42 - O DISCURSO POLITÍCO E O ELEITOR

29/08/2012 09:26

       Desconfiança e ceticismo: as resistências do público ao discurso

         Artigo de Francisco Ferraz

         Fonte: www.politicaparapoliticos.com.br

   O discurso é a peça básica da oratória. Mas, cuidado, discurso é um daqueles conceitos que adquirem variados significados, que precisam ser bem esclarecidos

   O "discurso", como é convencionalmente entendido, se refere aquele tipo de oratória, onde uma pessoa, afastada do público por um púlpito ou palanque, fala, aos brados, para uma multidão que o escuta. Este, contudo, é apenas um tipo de discurso.

   O discurso, no seu verdadeiro sentido, significa uma seqüência logicamente articulada de argumentos, mediante os quais uma determinada tese é apresentada.

   O termo discurso, então, é muito mais amplo do que o conceito convencional de "discurso". É por meio dele que as idéias e argumentos de um orador se exteriorizam, como um instrumento de comunicação social. 

   Como se vê, o discurso, com este significado amplo, possui um nítido compromisso com a racionalidade. Ele se apóia em argumentos e apela para a razão, como elemento decisivo para lograr a persuasão de quem o ouve. Porém, há outros tipos de "discursos" que se apóiam em sensações e apelam para os sentimentos para persuadir. São discursos que pertencem à oratória da sedução.

   Na política, principalmente em eleições, usam-se os dois tipos de oratória: a da racionalidade e a da sedução. É necessário, entretanto, entender que pertencem a categorias diferentes, e que, portanto, usam regras e técnicas completamente diferentes entre si. Mais que isso, é preciso saber com clareza, quando usar um ou outro.

   É preciso estar preparado para uma reação inicial de defesa

   O discurso pode servir como veículo de comunicação, para os mais variados fins (discurso de aniversário, de formatura, discurso fúnebre etc.), cada um deles construído especificamente para a razão que levou aquele público a se reunir. Já o discurso político, assume a especificidade da política. Todo discurso político se constitui numa peça de persuasão em torno de um tema público invariavelmente controvertido.

   Enquadra-se naquilo que se chama de comunicação interessada, isto é, aquela comunicação que visa levar os ouvintes a adotar uma atitude pretendida pelo orador.

   Trata-se de um tipo de comunicação muito semelhante à do vendedor frente ao seu comprador potencial. Também ele usa da persuasão para levar o seu ouvinte a tomar a atitude que lhe interessa, no caso, a de comprar o produto que ele vende.

   Porque é tão importante caracterizar a comunicação política como um tipo de comunicação interessada? Pela razão de que a própria estrutura da situação já predispõe o ouvinte a uma posição defensiva, comumente de ceticismo, quando não de franca hostilidade ao orador e à mensagem.

   Tanto o vendedor como o político são pessoas catalogadas socialmente como interessadas em obter algo das pessoas que procuram. São estereótipos sociais difíceis de contornar, porque correspondem à realidade. Ambos, no exercício de sua atividade, são pessoas que buscam "alguma coisa que as pessoas têm", e nas quais estão intensamente interessados.

   Por esta razão, o político (como o vendedor) precisa estar preparado para superar a reação inicial de defesa e ceticismo, afim de que seus argumentos possam ser apreciados com boa vontade, ou pelo menos neutralidade. O político, mesmo em situações sociais, é percebido como alguém que está a se aproveitar da oportunidade "para vender o seu peixe", como se diz na linguagem popular.

   Assim, o discurso político, a menos que seja pronunciado para um público de "fiéis", já previamente identificados com as idéias e a pessoa do orador, sempre enfrentará uma resistência e uma auto-defesa silenciosa.

   Um bom discurso precisa de muita eficiência persuasiva

   Derrubar esta barreira é condição essencial para o discurso poder ter alguma eficiência persuasiva. Como rompê-la?. Às vezes, é impossível. São situações em que o orador tem a impressão de que fala para um "muro". Na maioria das vezes, porém, é possível superá-la, senão para todos os integrantes do público, pelo menos para a maioria ou parte deles, e ainda,se possível, deixar uma dúvida razoável na cabeça dos que resistiram.

   Os políticos tendem a adotar a "oratória do bem comum" para transformar o seu interesse no voto em interesse coletivo. O problema está em fugir da linguagem "bem comum" que já foi demasiado usada e está gasta.

   O mais aconselhável é encontrar, desde logo, um problema que afeta àquelas pessoas, no qual elas estarão necessariamente interessadas, pela prioridade que atribuem a ele. É, através dele que você começa o "desarmamento" do auditório. Por meio dele você estabelece uma base comum entre o que eles querem ouvir e o que você vai falar. Depois de explorar este caminho, tendo já conquistado o interesse deles, você então pode explorar outros assuntos, ainda que sempre estabelecendo a relação entre eles, suas vidas, e a questão que você vai abordar.

   Ao falar sobre assuntos da realidade do seu público você pode conseguir atravessar aquela barreira inicial de ceticismo e desconfiança, mostrando-se autenticamente interessado no problema deles. Seu discurso então poderá ser percebido como uma comunicação importante, cujo objeto vai muito além do seu interesse pessoal, levando as pessoas a ouvirem com atenção os seus argumentos.

   Votar em você torna-se, então, uma conseqüência, uma atitude legitimada pelo interesse deles, e não pelo seu.


 
 
 

 

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