243 - POLÍTICA PARA ALÉM DO BEM E DO MAL

18/10/2013 07:23

   Baseado no artigo de Antonio Ozaí da Silva

   Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/052/52pol.htm

 

  

   Política e religião

  A violência e o descaso está presente em nosso cotidiano – inclusive assumindo formas dissimuladas. Reina nas regiões mais carentes como que envoltas numa guerra civil diária não assumida pelas autoridades; ela é prevista e legitimada no poder político, isto é, constitui uma das funções do Estado, mesmo o democrático. Qual Estado pode abrir mão do recurso da intimidação e de todos os meios necessários para induzir os cidadãos a obedecer o status dominante ?

   Tudo isso parece não existir para determinados indivíduos que vivem no mundo das nuvens e reduzem as contradições sociais à eterna luta do bem contra o mal. Como que num transe coletivo, mas que incoerentemente objetiva a salvação individual, estes guardiões da moral e dos bons costumes adotam uma postura apolítica e voltam-se para o aspecto pessoal. São religiosos bem intencionados que constroem a cidade de Deus, isto é, cuidam das suas almas. As questões sociais que assolam a sociedade fiam à distancia. Sobram discursos que garantem audiência e, por trás da histeria coletiva e individual, cada um busca sua própria salvação, ainda que afirmem amar ao próximo ! Eles se aglomeram e oram, mas se limitam ao individualismo egoísta religioso.

  Ledo engano! A individualização das soluções para problemas terrenos, sociais, econômicos e políticos, deslocados para um plano transcendental e pessoal também cumpre um papel político: alivia a pressão e funciona como uma espécie de anestesia coletiva. Afinal, este aspecto pessoal religioso não questiona a realidade social desigual e desumana, nem questiona sobre os responsáveis por tal situação. Induz à submissão ! Que se entregue à divindade o bônus e o ônus ! Ele assim o quis, assim o será ! Que as coisas permanecem como estão; a nossa recompensa está no além. Essa mensagem de resignação é mais antiga do que parece. Ontem como hoje, os poderosos agradecem a tais "religiosos".

   Eis como a religião atual adentra na política: afastando-se desta ou procurando instrumentalizá-la em nome de uma moral baseada na interperetação literal dos livros sagrados. Esta postura individualista e/ou conservadora é a resposta aos que vêem na religião uma força que deve se aliar à política para construir o reino de Deus aqui na terra, mas numa perspectiva coletivista e que pressupõe uma opção política pelos pobres e oprimidos.

  O senso comum diz que religião e política não se discutem. Pelo contrário, precisamos refletir sobre a relação entre violência e política e, por outro lado, entre estas e a religião. Um simples olhar sobre a história da humanidade evidenciará a relação existente entre política, religião e violência.

  Gostemos ou não, política, violência e religião entrelaçam-se em diversos contextos históricos. Há mesmo determinadas circunstâncias onde estão de tal forma intrincados que é difícil distinguí-los. E mesmo quando busca-se uma solução pacífica, resultante das pressões sociais e políticas internas e externas dentro de uma nova a necessidade e realidade social, a violência não está descartada. E ainda pode ser induzida para parecer uma disputa religiosa...

   A democracia que temos foi construída com sangue. Não podemos esquecer o passado. Temos a obrigação de legar às futuras gerações uma história que, quando muito, é tratada nos livros e bancos escolares. Lembremos dos que, com erros e acertos (mas só erra quem age) dedicaram a vida ao povo, ao sonho de uma vida melhor para os excluídos da cidadania. Ontem tratados como terroristas, hoje como subversivos e outros titulos. Seus nomes são vários. Lembremos de dois: Carlos Marighella, assassinado pela ditadura em 04 novembro de 1969; e, Santo Dias, assassinado pela polícia sob o governo Maluf em 30 de outubro de 1979. Um, guerrilheiro e comunista; outro, operário metalúrgico, militante da Pastoral Operária. Eis a política, a violência e a religião em ação...

  Os que imaginam a política prisioneira da moral, de noções como o bem e o mal, ou são ingênuos ou hipócritas. Os primeiros parecem acreditar que o mundo é habitado por anjos e demônios e não por seres humanos, com qualidades e defeitos inerentes à sua humanidade, com interesses opostos uns aos outros e também propensos à discórdia.

  Os homens competem, desconfiam uns dos outros e buscam o poder e a glória. Somos ainda mais ingênuos e/ou hipócritas quando tentamos isolar a política do cotidiano, como se no dia-a-dia, independente de participarmos da política, não competíssemos e não buscássemos segurança e reputação. Usando um termo que está na moda, esta atitude é uma forma de blindagem: os maus são os outros, os políticos; a boa consciência do indivíduo passivo e apolítico expressa a sua pretensão à pureza, à santidade; precisamos demonizar os políticos para justificar nossa passividade e descomprometimento diante dos dilemas sociais e humanos que envolvem o viver em sociedade.

   A política não pode ser sem moral. Em outras palavras, por mais laico que seja o Estado, os políticos também serão avaliados pelos valores fundados em preceitos morais e religiosos. Sua sabedoria consiste em saber usar isto a seu favor e contra os seus adversários. Assim, é cada vez mais comum a presença da linguagem religiosa no discurso político. Mas se temos algo a aprender com a história é precisamente o fato de que o mundo dividido entre o bem e o mal é uma ilusão. É certo que esta é uma estratégia eficiente para o arrebanhamento de seguidores, mas é ineficiente para os que almejam compreender a realidade política e social para além do bem e do mal. Afinal, o mal e o bem é inerente ao humano, seja ele político ou religioso, ou ambos !

"A política usa a religião para chegar no poder !

A religião usa a política para ter poder !

A violência está nas duas, pelo poder !"

 

 

 

 

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