60 - Será que o povo sabe votar ?

22/09/2012 08:24

Adaptação do artigo de Cristian Klein

Fonte: http://www.jblog.com.br/politica.php?itemid=20963


   A cada dia as eleições se aproximam mais, as campanhas esquentam e o eleitor vai entrando em contato com o perfil dos candidatos e os termos da disputa. Diferentemente do que prega o senso comum (ou pelo menos o grupo de desencantados ou do exagero do medo), o cidadão não precisa ter um vasto conhecimento político para tomar uma boa decisão. Um conceito mal intencionado costuma dizer que “o povo não sabe votar”.
   O preconceito tem suas razões. O mundo da política é, de fato, complexo: a maioria das pessoas não tem, nem os próprios políticos, o domínio sobre todas as variáveis que estão em jogo. Não tem conhecimento, nem informação. E mesmo que tivessem não haveria capacidade de processamento. Há até quem defenda, lançando mão de estudos sobre percepção, que o cérebro humano não foi feito para o mundo da política, pois se desenvolveu numa época em que lhe eram exigidas habilidades muito mais simples. Pode ser.
   No entanto, as pessoas fazem suas decisões no âmbito político. De que maneira? A primeira resposta é que fazem por meio de atalhos e sinais. É verdade que, em crítica elitista à democracia, a imensa maioria dos cidadãos é capaz de dedicar mais tempo a entender as regras e os detalhes de um passatempo na sua vida privada – como o jogo de cartas – do que se interessar pelo funcionamento da esfera pública. Mesmo assim, como apontam alguns dos trabalhos mais conceituados desta linha de pesquisa da ciência política, as pessoas encontram respostas satisfatórias para suas dúvidas políticas. Fazem suas escolhas utilizando pistas que sintetizam e resumem um emaranhado de informações. Na verdade, em boa parte dos casos, este é o problema.

   Não há escassez de informações, mas excesso delas.

   Diariamente, as pessoas são expostas ao noticiário político, sobretudo em épocas de campanha. Partidos são a forma mais tradicional de atalho, pela qual os eleitores podem abreviar sua decisão e reduzir o que se convencionou chamar de custos de informação.
Uma analogia que mostra como o cidadão pode fazer decisões razoáveis numa democracia é a que compara o sistema político ao trânsito. Um motorista, para evitar uma colisão enquanto dirige seu automóvel, não precisa saber a velocidade, a massa de outros veículos que estão em circulação ou as intenções de seus ocupantes. Basta seguir os semáforos e a sinalização. É claro que o grau de respeito às regras de trânsito varia de lugar para lugar. No entanto, mal ou bem, certos protocolos precisam estar em vigor para que a circulação se dê, e as pessoas cheguem aonde querem sem desperdiçar tempo. Do mesmo modo, a não ser que esteja totalmente perdida, num bairro ou numa cidade estranha, uma pessoa não precisa a todo momento parar e perguntar para pedir informação. Quase sempre as pessoas sabem aonde querem chegar.

   E aonde as pessoas querem chegar?

   O bem-estar próprio, o interesse respondem pela maior parte das motivações nas decisões políticas. Até no altruísmo é possível ver algo de instrumental. Mesmo que um rico vote numa plataforma que defenda os interesses dos mais pobres, a aparente contradição pode ser interpretada como uma forma de se chegar a um resultado (por exemplo, paz social, segurança, respeito aos contratos) que lhe seja favorável. A velha história: perdem-se os anéis e não os dedos.
   Como as pessoas utilizam atalhos e votam de acordo com seus interesses, é de difícil sustentação a idéia de que o valor da democracia enquanto regime é desafiado em virtude da ignorância dos cidadãos. O povo sabe votar. Possivelmente mais até em questões nacionais do que nas locais. Dizer o contrário, geralmente, é apenas uma maneira ideologicamente camuflada de discordar da vitória dos interesses da maioria.

 

 

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