COMUNICAÇÃO E CAMPANHA POLÍTICA

09/09/2016 08:04

         Artigo de Francisco Ferraz

         Fonte: www.politicaparapoliticos.com.br

  A campanha é um processo de comunicação entre o candidato e o eleitor. Por isso, uma campanha modesta pode superar suas dificuldades e vencer, se for capaz de desenvolver uma comunicação eficiente

  Uma campanha eleitoral pode ser definida resumidamente como o trabalho coordenado de comunicação da mensagem certa para os segmentos do eleitorado que podem vir a votar no candidato.

  Como tal, a campanha eleitoral é, essencialmente, um processo de comunicação entre o candidato e o eleitor, no qual o primeiro tenta persuadir os votantes a escolher a sua mensagem dentre as demais, e a elegê-lo com seus votos.

  Eleições, portanto, são combates em torno de idéias e das pessoas e organizações que as encarnam. A primeira regra a seguir refere-se, pois, à qualidade da comunicação.

  Pouco adianta ter um bom candidato e uma campanha rica se a comunicação com o eleitor é ineficiente. Por outro lado, uma campanha modesta pode superar suas dificuldades e vencer, se for capaz de desenvolver uma comunicação eficiente.

   Os principais atributos de uma boa comunicação são:

   Clareza

  Fácil de comunicar e fácil de entender. As idéias são apresentadas de maneira simples e direta(mesmo idéias complexas podem ser apresentadas de forma simples e acessível), sem ambigüidades e sem desnecessárias complicações. Quando a comunicação é clara, todos os que a recebem tendem a entendê-la da mesma forma. A preocupação com a clareza é permanente e se aplica a todas as peças de comunicação com o eleitor, do primeiro ao último dia da campanha. Especial atenção deve ser dada àquelas situações em que se utilizam dados estatísticos. Nestes casos a regra de ouro é usar apenas o dado mais importante para o argumento, se possível ilustrando-o com um gráfico simples. O excesso de números torna a argumentação pesada, confusa e enfadonha.

   Concisão

  Quando as idéias são claras é fácil apresentá-las de maneira concisa. Concisão significa economia sem perda de conteúdo. A comunicação concisa facilita o entendimento e a retenção da idéia na memória. O ideal é formular as principais idéias em frases curtas, originais e impactantes que resumem a mensagem da candidatura e que são retidas na memória do eleitor por sua expressividade.

  Conexão

  A comunicação clara e concisa da mensagem deve ser capaz de conectar-se com as principais preocupações, expectativas e interesses do eleitor. Conexão significa sintonia entre mensagem (candidato) e expectativas e interesses (eleitor). Não se deve confundir eleição com pregação. O objetivo da eleição é a vitória, o da pregação é a conversão e o proselitismo.

  Na pregação, o conteúdo da mensagem é o que conta e os ouvintes que a acatam devem adaptar suas vidas a ela; na eleição é o contrário, o que conta é o interesse do eleitor, que vai apoiar a mensagem e o candidato que, no seu entendimento, atende melhor aos seus interesses.

  Fala-se o que é importante para eles, para ganhar o direito de também falar sobre o que é importante para nós. Conexão é mostrar que se é sensível aos problemas deles, que se os conhece, que eles não nos enojam nem nos afastam.

  Se, por exemplo, o tema for saneamento básico, deve-se começar pela realidade da ausência de saneamento e os males que produz. Aproxime-se, no desenvolvimento do tema, o mais possível da realidade deles: fale das baratas, dos ratos, do mau cheiro, das doenças, muito mais do que sobre quantos metros de encanamento são necessários, do custo da obra, dos detalhes de sua execução. O encanamento (a solução) vem depois da sua identificação com o problema. Primeiro se fala bastante do problema de forma inclusive visual.

  As pessoas dão mais importância, e estão mais interessadas em falar sobre as dores do que sobre a terapia. As dores são dramáticas, cada um tem a sua história a contar. A terapia, primeiro refere-se ao futuro (o que é sempre um pouco dúbio), depois ela carece de dramaticidade.

  O mesmo procedimento se adota com questões como habitação, segurança, saúde, educação e outras questões sociais. Evite sempre começar falando sobre seu plano de governo e projetos. Aproxime-se antes da realidade dos eleitores.

   Convincente

   A mensagem clara, concisa e conectada precisa também ser convincente. Os argumentos que sustentam a pretensão de ser eleito precisam persuadir e convencer os eleitores da superioridade da candidatura sobre as demais. É importante assinalar que a menção aos argumentos não significa que somente a comunicação racional é convincente. O atributo convincente abrange tanto o lado racional da comunicação (propostas, por exemplo) como o emocional (credibilidade do candidato). A comunicação é convincente quando consegue transmitir ao eleitor o sentimento de segurança de que o candidato, se eleito, terá a competência, vontade e força política para realizar aquilo que propôs na campanha.

   Contraste

   A comunicação também deve ser capaz de estabelecer diferenças nítidas entre o candidato e seus adversários. Durante a campanha o eleitor é constantemente assediado por programas políticos na rádio e na TV, comerciais, banners, outdoors, cartazes, pixações, panfletos, santinhos, produzidos por todos os candidatos, além do noticiário da mídia sobre a eleição.

   Como as pessoas gastam a maior parte do seu tempo no trabalho, estudo, na vida familiar e no seu lazer, restando pouco tempo para acompanhar a política, esta sobrecarga de informação é processada com dificuldade. Assim, o acompanhamento que o eleitor comum faz da campanha é fragmentário e descontínuo, tendendo portanto à superficialidade. O atributo do contraste passa a ser decisivo para o sucesso da comunicação. Fixar a identidade da candidatura, distinguindo-a das demais, é o grande desafio criativo da equipe de marketing, do qual depende em grande medida o sucesso eleitoral.

   Consistência

  Consistência diz respeito à harmonia e coerência que deve existir entre todas as peças de comunicação. A mensagem é uma só, ainda que se desdobre em múltiplas peças, e aceite diferentes ênfases. A regra da consistência se aplica à pessoa do candidato(sua imagem, seu discurso básico, seu comportamento devem ser coerentes com a mensagem); às propostas da candidatura; assim como aos aliados do candidato e à sua publicidade.

  Um candidato não pode defender a contenção de gastos e fazer propostas de campanha que implicam maiores despesas; não pode propor mudança e cercar-se de aliados que historicamente são contra aquelas mudanças.

  Parece óbvio mas não é. A regra da consistência usualmente entra em conflito com o desejo de conseguir mais votos seja por promessas, seja por alianças.

   Continuidade

  Continuidade significa repetição. Aqui vale o princípio fundamental do circo: muda o público, mas o número do artista não muda. Como o eleitor faz um acompanhamento fragmentário da campanha, cada peça produzida, cada discurso proferido, deve ser encarado como se fosse a única chance de se comunicar com uma parcela do eleitorado.

 É claro que repetição não significa dizer mecanicamente sempre as mesmas coisas da mesma forma. Repetição significa manter o foco. O que se repete é a mensagem básica da candidatura, suas idéias e propostas principais, aquelas que a estratégia identificou como as mais importantes para a decisão de voto daqueles eleitores que podem vir a votar no candidato.

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  Seja qual for a questão proposta numa entrevista, num debate entre candidatos, numa palestra, numa reunião com eleitores, o candidato deve ser capaz de conectá-la com sua mensagem. Na vida normal, a repetitividade é percebida como um defeito de comunicação; na campanha política a repetição é uma qualidade da comunicação eficiente.

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  O candidato não deve jamais esquecer que, se não for capaz de expressar em 25 palavras as razões pelas quais é candidato e merece ser votado nada mais importa. A eleição já está perdida antes de começar.

  É surpreendente como até mesmo políticos experimentados encontram dificuldade para dar uma resposta clara, articulada e convincente a esta pergunta.

 

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