimônio amanhã podem ser agredidas pessoas -, cabe à polícia distinguir a quem dirige a força e modular sua aplicação.

  Não se pode também desconhecer que, ao contrário de movimentos com direção nítida que têm seus próprios métodos de proteção, esse nascido da espontaneidade não dispõe de instrumentos para se defender de provocadores. Tal defesa é importante para que a violência não passe a ser a questão central, deixando as reivindicações em segundo plano.

  Da mesma forma que a pasta de dente não volta ao tubo, a relação entre governo e sociedade não será mais a mesma.

  Aqui em Várzea Paulista o PT pensará duas vezes antes de trocar afagos com o governo, quando sabe perfeitamente bem que é obrigação estar na oposição; o legislativo pensará duas vezes antes de aprovar leis e projetos de resolução que dificulta a fiscalização do executivo e deles mesmos, os secretários cuidarão das pastas e dos serviços públicos com mais zelo e dedicação, e assim por diante.

   Quais os termos da renovação da confiança entre representantes e representados ainda é impossível vislumbrar, mas é inevitável que a diferença se expresse com nitidez na campanha eleitoral de 2014 e de 2016 principalmente.

   

   O rumo depende de como reagirão aos gritos de chega dos abusos e, não há como negar, os salários são abusivos para prefeito, secretários e vereadores aqui em Várzea Paulista, incompatíveis com a saúde e demais serviços públicos de qualidade indesejável. As cobranças estão manifestadas. Algumas são objetivas, outras implicam mudança de procedimentos em todo o governo municipal e legislativo.

   O governo não dará boa resposta, e nem será bem visto, se fingir que não é com ele ou procurar trapacear nas informações. A desmoralização será geral, de fato. Mas o problema real não se enfrenta transferindo obrigações e responsabilidades a outros, mas assumindo as que lhe dizem respeito.

  A revolta é dirigida a "tudo isso que está aí". Ao governo municipal, contudo, cumpre apresentar as soluções, dar a direção. A sociedade cabe não se deixar enganar. Culpar tão somente o governo anterior equivale a mostrar sinal de fraqueza, não funciona e de nada adianta cobrar responsabilidade de quem hoje não responde mais pela administração.

 

 

 

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