28a - A MENTIRA E A VERDADE NA POLÍTICA - 1

09/08/2012 10:16

        Parte 1: Mentira, a negação da verdade       
          Adaptado do texto extraído do “Verdade e Política” de Antonio Maria Baggio

          Fonte: http://www.mppu.org.br/novo/download/pdf/verdade_e_politica.pdf

   Apresentamos o texto abaixo para que estejamos sempre atentos ao que se passa no âmago da nossa política local, que não é diferente de outros lugares.

 

   “... em discussão um aspecto da crise política contemporânea: a exacerbação do conflito entre política e verdade. Este problema vem somar-se à questão da progressiva perda de competência por parte da política atual.

 

   É o nosso problema atual, que faz com que, na política cotidiana, não só em Várzea Paulista, já não se consiga entender quem tem razão e quem está errado, e que políticos de idéias opostas se baseiem nos mesmos princípios, e permite que alguns apelem para certos fatos cuja existência, ao contrário, é negada por outros.

   Esse último ponto, isto é, a negação das verdades de fato, a impossibilidade, para os cidadãos, de apurá-las, faz soar o alarme a respeito das condições da política, porque a negação dos fatos sempre foi algo típico dos políticos que tem algo a esconder, não querem aparecer como mentirosos ou querem passar por honestos e corretos. A mentira, enfim, impõe-se pela eliminação direta da verdade.

   Cancelar a verdade significa cancelar a política. E isso demonstra que a política, se quiser continuar sendo tal, não pode se furtar do confronto com a verdade, que é sempre confronto com a realidade do outro.

   A realidade é tal justamente porque é “outra” em relação àquele que a considera. Na raiz da negação da verdade está, da parte dos diversos sujeitos políticos — individuais e coletivos —, a recusa do outro, a vontade de se afastar dele e de se distinguir dele, ultrapassando a diferença real, alimentando o conflito. É um erro dramático, porque na origem do Estado há justamente algo oposto: há a partilha com o outro da mesma dolorosa experiência, a compreensão dos seus sofrimentos, a ajuda recíproca nas dificuldades comuns.

   Em nossos sistemas democráticos, a coisa é conduzida de forma diferente, mas o resultado é semelhante.

 

   Portanto a mentira é uma forma de ação: o mentiroso mente, diz “o que não é” para mudar “aquilo que é”, tirando vantagem disso. Sua mentira será tanto mais crível quanto mais convencido ele estiver da própria mentira.

  O auto-engano torna-se, assim, um dos mecanismos fundamentais de eliminação da verdade de fato: o mentiroso vai se adequando à própria imagem pública, da qual termina por depender e que deve continuamente renovar, através dos grandes meios de comunicação, que potenciam enormemente o papel e a força das próprias imagens. Prisioneiro deste jogo, o político, de um lado, condiciona o público e, por outro, investe-se da função de interpretar os desejos deste, em contínua interação com as imagens produzidas pelos outros: a um determinado ponto, como em geral vemos nos debates televisivos, não há mais jogadores direcionando as jogadas, mas é o jogo das imagens, no qual entram também os espectadores, que, por meio de sondagens ao vivo, manifestam a própria preferência, que passa a comandar os jogadores e assim por diante.

   Alguém poderá dizer que é a opinião pública quem determina as posições dos políticos: e isso já seria grave, porque um político autêntico deve ter um projeto, que tenta levar adiante independentemente das opiniões momentâneas; mas ainda mais grave é que não se percebe mais a diferença entre os fatos e as opiniões, ou também que as verdades de fato sejam transformadas, por meio da manipulação contínua das imagens, em opiniões: é desse modo que o sistema de comunicação de massa se torna instrumento de poder, favorecendo a instauração de uma concepção puramente processual de democracia; vence politicamente quem conseguir influenciar o maior número de opiniões, mesmo a despeito dos fatos e da verdade. E o pior mentiroso é o que mente e garante que quem mente é o outro.

 
 
 
 

 

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