DE EVA ATÉ HOJE... SERÁ QUE MUDOU?

23/11/2012 08:30

 Artigo de Adriana Marques dos Santos e Valeria Valmario

   A partir do mito de Eva, prestamos nossa homenagem e possibilitamos a reflexão a cerca do feminino que podemos cultivar dentro de nos mesmas. Quem não se lembra dela? Extirpada das costelas de Adão e submetida ao olhar do mundo como aquela que, provando do fruto da árvore da vida, cai em "tentação", fazendo com que os homens perdessem o direito ao paraíso. Parece tão distante e remoto, mas qual será o paradeiro da Eva? Contam as "más línguas" que ela ainda vagueia entre nós com outras formas, pois não podemos esquecer que Eva, agora, é século XXI.

   Através deste conto às avessas, a Psicóloga Adriana Marques e a Shiatsu-terapeuta Valéria Valmario, "levantam lebres" sobre as faces do feminino, sua trajetória, conquistas... ou serão perdas? Com o que nos deparamos por estes longos anos? O que a "Mulher século XXI traz de novo"? Para falar do novo, vale a pena relembrar alguns marcos de construção da identidade feminina. Num salto de milênios e gerações "Eva" protagoniza diversos papéis e lugares na história da Humanidade. Como num curta-metragem, após sua "expulsão do paraíso", "Eva" vive o papel de "Centro do Universo". Grande Mãe, geradora, com poderes para criar, plantar, cooperar e nutrir, sendo adorada e respeitada, possui o dito "Poder Biológico", na medida em que o homem ainda desconhecia sua função na reprodução. Segundo Rose Marie Muraro: "no período Neolítico o homem começa a dominar a sua função biológica reprodutora e, podendo controlá-la, pode também controlar a sexualidade feminina. Aparece, então o casamento como o conhecemos hoje em que a mulher é propriedade do homem e a herança se transmite através da descendência masculina..."(in O Martelo das Bruxas, introdução, p. 7). "Eva" retorna ao domínio doméstico, tendo como papel primordial gerar e gerenciar o crescimento de seus filhos.

   Mudando de cenário, vemos "Eva" voltando ao domínio público, trabalhando nas grandes fábricas, insígnia da grande revolução "cultural"... Industrial. Acelerando a memória do feminino, surgem imagens marcantes como: "queima dos soutiens em praça pública, o surgimento dos anticoncepcionais, o Relatório Hite, as mulheres na política, a mulher e a Internet e tantas outras..." Transformação de papéis, de cenários, levando-nos a questionar ate'que ponto a mudança realmente se concretizou e concretiza no interior das mulheres atuais. Em palestras e em grupos de Encontro com Mulheres percebemos em sua fala um misto entre serem reconhecidas pelo seu próprio valor e a dificuldade em vivenciarem tal reconhecimento pela via material e do afeto. A separação surge quando o homem e a mulher disputam, dentro de uma mesma estrutura social, os mesmo espaços da mesma forma, sem diferenciá-los ou sequer buscar complementá-los. A busca da igualdade surge como forma de anulação da diferença a tal ponto que a revista Time, em capa no ano de 1992 anuncia: "Homens e Mulheres, nascem diferentes?"

   Quando temos a mesma referência masculina de construção do universo, ficamos aprisionadas como "Eva", na eterna culpa de ter se mostrado diferente pela escolha da sabedoria. Na Sexualidade, por exemplo, vemos ainda hoje, mulheres apontarem o papel de "Mulher-Sedutora"como sinônimo de "mulher fácil" e, em contraposição, a "Mulher-Mãe" como "Santa". Algumas mulheres que vivenciaram a "Eva Mãe" foram gradativamente anulando as "Evas Sedutoras, Espiritualizadas, Intelectualizadas", como se todas as faces de um mesmo cristal não pudessem brilhar juntas, sem distinção, sem hierarquia. Todos os ângulos são importantes. Negar algum deles é mutilar uma faceta do feminino, gerando desequilíbrio. Questões interessantes para repensar como contribuímos para as novas gerações com as ideologias acerca do que é "ser mulher".

   Percebemos que a maioria das mulheres constrói as suas conquistas a partir da força masculina (a competitividade, a força física, a ação racional, etc), ao invés de se utilizar dos instrumentos do próprio feminino ( a emoção, a reflexão, a introspecção, etc). Acabamos construindo uma sociedade que reforça o princípio masculino, tanto nos homens quanto nas mulheres. Continuamos a pagar pela escolha de colocar na sombra aquilo que também temos como ferramenta de vida - a essência feminina. Lutamos, às vezes, para sermos aceitas como "uma filha diante do pai" (em busca de amor). Conquistamos espaços, títulos, mas é como se um vazio ainda permanecesse... Enquanto necessitarmos sermos iguais, perderemos o encontro genuíno com a nossa diferença.

   

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