APRENDA O QUE É AMOR E LIBERTE-SE DO PASSADO

29/11/2012 21:38

   Extrato condensado de palestra de Jiddu Krishnamurti

   A necessidade de segurança nas relações gera inevitavelmente o sofrimento e o medo. Essa busca de segurança atrai a insegurança. Já encontrou alguma vez segurança em alguma de suas relações? Já? A maioria de nós quer a segurança no amar e no ser amado, mas existirá amor quando cada um está buscando a própria segurança, seu caminho próprio? Nós não somos amados porque não sabemos amar.

   Que é o amor? Esta palavra está tão carregada e corrompida, que quase não tenho vontade de empregá-la. Todo o mundo fala de amor. Pode o amor ser dividido em sagrado e profano, humano e divino, ou só há amor ? O amor é pessoal ou impessoal? O amor é sentimento? Emoção? O amor é prazer e desejo? Todas essas perguntas indicam - não é verdade? - que temos idéias a respeito do amor, idéias sobre o que ele deve ou não deve ser, um padrão, um código criado pela cultura em que vivemos.

   Assim, para examinarmos a questão do amor - o que é o amor - devemos primeiramente libertar-nos das incrustações dos séculos, lançar fora todos os ideais e ideologias sobre o que ele deve ou não deve ser. Dividir qualquer coisa no que deveria ser e o que é, é a maneira mais ilusória de enfrentar a vida.

   Assim, ao perguntar o que é o amor, pode-se ter muito medo da resposta. Ela pode significar uma completa reviravolta; poderá dissolver a família; poderá descobrir que não ama sua esposa ou marido ou filhos (os ama?); pode ter de demolir a casa que construiu; pode nunca mais voltar ao templo.

   Mas, se desejas continuar a descobrir, verá que:

-  o medo não é amor,

-  a dependência não é amor,

-  o ciúme não é amor,

-  a posse e o domínio não são amor,

-  responsabilidade e dever não são amor,

-  autocompaixão não é amor,

-  a agonia de não ser amado não é amor,

-  que o amor não é o oposto do ódio, como também a humildade não é o oposto da vaidade.

   Dessarte, se for capaz de eliminar tudo isso, não à força, porém lavando-o assim como a chuva fina lava a poeira de muitos dias depositada numa folha, então, talvez, encontrarás aquela flor peregrina que o homem sempre buscou sequiosamente.

   Se não tendes amor - não em pequenas gotas, mas em abundância; se não estiver transbordando de amor, o mundo irá ao desastre. Intelectualmente, sabes que a unidade humana é a coisa essencial e que o amor constitui o único caminho para ela, mas quem pode ensiná-lo a amar? Poderá uma autoridade, um método, um sistema ensinar a amar? Se alguém te ensina, isso não é amor. Poderá dizer: "Eu me exercitarei para o amor.  Sentar-me-ei todos os dias para refletir sobre ele. Exercitar-me-ei para ser bondoso, delicado e me forçarei a ser atencioso com os outros"? - Acha que pode se disciplinar para amar, que pode exercer a vontade para amar? Quando exerce a vontade e a disciplina para amar, o amor foge pela janela. Pela prática de um certo método ou sistema de amar, pode tornar-se muito hábil, ou mais bondoso, ou entrar num estado de não-violência, mas nada disso tem algo em comum com o amor.

   Neste mundo tão dividido e árido não há amor, porque o prazer e o desejo têm a máxima importância, e, todavia, sem amor, nossa vida diária é sem significação. Também, não pode ter o amor se não tem a beleza. A beleza não é uma certa coisa que se pode ver - não é uma bela árvore, um belo quadro, um belo edifício ou uma bela mulher; só há beleza quando o coração e a mente sabem o que é o amor. Sem o amor e aquele percebimento da beleza, não há virtude, e sabe muito bem que tudo o que fizer - melhorar a sociedade, alimentar os pobres - só criará mais malefício, porque, quando não há amor, só há fealdade e pobreza em seu coração e sua mente. Mas, quando há amor e beleza, tudo o que se faz é correto, tudo o que se faz é ordem. Se sabe amar, pode fazer o que desejar, porque o amor resolverá todos os outros problemas.

   Alcançamos, assim, este ponto: Poderá a mente encontrar o amor sem precisar de disciplina, de pensamento, de coerção, de nenhum livro, instrutor ou guia - encontrá-lo assim como se encontra um belo pôr-de-sol?

   Uma coisa me parece absolutamente necessária: a paixão sem motivo, a paixão não resultante de compromisso ou ajustamento, a paixão que não é lascívia. O homem que não sabe o que é compaixão, jamais conhecerá o amor, porque o amor só pode existir quando a pessoa se desprende totalmente de si própria.

   A mente que busca não é uma mente apaixonada, e não buscar o amor é a única maneira de encontrá-lo; encontrá-lo inesperadamente e não como resultado de qualquer esforço ou experiência. Esse amor, como poderá ser visto, não é do tempo; ele é tanto pessoal como impessoal, tanto um só como multidão. Como uma flor perfumada pode-se aspirar-lhe o perfume, ou passar sem o notar. Aquela flor é para todos e para aquele que se curva para aspirá-la profundamente e olhá-la com deleite. Quer estejamos muito perto, no jardim, quer muito longe, isso é indiferente à flor, porque ela está cheia de seu perfume e pronta a reparti-lo com todos.

   O amor é uma coisa nova, fresca, viva. Não tem ontem nem amanhã. Está além da confusão do pensamento. Só a mente inocente sabe o que é o amor, e a mente inocente pode viver no mundo não inocente. Só é possível encontrá-la, essa coisa maravilhosa que o homem sempre buscou sequiosamente por meio de sacrifícios, de adoração, das relações, do sexo, de toda espécie de prazer e de dor, só é possível encontrá-la quando o pensamento, alcançando a compreensão de si próprio, termina naturalmente. O amor não conhece oposto, não conhece conflito.

   Poderá perguntar: "Se encontro esse amor, que será de minha mulher, de minha família? Eles precisam de segurança". Fazendo essa pergunta, mostrará que nunca esteve fora do campo do pensamento, fora do campo da consciência. Quando tiver alguma vez estado fora desse campo, nunca fará uma tal pergunta, porque saberá o que é o amor em que não há pensamento e, por conseguinte, não há o tempo. Pode ler tudo isto hipnotizado e encantado, mas ultrapassar realmente o pensamento e o tempo - o que significa transcender o sofrimento - é estar cônscio de uma dimensão diferente, chamada "amor".

   Mas, não sabe como chegar a essa fonte maravilhosa - e, assim, que fazer? Quando não sabe o que fazer, nada se faz, não é verdade? Nada, absolutamente. Então, interiormente, está completamente em silêncio. Compreendes o que isso significa? Significa que não esta buscando, nem desejando, nem perseguindo; não existe centro nenhum. Há, então, o amor.