AS DONAS DE CASA NO PODER - 1

21/09/2012 06:44

Parte 1: A mulher e o poder local.

Extrato adaptado da publicação de Ana Alice Alcântara Costa

Fonte: www.neim.ufba.br/site/arquivos/file/donasnopoder.pdf

   Apesar do contexto de subordinação ao qual estão sujeitas as mulheres e os motivos que as levaram a procurar ocupar espaços do poder político no município, como uma tarefa a mais a realizar-se em função dos interesses familiares ou do grupo político ao qual pertencem, podemos dizer que, na maioria delas, começa a desenvolver-se um processo de criação de uma consciência de gênero, o primeiro passo para a construção de uma nova identidade feminina. Uma identidade entendida na perspectiva apontada como novas representações positivas e com novos significados.

   A experiência da atuação na esfera pública e a comprovação de suas possibilidades como agente político abrem, para essas mulheres, um horizonte a descobrir. A consciência de sua subordinação e, com ela, o desejo de mudar, de transformar sua vida e as relações sociais e afetivas nas quais esta envolvida, começa a ser uma presença em seu cotidiano.

   Ao demonstrar sua posição sobre a condição da mulher no Brasil e na estrutura familiar, ou mesmo frente ao aborto, essas mulheres demonstram o processo de transformação que estão vivendo. Junto a velhos preconceitos, manifesta-se a preocupação por uma mudança na qualidade de vida das mulheres, nas relações de gênero, isto é, já se pode observar claramente uma assimilação das principais bandeiras do feminismo.

   Apesar de essa "assimilação" ainda não ser suficiente para transformar a condição de vida dessas mulheres e das relações às quais então submetidas, poucas são aquelas que conseguem identificar como resultantes de sua subordinação os "motivos" que as levaram a candidatar-se, assim como a identificar sua prática política dentro desse contexto.

   Outro exemplo disso é que continuam entendendo sua participação política na esfera formal do poder como um sacrifício, uma missão que é necessário cumprir para "ajudar" à família ou ao grupo político e, da qual devem livrar-se, por conseguinte, o mais rápido possível.

   Essa visão sobre sua atuação reflete-se na falta de perspectivas políticas a longo prazo. A grande maioria das prefeitas e vereadoras aspiram somente a terminar o mandato e regressar à sua vida doméstica cotidiana, quando muito voltar a candidatar-se ao mesmo cargo. Entre as mulheres de nossa pesquisa, nenhuma planejava candidatar-se a um posto mais elevado, mesmo aquelas que já estavam no seu segundo ou terceiro mandato no executivo municipal. O horizonte político dessas mulheres não vai além do município.

   Ir mais além do poder municipal, além da família, "abandonar" o lar, não é uma perspectiva que se apresenta para essas mulheres. Este é um sacrifício que terão que fazer só em caso de extrema necessidade.

  Faremos a seguir algumas considerações em relação à nossa intenção de examinar a participação política da mulher no âmbito do município. Com base nessa perspectiva, buscamos compreender:

   a) a especificidade da participação política da mulher e sua relação com o poder político formal;

   b) a dinâmica histórica da participação política da mulher nas esferas formais do poder, assim como sua inserção ao nível nacional;

   c) o sujeito político prefeita e vereadora;

   d) a inserção feminina na dinâmica do poder local;

   e) o discurso e a prática das mulheres em sua atuação política;

   f) as mudanças de mentalidade ocorridas à luz dos posicionamentos feministas.

   Para entender esses objetivos, buscamos construir um marco de referência teórica que nos permitisse entender a relação da mulher com a esfera pública a partir de sua condição subalterna. Para isso, recorremos aos conceitos de dominação patriarcal e de relações de gênero, na medida em que esses conceitos constituem os fundamentos da Teoria Feminista e permitem um exame menos centrado no homem das relações de dominação nas quais estão envolvidas as mulheres.

   A partir desse marco de referência teórica, de onde se tenta resgatar algumas questões fundamentais para a compreensão da condição feminina, examinamos a trajetória da cidadania feminina e da sua participação nas esferas formais do poder político, com ênfase especial no poder local.

 

 

 

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