27 - CIÚME E INVEJA NAS RELAÇÕES POLÍTICAS

07/08/2012 11:04

          Artigo adaptado de Francisco Ferraz

          Fonte: www.politicaparapolitico.com.br  


    Todo político teme perder. Seja o próprio poder ou mesmo um debate, uma oportunidade, uma eleição, seus aliados e assessores. Se ultrapassar a fronteira da confiança os problemas serão muitos - e quase sempre irreversíveis.

  O Blog tem observado o comportamento de uns e outros candidatos que ainda não superaram os aspectos nocivos de ciúme, incluído da inveja, nas relações pessoais, políticas principalmente, inerentes à própria vaidade pessoal. Selecionamos e apresentamos o texto abaixo, que trata muito bem desta questão que costuma levar ao prejuízo os que não conseguem superar esse lado negativo da personalidade, e consequentemente à derrota nas pretensões políticas e eleitorais,

 

   “Os mundos da política e da vida privada são muito diferentes entre si, mas mantêm indiscutível relação. Que não se resume a transferir automaticamente um padrão de comportamento, na sua integralidade e pureza, de uma esfera para a outra: alguma modificação sempre ocorre, seja para alterar significados, inverter efeitos ou até preservar características. De qualquer forma, tenha cuidado sempre que você se transportar de uma esfera para a outra e analise friamente o quadro, para entender as conseqüências efetivas de suas ações. Na política, um dos sentimentos mais fortes com o qual tem que se lidar é o ciúme. O político é um ser competitivo, ambicioso, aquisitivo e treinado para a luta.

  Inevitavelmente insatisfeito e inseguro, ama, odeia, esquece, despreza, bajula, briga e reconcilia-se com enorme facilidade e freqüência. Acima de tudo, é territorial e possessivo: defende seu espaço (num amplo sentido, como tudo o que considera seu) aguerridamente e desenvolve extremo apego às pessoas que trabalham junto dele e também a seus apoiadores. Seu ambiente de atividade é naturalmente disputado. Assim como quer ampliar seu patrimônio político, os concorrentes também o querem. E só há uma maneira de multiplicar esses bens: atraindo os eleitores dos adversários. Nesse meio carregado de incertezas e inseguranças, no qual os apoios e alinhamentos são acertados pela palavra - sempre uma frágil garantia – a competição é permanente e incessante.

   Como não pode saber, com segurança, a extensão das perdas e traições que ocorrem na sua base de apoio, o político torna-se uma pessoa de exacerbada sensibilidade com sua imagem e os sinais de perigo. Dentre estes, talvez o mais assustador seja o que diz respeito à lealdade de auxiliares e apoiadores. Nenhum princípio é mais valioso para um político do que esse.

   Havendo lealdade, tudo é perdoado. Inexistindo, nada é tolerado. O sentimento que vigia a lealdade é o ciúme, um sentinela ativo e sofisticado do comportamento do colaborador ou da pessoa amada. Ele desenvolve técnicas de observação sutis, capazes de identificar qualquer afastamento, por mínimo que seja, do padrão esperado e previsto. Emprega testes dissimulados para avaliar a consistência da lealdade. Exige explicações detalhadas para fatos e atitudes que deixaram dúvida. Possui alvos classificados como perigosos (pessoas com as quais o auxiliar poderia tramar e trair sua confiança) e a qualquer momento pode incluir outros tipos potencialmente perigosos.

   Nenhum princípio é mais valioso para um político do que a lealdade, sempre vigiada de perto pelo ciúme.

   Quem trabalha com um político percebe o quanto o ciúme ocupa a sua mente e orienta a sua observação. Períodos eleitorais, então, são momentos críticos, nos quais esta preocupação acentua-se. O ciúme depende sempre da existência de um triângulo cujos elementos são sempre os mesmos: uma relação de lealdade que une duas pessoas e um competidor que pretende atrair para si o colaborador que não participa da disputa direta. Quem trabalha com um político jamais deve subestimar a força e o poder do ciúme nas relações com seu chefe.

Acostumado a presenciar traições, o político dificilmente desenvolve uma confiança absoluta e irrestrita nos outros. O tempo passa, as pessoas mudam e o risco está sempre presente. Por outro lado, fazer política é envolver-se numa ação coletiva e competitiva. Portanto, não é possível ter sucesso sem confiar nos aliados, amigos, auxiliares e apoiadores. É em meio a esses dois pólos que navega a psicologia do político. E entre a necessidade de confiar e o risco de confiar, vence a primeira. Em conseqüência, aquela sensibilidade intensifica-se-se sob a forma de ciúme para vigiar a lealdade.

 

   Instalada a desconfiança, o assessor e o adversário passam a ser observados de perto pelo político, na intenção de surpreendê-los em plena traição.

   O ciúme do político não se dirige apenas - e nem principalmente - contra seus adversários e inimigos. Para estes, há barreiras que bloqueiam o relacionamento. Os verdadeiros alvos são os aliados, os membros do mesmo partido ou coligação que, embora compartilhem um projeto político, cultivam seus próprios planos. Muitas vezes um assessor, com a melhor das intenções, toma a iniciativa de propor ou aceitar um encontro com outro político para resolver algum problema, trocar idéias sobre questões correntes ou, ainda, arbitrar algum desentendimento. E o faz sem consultar o chefe. Quando ele souber - pelos outros ou pela iniciativa do auxiliar – na maioria dos casos a desconfiança irá se instalar. Será que a motivação do encontro foi mesmo a alegada? Será que a conversa foi mesmo sobre aquele assunto? Será que tudo lhe foi contado? Será que o colaborador não fez alguma revelação indevida? Será que o ato de tomar a iniciativa não significa que ele está se sentindo livre para agir por conta própria? Será que ele não se sentiu atraído pelo concorrente e tentado a "mudar de time"? Estas e outras indagações, acionadas pela dinâmica do ciúme e da insegurança, passam a ser contrastadas com ações e comportamentos recentes, a fim de confirmar ou excluir a hipótese da traição.

  Mas não é apenas o auxiliar que é investigado assim. O concorrente com o qual ele se encontrou também passa a ser observado, no esforço da comprovação indireta, como a observação, o "flagra", o relato de outros. Se há ciúme e desconfiança, a declaração pessoal é insuficiente: se a pessoa é considerada capaz de trair uma relação – seja afetiva ou de trabalho - não lhe será fácil mentir e persistir no engodo. A maneira como o ciúme e a desconfiança desagregam o raciocínio de Otelo - o emblemático personagem shakespeareano - ilustra magistralmente os extremos a que tais sentimentos podem levar uma pessoa. Quando a desconfiança se instalou, o único recurso é a busca da confirmação indireta, já que a palavra da pessoa não pode mais ser aceita como verdadeira. Mas essa modalidade de prova é sempre incompleta, insatisfatória e duvidosa.  Não resolve a dúvida - e somente a magnifica e agrava. O ônus psicológico torna-se insuportável e o rompimento acaba sendo a solução que produz mais alívio.

   Nem todos os políticos são ciumentos na mesma medida. Haverá os que chegam à beira da paranóia, assim como aqueles cuja segurança lhes permite uma confiança de envergadura bem maior. De qualquer forma, em nenhuma hipótese subestime a potencialidade do ciúme nas relações políticas. Ofereça provas de sua lealdade, sem exageros (que criam desconfiança), e descubra limites confortáveis para suas iniciativas e ações. Dentro deles, exercite sua liberdade

e sua iniciativa. Conheça seu chefe, as fronteiras de sua confiança e sua propensão para o ciúme.  Não acredite piamente em suas palavras: ao falar, sempre parecerá seguro, liberal, desprovido de ciúme e aberto. Observe o comportamento dele para com os outros e você descobrirá a verdade.”

 

 

 

 

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