MORRO PORQUE NÃO MORRO

03/01/2013 08:12

 

Tereza D´Ávila

Vivo sem viver em mim,

E tão alta vida espero,

Que morro porque não morro.

Vivo já fora de mim,

Desde que morro d’Amor

Porque vivo no Senhor

Que me escolheu para Si;

Quando o coração Lhe dei

Com terno amor lhe gravei:

Que morro porque não morro.

Esta divina prisão

Do grande amor em que vivo,

Fez a Deus ser meu cativo,

E livre o meu coração;

E causa em mim tal paixão

Ser eu de Deus a prisão,

Que morro porque não morro.

Ai que longa é esta vida!

Que duros estes desterros!

Este cárcere, estes ferros

Onde a alma está metida.

Só de esperar a saída

Me causa dor tão sentida,

Que morro porque não morro.

Ai, que vida tão amarga

Por não gozar o Senhor!

Pois sendo doce o amor,

Não o é, a espera larga;

Tira-me, ó Deus, este fardo

Tão pesado e tão amargo,

Que morro porque não morro.

Só com esta confiança

Vivo porque hei de morrer.

Porque morrendo, o viver

Me assegura a esperança;

Morte do viver s’alcança;

Vem depressa em meu socorro,

Que morro porque não morro.

Olha que o amor é forte;

Vida, não sejas molesta,

Olha que apenas te resta

Para ganhar-te o perder-te;

Vem depressa doce morte

Acolhe-me em teu socorro

Que morro porque não morro.

Do alto, aquela vida

Que é a vida prometida,

Até que seja perdida

Não se tem, estando viva;

Morte não sejas esquiva;

Vem depressa em meu socorro,

Que morro porque não morro.

Vida, que possa eu dar

A meu Deus que vive em mim,

Se não é perder-te enfim,

Para melhor O gozar?

Morrendo O quero alcançar,

Pois nele está meu socorro

Que morro porque não morro.

 

 

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