450 - RELIGIOSO, ESTADISTA E POLÍTICO?

10/04/2015 09:25

    Abordagem de Jill Gooding, CSB
   “O político pensa nas próximas eleições. O estadista pensa nas gerações futuras”,

   Um estadista é um político que se coloca a serviço da nação. Um político é um estadista que coloca a nação a seu serviço." (Georges Pompidou)

    Esta abordagem é dedicada a todos os que se mostram ser político e religioso, em nome de Deus, mas não são... para refletirem e deixarem de se enganar e enganar os eleitores...

   Recordemos Platão: o preço da passividade do cidadão é, pelo menos, a possibilidade de ser governado por maus governantes. É que se trata afinal de um contrato, um pacto tácito: se o cidadão não se dá ao incômodo de votar, de discutir, de se informar, de lutar pelo que acha correto (ou pelos seus interesses) então, em consequência, quem tem o poder perde (ou não estabelece realmente) a vinculação com ele, e faz o que lhe parecer bem (ou o que seja do seu interesse). Primeira conclusão: quem nunca se “meteu em política” perde alguma legitimidade para reclamar. Os políticos são pessoas como nós, e se queremos que façam bem, devemos ajudá-los, obrigando a que a política siga o bom rumo que desejamos, obviamente pela nossa ação política. Não há outro meio.

   Importa, portanto, antes de tudo o mais, desmistificar a tese da radical diferença ontológica entre, de um lado, os “puros” e “bons” populares, meros sujeitos passivos e sofredores por causa dos políticos, os “maus” políticos. Todos podem (e deve) ser político, a seu modo. E, em geral, os políticos eleitos são os que mandam numa democracia .  Portanto o eleitor:

   1) não devesse ter votado neles.   

    2) Se cometeu engano, podem deixar de votar novamente.

   3) Pode fazer partidos novos. E votar neles. E mais que tudo: dirigi-los.

   A verdade é que muitos são omissos:

   1) Nunca participaram em nada de político, nem sequer nas reuniões do condomínio, nem nas reuniões de pais...

   2) Não votam, ou se votam fazem-no rotineiramente.

   3) Não pertencem a partidos, ou se pertencem, baixam a cabeça aos poderes instalados, nada fazendo para os renovar.

   Importa pois pensar quais as qualidades de um bom político, candidato a bom Estadista, para que consigamos finalmente encontrar um escol democrático que, repartido por vários partidos, salve o pluralismo e a democracia, já ameaçados pelo legítimo descontentamento, aproveitado pelos antidemocratas à primeira esquina do nosso descuido.

   Todos estaremos de acordo que deve o político ser honesto, honestíssimo, incorruptível, tendo em si impregnada a chamada ética republicana. Contudo, a partir daqui muitos param, como se isso bastasse. Não basta. Confundem-se a política, frequentemente, apenas com opinião. É evidente que a opinião deve ser livre, libérrima. Porém, além de haver um fascínio de alguns pelo especialista, pelo tecnocrata (que frequentemente poderá ser medíocre, ou monomaníaco e sem cultura, ou pura fraude mediaticamente construída), esquece-se que os bons políticos têm mais qualidades essenciais, e nenhuma pode faltar.

   Políticos devem ter ideais, uma ideologia. Ideologia não é coisa má, é o que faz o político ser mais que um escravo-dono do poder, além de se revelar um antídoto contra o oportunismo. Ideologia depende da opinião: de ideologias discute-se como de gostos. Mas, qualquer que seja a sua ideologia, o Estadista tem de ser ainda:

   a) Culto. Sem cultura nunca se entenderão as pessoas e as transformações multidimensionais do Mundo. O maior especialista, se não for culto, nunca conseguirá contextualizar o seu saber microscópico, e, assim, ele de pouco servirá.

   b) Inteligente. Pode-se aparentar cultura (na versão erudita) mas não se ser muito inteligente. É preciso, para ser um bom Estadista, muita inteligência, e de vários tipos. Digamos, resumidamente: inteligência organizacional, que entende como os grupos funcionam; inteligência emocional, que é sensível ao coração das pessoas; inteligência espacial, que compreende as coisas, as distâncias, as localizações; inteligência abstrata, que pensa em coisas formais e depuradas que só existem na cabeça, mas que são importantíssimas; e só depois vem a inteligência lógica e numérica, que é a que normalmente se confunde hoje com inteligência “tout court” (simplesmente).

   c) Maduro e Experiente. Honesto, com ideais, culto e inteligente - só esse pode ser um bom estadista. Porém, acrescente-se que precisa de maturidade, e de alguma experiência profissional, porque se nunca fez nada na vida real, não saberá o que custa trabalhar... Nem será assim sensível às coisas práticas nem aos problemas concretos das Pessoas.

   Na verdade, o modelo do bom Estadista é também o modelo do bom gestor público.

   Artimanhas políticas, escândalos, suborno, corrupção – o mal assume vários aspectos nos atuais sistemas governamentais do mundo todo. O partidarismo mesquinho, a fraude e os interesses egoísticos parecem predominar. O que pode ser feito para ajudar a libertar nosso mundo das “pretensões da política e do poder humano”?
   Como é que nós, individualmente, como cristãos, consideramos a política e os políticos? Como é que os escolhemos, votamos neles e os apoiamos? Como colocamos as melhores pessoas (homens e mulheres) nos cargos públicos? Como nos comportamos em nossa vida particular de modo a sustentar o mesmo padrão que exigimos de nossos representantes eleitos?
   Ouvimos frequentemente dizer que, na vida pública, precisamos de estadistas ao invés de meros políticos. Mas qual é a diferença?

   O dicionário indica que “político”, em seu pior sentido, sugere interesses mais restritos e frequentemente egoísticos do que os de um estadista.

   Já o estadista, é capaz de uma visão ampla e de sábia    providência nos negócios de estado.

Foi dito que a diferença entre o político e o estadista é que o político pensa em si mesmo e em seu partido, ao passo que o estadista pensa no povo e na nação.
   Na Bíblia, vemos que os homens que mais fizeram em prol de suas nações, liderando-as, provendo ao seu bem-estar e protegendo-as do perigo, foram estadistas. Grandes homens, como Abraão, José, Moisés e Neemias fora estadistas de primeira ordem. Interesses egoísticos, vontade própria e o enriquecimento ilícito, eram coisas alheias a seus pensamentos e ações.

   Em contraste, muitos líderes políticos e reis, na Bíblia, tais como Jeroboão, Zinri, Acabe e Peca (para mencionar somente alguns), não deixaram nenhum marco na história e pouco fizeram para elevar suas nações. Talvez um dos maiores exemplos de estadista encontre-se na pessoa de José. Nele temos um homem que, vendido como escravo, elevou-se em terra estrangeira até o posto de primeiro-ministro dessa nação. Integridade moral, visão e interesse compassivo pelos outros foram as qualidades relevantes que o elevaram até a segunda posição, em importância, daquele país. Sua integridade moral, no meio de graves e contínuas provocações fê-lo recusar-se a baixar seu padrão de moralidade, apesar de que, se o tivesse feito, poderia ter conseguido promoção imediata. Era ele um homem de visão, de pensamento aberto, horizonte vasto, imaginação audaz e, ao mesmo tempo administrador e negociante capaz. Ele não era interesseiro, mas sim servidor. Mesmo na prisão, seu interesse genuíno pelos outros o levou a perguntar a seus companheiros de prisão, oficiais do faraó: “Porque tendes, hoje, triste o semblante?” (Gênesis 40:7.)
   Não permitiu que a malícia, o ressentimento, a vingança, por mais que fossem justificados, motivassem ou impulsionassem suas ações. O exemplo brilhante de José é um dos que bem faríamos em ponderar e imitar.
Embora não nos seja permitido ficar cego às coisas erradas no governo, à desonestidade e ao mal, naqueles que ocupam cargos públicos, a visão espiritual do homem como imagem e semelhança de Deus, expressando a atividade correta, construtiva e impulsionada pela Alma, é a visão real, a qual trará o controle de Deus mais e mais em evidência em nossos círculos individuais e governamentais..(...)
   Foi dito, e com razão, que cada país tem o governo que merece. Se nosso país parece ter um governo que precisa de cura, não deveríamos desinteressar-nos pelo problema, como se estivesse “lá”, nos distantes gabinetes governamentais, mas deveríamos começar a exigir o verdadeiro governo, e as qualidades dignas de um estadista. 
   Podemos orar com profunda humildade usando as palavras do Salmista: “Ó Deus, cria em mim um coração puro e dá-me uma vontade nova e firme! Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu santo Espírito. Dá-me novamente a alegria da tua salvação e conserva em mim o desejo de ser obediente. Então ensinarei aos desobedientes as tuas leis, e eles voltarão a ti. Ó Senhor, põe as palavras certas na minha boca, e eu te louvarei.”(Salmo 19:10-13,15).

Oremos !

 

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