99 - DIREITA E ESQUERDA POLÍTICA

07/11/2012 21:47

    Texto de Antonio Alberto Machado, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo e professor livre-docente do curso de direito da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Franca-SP.

   Dizem que os opostos “direita e esquerda”, utilizada para designar ideologias e posições políticas antagônicas desde os tempos da Revolução Francesa – quando os parlamentares defensores do povo (Terceiro Estado) se sentavam à esquerda e os monárquicos, defensores do clero e nobreza, à direita do rei.

   O jurista e filósofo italiano, Norberto Bobbio, escreveu um livro, Direita e esquerda, publicado no Brasil pela Editora Unesp, para sustentar a tese de que essa diferença política ainda faz todo o sentido. Isto é, a questão direita e esquerda continua identificando e definindo o antagonismo de duas posições políticas bem distintas e opostas. 

   Segundo esse autor, o divisor de águas entre as posições de direita e de esquerda no campo político e social está no valor IGUALDADE. Para esse pensador, as idéias e as ações tidas como de esquerda são aquelas que fazem a defesa de uma sociedade materialmente igualitária, isto é, que defendem programas e ações políticas tendentes à eliminação das desigualdades sócio-econômicas, políticas e culturais. Já os posicionamentos tidos como de direita partem de uma visão muito diferente acerca das desigualdades sociais, bem como de suas causas, e preferem apoiar programas e políticas que tenham por objetivo a defesa do valor LIBERDADE.

   E parece que o jurista-filósofo italiano toca mesmo no cerne da questão.

   De fato, ser de esquerda significa identificar as causas históricas das desigualdades e das injustiças sociais geradas pelo modo de produção capitalista. Além desse diagnóstico, o posicionamento de esquerda se caracteriza pelo pensamento e pela ação concreta no sentido da redução e mesmo da eliminação das desigualdades e de suas causas. Ao identificar essas causas na exploração da classe trabalhadora, a partir do pensamento de Carlos Marx que enxergou na propriedade individual e na mais valia a raiz de todas as desigualdades inerentes ao capitalismo, os posicionamentos de esquerda  se caracterizam pela defesa de uma sociedade socialista.

   Por outro lado, ser de direita significa ter um nível maior de tolerância para com as desigualdades sociais, sob a crença de que elas resultam de causas naturais, e não históricas. Os posicionamentos de direita geralmente estão satisfeitos com a idéia de igualdade formal, como, por exemplo, a igualdade de todos perante a lei. Por essa razão, tendem muito mais para a defesa das diversas formas de liberdade, como as liberdades civis, políticas e econômicas. É exatamente por isso que as posturas de direita defendem tanto o estado mínimo, a livre iniciativa, a liberdade de câmbio etc., numa clara defesa do regime liberal e da sociedade capitalista.

   E se é possível encontrar ainda hoje, nos governos, nos políticos, nos ideólogos e nas pessoas em geral aqueles que defendem com mais ênfase a IGUALDADE e os que defendem com maior energia o valor da LIBERDADE; se é possível encontrar os que se satisfazem com uma idéia de igualdade abstrata (formal) e os que lutam pela efetivação de uma igualdade concreta (real); se é possível encontrar os que identificam a raiz das desigualdades na exploração do homem pelo homem e os que identificam a origem delas em causas naturais; se houver os que encaram a desigualdade social como problema político e os que a consideram simples produto da fatalidade; enfim, se for possível encontrar ainda aqueles que enxergam e se revoltam com as desigualdades e aqueles que não as vêem e não se importam muito com elas, então será possível continuar falando em direita e esquerda.

   O curioso é notar que a “morte” ou a dissolução dessa oposição tem sido apregoada com grande ênfase justamente por aqueles políticos, ideólogos e veículos de comunicação de massa que nunca demonstraram muita preocupação com o valor da IGUALDADE. São exatamente os representantes do conservadorismo político que exibem esse apressado desejo de ocultar as diferenças entre a esquerda e a direita. Se fosse nos tempos da Revolução Francesa, decerto que eles estariam sentados à direita do rei, defendendo interesses e privilégios da monarquia e do clero, isto é, defendendo aqueles a quem não interessava nenhuma igualdade com o povo.

 

 

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