22 - CAMPANHAS QUE TENDEM AO FRACASSO

31/07/2012 09:42

  Adaptação do artigo de Francisco Ferraz

  Fonte: www.politicaparapoliticos.com.br

   Atento aos movimentos que se descortinam nas campanhas destas eleições 2012 de Várzea Paulista, o Blog tem observado que, principalmente nas redes sociais, alguns partidários e simpatizantes permanecem se dedicando mais aos ataques contra os adversários do que mostrar as propostas dos seus candidatos para o próximo governo. Isso tanto da parte dos simpatizantes e militantes, quanto dos participantes do comando das campanhas. Parece até ser regra, talvez por falta de assunto e/ou conhecimento, por não conhecer o plano de governo, propostas e até mesmo o perfil dos seus candidatos. Mas, em todo caso, eles estão nas campanhas e redes sociais se comportando se fossem especialistas em política, em questões sociais e/ou em administração municipal.

   Portanto, é muito oportuno o artigo abaixo, adaptado, que mostra o que contribui para a derrota dos seus candidatos, e que certamente muitos desconhecem como um candidato pode perder uma eleição, inclusive ele mesmo.

 

   É fácil perder uma eleição. Basta caprichar na desorganização e mergulhar fundo no ambiente caótico que caracteriza o período da campanha política.

   Gasta-se mais dinheiro e perde-se mais tempo em campanhas para perder do que em campanhas para ganhar. Esta é uma verdade que não decorre exclusivamente do fato de que há sempre mais candidatos do que vagas, mas sim de que há sempre mais derrotas do que vitórias. Verdade é que existem campanhas que nascem estigmatizadas por vícios de origem que, por sua vez, impedem-nas de ter competitividade, encaminhando-as inevitavelmente à derrota.

   Parece um contra-senso, mas não é. A intenção de acertar (e, por consequência, de ganhar) não é suficiente para suprir as deficiências fatais embutidas na campanha. A intenção é um ato de vontade individual. O resultado é um ato coletivo, produzido por milhares ou milhões de vontades individuais que arbitram qual, dentre as intenções em competição, merece vencer.

   Entre a intenção e o resultado, desdobra-se, no curto prazo de alguns meses, a construção, o gerenciamento e a operação de "máquinas políticas" especialmente montadas para disputar a eleição.

 

   A campanha eleitoral como máquina política

   Cada candidato monta sua campanha e a máquina que a executa, isto é, a organização mediante a qual os recursos materiais e humanos de que dispõe são usados para produzir votos no dia da eleição. Este já é, por si só,um desafio organizacional de tais proporções que é dificilmente alcançável de forma satisfatória pela maioria das campanhas. Aquelas que logram alcançá-lo enfrentarão ainda o problema do grau de qualidade do desempenho da máquina.

   A maioria das campanhas eleitorais, portanto, fracassa antes de começar, ao montar uma máquina de campanha ineficiente. Este não é um desafio a ser subestimado, nem uma falha que deva surpreender. Não basta ser capaz de conceber e constituir sua máquina eleitoral. É preciso, também, escolher as pessoas certas para as respectivas funções e ter a competência executiva para operar o mecanismo.

   A máquina é uma organização complexa, embora construída para durar alguns meses. Sua razão de existir é a produção de votos. Assim, concluída a eleição, ela é liquidada e deixa de existir. Reduzida ao essencial, sua estrutura é basicamente a mesma para qualquer campanha.   

   Entretanto, dependendo dos recursos com que conta, pode chegar a reunir milhares de pessoas, centenas de especialistas e movimentar um volume de recursos financeiros extraordinário. Sua função é claramente definida: produzir e sustentar uma candidatura, conquistando os votos necessários para levá-la à vitória. Em outras palavras, é um desafio equivalente a construir uma empresa praticamente do zero, financiá-la e organizá-la, produzir e comercializar. Tudo num espaço de poucos meses. Esta organização complexa divide-se internamente em setores especializados que se responsabilizam por diferentes tarefas:

• Captação de recursos (setor financeiro)

• Produção de informações (setor de pesquisas)

• Análise de informações e desenho do produto (estratégia)

• Formatação e apresentação do produto (publicidade)

• Comunicação do produto aos eleitores (mídias, trabalho de campo, ação do candidato, programas de rádio e TV)

• Escolha de alternativas e tomada de decisão (comando da campanha)

• Administração das atividades para colocar e manter o produto no mercado político (comando executivo operacional, coordenador de campanha)

 

   Com exceção, então, apenas das campanhas muito modestas, em eleitorados muito pequenos, o tamanho, o custo e a complexidade da organização eleitoral será gritantemente desproporcional ao tempo em que vai operar. Universos a partir de 20 mil eleitores já demandam organizações de campanha razoavelmente complexas e onerosas. Esta estrutura complexa - por si só, um desafio de enormes proporções para conceber, montar e financiar e dirigir - vai operar no mais inóspito dos ambientes: o eleitoral, possuidor de características singulares, dentre as quais se destacam:

• Período de tempo muito reduzido (alguns meses)

• Condições extremamente competitivas, nas quais é tão válido atacar os concorrentes, quanto promover o seu produto

• Ambiente de enormes tensão, nervosismo, incerteza e ansiedade

• Desfecho radicalmente resolutivo (pelo menos para os cargos executivos, em um único dia)

   Em outras palavras, uma situação extremamente propensa a decisões impulsivas, passionais e casuísticas - e, por outro lado, hostil às decisões racionais, equilibradas e estratégicas.

   Comparada com uma empresa competindo no mercado, a organização eleitoral equivaleria a uma instituição que jogasse toda a sua sobrevivência econômica numa única campanha de vendas, restrita a um único produto, e cuja venda seria realizada num único dia.

   Estaria, assim, sujeita à mais selvagem forma de competição que se pode imaginar. Ou ganha tudo ou perde tudo. Não se trataria, como é a regra, de ocupar um espaço no mercado, deter uma fatia dele e continuar competindo. Ou se ganha a competição, aufere-se os lucros devidos e, de modo excludente, coloca-se seu produto como único (por um período fixo de tempo-mandato), ou perde-se a competição, assume-se o prejuízo, liquida-se a empresa e retira-se o produto, pelo menos até a próxima campanha de vendas.

 

   Rumo ao caos

   É importante não confundir aqui a organização de campanha com outras estruturas políticas que sobrevivem à eleição, como os partidos políticos. Esta condição de competição selvagem somente se aplica às organizações eleitorais, àquelas "empresas" que são montadas para uma "campanha de vendas" que se limita ao dia da eleição. Por essas razões, costuma-se dizer que as campanhas eleitorais são organizações direcionadas ao caos. Quem já participou de alguma campanha eleitoral há de lembrar que, na medida em que a data da eleição se aproxima e/ou que as pesquisas tragam más notícias e/ou que a competição se acirre sob a forma de ataques e/ou comecem a faltar recursos indispensáveis, a atmosfera da campanha muda, tornando-se intensamente nervosa, internamente dividida, muito suscetível a atitudes e decisões passionais e impulsivas. Nestes momentos está em curso uma dinâmica auto-destrutiva, fácil de entrar, mas difícil de sair.O foco da campanha desloca-se do eleitor para a equipe - na busca de culpados e responsáveis pelos maus resultados - perdendo-se o precioso tempo de campanha em discussões estéreis e divisivas, tendo seu rumo pautado pelos adversários, tomando decisões impulsivas e emocionais que, no seu conjunto, resultam na fragilização do candidato e da sua candidatura. Esta é a história das campanhas para perder, aquelas que fracassam antes de começar em razão da montagem ou da operação de uma ineficiente estrutura organizacional de campanha ou da escolha de uma equipe e/ou de um candidato destinado à derrota, e até mesmo do mau uso das redes sociais.


 
 

 

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