309 - POLÍTICA, PROMESSAS, COMUNICAÇÃO, CLAREZA E CREDIBILIDADE

02/04/2014 07:41

  

  Enquanto a questão da invasão dos reivindicantes por moradia não se define claramente ante a opinião pública, considerando o jogo político em torno da questão, onde as informações são aparentemente manipuladas conforme os interesses envolvidos de cada parte, publicamos abaixo um artigo que procura definir um momento sempre presente em situações incertas, onde clareza é fundamental para não perder credibilidade, COISA QUE O GOVERNO EXECUTIVO E LEGISLATIVO TEM DEIXADO MUITO A DESEJAR.

  

   Artigo de Francisco Ferraz - www.politicaparapoliticos.com.br

  Não há regra mais importante na comunicação política do que clareza. 

  A política depende do falar: discursar, argumentar, conversar etc. Não basta, entretanto usar da palavra para o candidato dizer o que quer, da forma que bem entender. Se ele não falar de forma a ser entendido pelos cidadãos sua comunicação não vai funcionar.

  Como se usa, na comunicação política, a mesma linguagem usada na comunicação social – nas conversas em família, com amigos, no trabalho –  os conceitos políticos incorporam um grau de ambiguidade muito alto, decorrente de sua aplicação a outras áreas.

  O conceito de poder, por exemplo, tem um significado na política muito diferente do que tem, quando aplicado às relações familiares, afetiva, ou até mesmo de trabalho.

  Neste aspecto, a linguagem política se diferencia radicalmente da linguagem usada em outras profissões como ocorre na medicina, na engenharia, no direito, na economia, etc. Estas profissões possuem uma terminologia que só os iniciados nela, seus praticantes entendem. Os termos e conceitos que usam possuem significados claros, não ambíguos, e referidos a sintomas previamente descritos (o mais das vezes, de forma quantitativa).

  Assim, uma convulsão, por exemplo, possui uma descrição sintomática precisa, de forma que, qualquer médico que a observe, chegue ao mesmo diagnóstico e dê ao fenômeno o mesmo nome.

  Tal não ocorre na política. Os termos políticos mais importantes para o desenvolvimento de teorias, e para a análise e descrição dos eventos, são fartamente partilhados com o senso comum. Atente-se, por exemplo, para conceitos como poder, influência, conflito, interesses, consenso. Promessa é um desses conceitos que se não for clarificado  mais prejudica que ajuda o candidato.

  Não se ganha eleição sem promessas. Prometer equivale a se comprometer com o eleitor. A assumir o compromisso de fazer certas coisas, durante o mandato. A promessa eleitoral assume a forma de um contrato informal – “eu farei isso se for eleito, logo votem em mim para terem o que desejam”. O eleitor, em princípio, aceita essa “transação”.

 Afinal, cada eleição é uma mobilização de esperanças, uma oportunidade para “arrancar” dos políticos alguma vantagem. Por outro lado, o eleitor encara a promessa com muito ceticismo.

  Mas ele já conhece a história, já ouviu muita promessa e já se decepcionou muito. Ele sabe que o candidato em campanha é fértil em promessas, mas no governo se torna inacessível, esquece-se do que prometeu, ou dá desculpas e evita o contato com o eleitor para não ser cobrado.

  Assim, o eleitor pragmático, o que é capaz de decidir seu voto em função de promessas, faz o seu julgamento sobre o grau de credibilidade que o político possui, para avaliar o grau de realidade que a promessa poderá ter.

  Este é um dos pontos que distingue uma campanha eleitoral feita por profissionais, da campanha tradicional.

  Para o cientista político, ao contrário da situação do consumidor que vai à loja e compra um produto e sai com ele debaixo do braço, na política, o que o eleitor compra com seu voto é, no máximo, uma expectativa, uma esperança, sobre cuja realização efetiva ele não tem mais nenhum controle depois que entrega seu voto.

  Por isso, para o eleitor, a credibilidade de quem promete, e a exequibilidade do que foi prometido, são critérios fundamentais e decisivos para influir em sua decisão de voto.

  Ao fazer promessas, durante a campanha, devemos nos certificar que estamos escorando-as em elementos fortes de convicção. Esses elementos não são nada diferentes dos que usamos na vida privada para reforçar a palavra empenhada:

  (1) a presença de testemunhas que avalizam aquela intenção (por exemplo ter ao seu lado, igualmente comprometido, o deputado ou autoridade da região para avalizar);

  (2) a mostra de plena informação sobre o objeto da promessa - o custo, a forma de realizá-la, o tempo necessário, a precisa descrição do que será feito, conforme o caso informações técnicas mais detalhadas – mas não demasiadamente;

  (3) um cronograma tentativo com data de entrega definida - comprometer-se não só em realizar, mas fixar um cronograma tentativo e uma data final, expondo-se assim a ser cobrado, e,  ao mesmo tempo, dando uma medida de realidade que permita o acompanhamento do trabalho;

 (4) anunciar um mecanismo administrativo de comunicação entre a população envolvida e o governo, de forma a dar segurança de que continuarão a ser ouvidos;

  (5) mostrar de forma convincente e precisa de onde virão os recursos para a realização da obra. Isto é, mostrar que haverá recursos destinados àquela realização, suficientes para concluí-la. Atenção, muito cuidado com as promessas que se sustentam em recursos “a serem conseguidos, captados”. Não é proibido fazê-lo, mas é preciso estar consciente de que, sendo uma promessa menos segura, é necessário dar evidências (de preferência documentos) de que o recurso está praticamente assegurado, ou de que certamente virá, uma vez eleito.

  (6) Relembrar os casos que comprovam que o candidato cumpriu com as promessas feitas, em outras oportunidades.

  É preciso mostrar que a obra ainda não foi feita por “falta de vontade política”. Que com esta vontade, com recursos disponíveis e uma administração honesta e competente, a obra (ou serviço) podem sem qualquer dúvida ser realizada.

   Tudo isto ajuda a reforçar a credibilidade de quem promete e pode levar o eleitor a crer na promessa e destinar a ele o seu voto.

  É óbvio que o político só se dará a todo este trabalho se estiver seguro de que quer realizar e de que terá os meios para isso. Se este for o caso, a regra é: sempre ofereça menos do que sabe que poderá fazer.

  Pode agradar menos do que oferecer mais, mas protege o político da decepção do cidadão e preserva sua capacidade de surpreender.

 

 

 
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