O CANDIDATO COM A OBRIGAÇÃO DE VENCER - Parte 2

05/09/2016 08:47

   ... continuação da Parte 1...

   Na difícil relação com o eleitorado, o problema fundamental do candidato obrigado a vencer é a relação que estabelece com a realidade. Não há tolerância para as informações negativas, que são recebidas como erradas, destorcidas ou produtos da má-fé. Se a pesquisa própria traz informações negativas, é porque foi mal-feita, e o culpado é o Instituto que a fez; se for pesquisa feita por outros, é porque foi manipulada para prejudicá-lo. Em resumo, a única pesquisa que ao final é aceita, é aquela que o traz na frente com substancial vantagem.

   A convicção da vitória é tão grande, as expectativas que ela anima são tão fortes, que a campanha se vê forçada a encontrar uma forma padrão de lidar com informações negativas. Na maioria das vezes, este candidato realmente parte de uma condição de favoritismo. No início da campanha, dificilmente vai ocorrer uma reversão súbita deste favoritismo. Nessa fase, então, tende a haver uma razoável consistência entre as expectativas e a realidade. À medida em que a campanha avança, e os demais candidatos entram em ação aberta e ostensiva, aquela situação de consistência tende a sofrer mudanças. O eleitor, ainda desmobilizado, na fase pré-campanha, começa a se interessar e a acompanhar com maior interesse o jogo político. A programação do horário gratuito na mídia o colocam em contato com todos os candidatos; os debates, as entrevistas, as pesquisas, contribuem para aproximá-lo mais da eleição.

   Aquela disposição inicial (que favorecia o candidato) começa a inevitavelmente a mudar, trazendo surpresas desagradáveis para a campanha "obrigada a ganhar". São os que se declaram indecisos, os que, depois de conhecer outros candidatos, mudam de preferência, e, em conseqüência, os índices do candidato favorito tendem a cair. Um exemplo seria a deserção dos eleitores que estavam com ele inicialmente, mais por falta de opções do que por real preferência. Esta é uma queda normal, para quem larga distanciado na frente. Nestes casos, é muito difícil "segurar" grandes diferenças, e manter-se nos altos patamares, depois de começada a campanha. Normal para quem analisa a eleição com frieza e objetividade. Uma surpresa perturbadora para quem se considera destinado a vencer.

   A primeira tendência é tratar essas informações negativas como erros, imprecisões, ou no máximo, como oscilações sem maior importância.A continuidade nas informações negativas, passa então a ser vista como uma combinação de manipulação mal-intencionada, por parte dos inimigos, e de incompetência dentro da própria campanha.

   A partir do início da segunda metade do tempo de campanha, a impaciência, revolta e inconformidade aumenta, alcançando níveis de conflito e passionalismo muito altos. Se não se verificar algum fator positivo, que dê indícios de reversão daquela tendência, a campanha entra em crise séria.

  Se o candidato também não se preparar para a derrota será alvo fácil para as presas que habitam a floresta política. O candidato passa a agir impulsivamente, perde controles sobre as suas emoções, exige resultados imediatistas, e "abre a temporada de caça aos culpados". Os assessores reagem defensivamente: não mais se atrevem a levar-lhe notícias ruins, ficam inseguros e tímidos, e, obsessivamente, procuram defesas que evidenciem que não é deles a responsabilidade.

 Candidatos que se concebem como obrigados a vencer, não têm, usualmente, equipamento psicológico para sair dessa situação. Tendem a afundar-se cada vez mais, já que o mau humor do candidato, sua recém-adquirida insegurança, sua postura de estar sempre se queixando e pondo a culpa nos outros, torna-o menos eficiente no contato com o eleitor, e, portanto, com menos chances de reverter o quadro.

   A esses problemas somam-se as críticas, os ataques, o bom desempenho de outros candidatos, e, sobretudo os erros cometidos pelo candidato. A campanha perde ousadia, tende a levar o candidato para contato com aqueles que já o apóiam e, adquire, por fim, uma dinâmica de desconfianças mútuas, de medo, de ressentimento que a paralisa. Perde todas as condições de pensar, planejar, debater e decidir.

   Uma campanha montada com a obrigação de vencer não se prepara para a eventualidade da derrota, não sabendo pois, como lidar, em tempo, com as tendências negativas. Espalha-se então, pela floresta política, o cheiro de fraqueza no ar, assanhando os "predadores" a buscar o candidato que estiver perdendo força.

 

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