34 - AMIGOS E PARENTES NA DIREÇÃO DA CAMPANHA

17/08/2012 10:11

         Artigo de Francisco Ferraz

       Fonte: www.politicaparapoliticos.com.br

     Tenha cuidado. Se é uma perversidade excluí-los, é uma temeridade ainda maior incluí-los

   Ah! Os familiares. Enfim chega o momento de falar sobre eles. É uma perversidade excluí-los, é uma temeridade incluí-los. Se tivéssemos que enunciar uma regra geral – que terá por certo suas exceções – ela seria a seguinte:

“Familiares não devem participar do comando da campanha nunca, mas poderão ser úteis no desempenho de outras ações de campanha”.

   A regra não é apresentada de maneira arbitrária. Ela resulta de inúmeras observações deste problema “in loco” e da recomendação da literatura especializada. A razão principal para a proscrição dos familiares do núcleo central da campanha, prende-se ao fato de que para eles, o vínculo emocional sempre será muito mais forte do que o raciocínio tático e estratégico. Nem poderia ser diferente...

   A política, sobretudo o processo eleitoral, é intrinsecamente passional. A disputa pelo poder está concentrada de maneira intensa no breve período da campanha eleitoral; o desfecho desta disputa é dramático: as bênçãos da vitória, ou o amargor da derrota; o fato de que a competição acontece numa arena pública, isto é, tanto os lances como o resultado final são do conhecimento de todos os eleitores expõe o candidato à opinião pública; os valores que estão em jogo: a imagem, a reputação, os sacrifícios pessoais e familiares, as ambições e os investimentos de tempo e recursos já feitos, são fatores que inevitavelmente introduzem um componente emocional e até passional na campanha.

   O objetivo de uma campanha eleitoral (nunca é demais recordar, por mais óbvio que seja) é a vitória, e não a satisfação de um sentimento pessoal, por mais legítimo e autêntico que seja. A vitória, por outro lado, é o resultado final de uma estratégia vencedora – competentemente concebida e executada com disciplina, inteligência, e método . Estratégia sempre significa a escolha dos meios mais eficientes e dos procedimentos mais adequados para alcançar um objetivo.

   A campanha, ao executar um plano estratégico, segue um curso de ação que foi fixado racionalmente, ao qual os sentimentos, as emoções e as paixões devem se subordinar.

   Ora, para os familiares, não obstante as juras em contrário de antes do início da campanha, as questões políticas sempre se personalizam e se “familiarizam”, dificultando o trato racional e estratégico das mesmas. Mais sério ainda. Quando todos os assessores vão embora, depois de terminada a reunião, o candidato fica a sós com eles, com a mulher, com os filhos, com os irmãos. Muitas vezes ocorre então uma segunda reunião, sem “estranhos” na qual as mesmas questões já discutidas do ângulo estratégico, são encaradas do ângulo “moral”, do amor próprio, do orgulho familiar, e de sentimentos mais agressivos como a antipatia, o ódio, o ressentimento, o desejo de vingança etc.

   Há um teste claro para se descobrir se essa segunda reunião aconteceu, e teve efeitos decisórios. O candidato raramente o revela, mas, na manhã seguinte, quando ele aparecer com decisões muito diferentes daquelas adotadas na reunião com sua equipe, alegando ter pensado melhor e mudado sua decisão, sem muita vontade de discutí-las, inconfortável com a situação, esteja certo: a família “fez a sua cabeça” e ele encontra-se numa situação de profunda irritação, porque teve que defender seus auxiliares junto à familia, e agora terá que defender os argumentos da família junto aos auxiliares.

   Esta situação de conflito – família x auxiliares e profissionais – sobretudo depois que as pesquisas indicam que a candidatura não vai bem, é absolutamente catastrófica para o candidato. Mal administrada, ela destrói a campanha.

   Os membros da família têm seus “amores e ódios” pelos auxiliares da campanha.

Com o envolvimento da família, ocorrem ainda, outras situações típicas. Os membros da família têm seus “amores e ódios” pelos auxiliares. Têm suas desconfianças quanto à competência, quanto à lealdade, e quanto aos interesses deles. O “martelar” constante contra um ou outro dos auxiliares, apontando seus erros, seus hábitos, suas eventuais falhas, acaba por produzir seu efeito no candidato, que passa também a ter dúvidas que não tinha sobre eles.

   Familiares, autenticamente preocupados com o rumo da campanha, fazem alianças táticas com auxiliares ou com membros do staff profissional (igualmente travando suas lutas internas por influência junto ao candidato) provocando a divisão da equipe de campanha, e pressionando o candidato a decidir de que lado fica. Este é o momento em que a campanha descarrila. O eleitor fica em segundo plano, e os conflitos internos ocupam a maior parte da atenção e do tempo da equipe.

   O candidato, torna-se irritável, “pavio curto”, sempre insatisfeito e de mau humor, propenso a atitudes impulsivas, e a exigir soluções imediatas para os problemas. Passa a ter suas desconfianças sobre o trabalho de sua equipe, sobre o acerto do rumo estratégico que foi dado à sua candidatura. Parece-lhe que, com ele tudo está funcionando mal, enquanto que com os adversários, tudo está indo bem.

   Como se tudo isto não bastasse, surge então uma pesquisa indicando que o candidato não vai indo bem, e seus índices nas pesquisas estão caindo ou não crescem. Abatido por tantas preocupações e desgastes, o candidato fica numa situação de fragilidade psicológica, necessitando o apoio, o estímulo, e o afeto que os familiares lhe proporcionam. Esta é a ocasião mais perigosa do ponto de vista político. É o momento em que as idéias que vinham sendo marteladas sem sucesso, conseguem abrir espaços para provocar mudanças na campanha.

   O problema não está em provocar mudanças. O problema é a lógica da mudança. Uma linha estratégica pode e deve mudar, se não está funcionando, sendo substituída por outra linha estratégica (ou mudanças de ênfases). O que não se pode fazer é substituir uma linha estratégica por reações emocionais! Não é incomum, em situações como essas, que “rolem cabeças”, modifiquem-se as estratégias por motivos emocionais, proceda-se a mudanças precipitadas na equipe e nas ações eleitorais, e instaure-se na campanha, um clima de insegurança, timidez e temor.

   O diagnóstico é claro: o passionalismo tomou conta da campanha.A família, quando entra na campanha, “entra para valer”. Não há área nem espaço que não esteja ao alcance de sua opinião e palpites. Essa questão ganha gravidade adicional nas campanhas mais caras, com propaganda pela TV. Nestes casos, a publicidade é o alvo preferencial.

   O problema já começa com as fotos. As preferências familiares pelas fotos são de natureza estética, enquanto as preferências dos profissionais são de natureza estratégica (imagem desejada). Depois das fotos, surgem problemas com os jingles, com a marca, com o slogan.

   As peças são apreciadas isoladamente pela família, enquanto que e estratégia e a publicidade as compuseram tendo em vista um plano global que se desdobra no tempo de forma articulada.

   O mais sério chega com os programas de TV. Não importa que os programas tenham sido discutidos por dias e semanas, por profissionais especializados e experientes, não interessa que tenham sido aprovadas nos “focus groups” (pesquisa qualitativa). O que importa é que não agradou.

   E não agradou porque? Ora porque o candidato apareceu pouco (pode ser uma decisão estratégica para evitar a sobre-exposição) o que é visto como um erro, um boicote, uma desconfiança; ora porque as imagens estavam muito escuras; ou porque o texto era muito agressivo, ou muito pouco agressivo; ora porque respondeu a uma acusação, ora porque não a respondeu; mas, acima de tudo, porque o programa do adversário estava melhor, no julgamento deles.

   Não agradou, portanto, por motivos subjetivos, estéticos, ou ainda por razões basicamente inconseqüentes. Os familiares conduzem diariamente a sua “pesquisa” (?) junto aos amigos, que, por serem amigos, tendem a pensar de forma semelhante, compartilhando opiniões e sentimentos políticos. O resultado desta “pesquisa” é apresentado ao candidato como se fosse o pensamento do eleitor: “Olha, as pessoas não estão gostando”, “Teu programa está ruim”, “O pessoal acha que se continuar assim não ganhas”...

   Não se pode esquecer nunca que uma campanha eleitoral executa um plano estratégico,  competentemente elaborado, no qual os fatores emocionais são, por definição, sempre subordinados às considerações de ordem estratégica. A família, incorporada à direção da campanha, age – com a melhor das intenções – no sentido inverso. Ela parte dos sentimentos para a ação política.

   O sentimento e a emoção, já foi dito aqui várias vezes, é útil quando está à serviço da estratégia, a ela subordinado. Uma campanha dominada por reações emocionais não tem chance de vencer, e o que é pior, uma campanha que mescla, de maneira arbitrária e casuística, sentimentos e racionalidade estratégica, consegue derrotar o melhor candidato. O que o candidato não deve fazer é ceder a esta pressão, e permitir-se uma reação emocional, e de improviso.

   São em momentos como estes que declarações infelizes são feitas, que serão exploradas pelos adversários, não apenas naquela campanha, mas pelo resto da sua carreira política. Não é por outra razão que os adversários fazem provocações e ataques pessoais, principalmente quando descobrem que a campanha entrou em crise. Seu objetivo é desviar o candidato de sua estratégia, colocá-lo numa posição defensiva e desestabilizá-lo pessoalmente.

   Ataques pessoais, entretanto exigem respostas imediatas, fortes, categóricas e verbalizadas de forma emocional. O eleitor não perdoa candidato atacado que não responde à altura ao ataque sofrido. Nestes casos, a expressão de sentimentos de indignação e revolta, é não somente legítima como útil, para os objetivos políticos da candidatura. Trata-se da defesa da imagem, do patrimônio moral, do respeito, valores que não se defendem com argumentos racionais e sim com a autenticidade dos sentimentos.

   Mesmo nestes casos, entretanto, até mesmo por sua singular importância pessoal e política, impõe-se o planejamento para dosar da maneira certa a forma e a intensidade da resposta.

   Como se viu, não há espaço para a família – como regra – no comando da campanha.

   Desobedecer esta regra é cortejar a derrota. O candidato maduro e prudente, ouvirá seus familiares, mas não se deixará convencer por eles. Se tiver que mudar a estratégia, vai trocá-la por outra, produzida com os mesmos critérios da primeira. Jamais vai permitir a súbita eclosão de sentimentos e emoções – por mais justos que sejam – em meio à sua campanha, a menos que por motivos igualmente estratégicos.

   A grande ajuda da família é de natureza afetiva, e na execução de ações de campanha (malas diretas da esposa, porta a porta feito por familiares, acompanhar o candidato nos momentos em que se requer, entrevistas que testemunhem aspectos pessoais positivos, e outras ações análogas). A responsabilidade final é do candidato. Ninguém, a não ser ele, tem o poder de abrir as portas do comando da campanha para seus familiares. Se o fizer, o fará por conta e risco. O que ele não deve nunca esquecer é que a vitória sempre será o castigo mais duro imposto aos seus adversários.


 
 

 

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