O Ser Humano, o Bem e o Mal

20/10/2012 08:46

   Considerando os aspectos espirituais e religiosos do ser humano dentro do principio de que todos somos bons mas também “pecadores”, e que temos pautado nossa vida com as regras que adotamos no que somos aqui e agora, e também porque somos responsável pelo que fazemos a nós mesmos e aos outros, reproduzimos o texto abaixo que pode contribuir na mudança pessoal de uns e outros movidos pela Fé, dos tementes a Deus e, particularmente, aos que tendem a manipular pessoas e aos políticos em particular.

 

   ENTRE O BEM E O MAL

   Texto de Fernando Guedes

   No dia em que os anjos de Deus vieram se apresentar a Yaveh, entre eles veio Satanás (…) Num outro dia em que os anjos de Deus vieram se apresentar novamente a Yaveh, entre eles veio também Satanás (Jó 1,6; 2,1).

   No livro de Jó, em ambas as ocasiões, Satanás aparece entre os anjos e, nas duas oportunidades, recebe de Deus a incumbência de colocar à prova o pobre Jó. Uma conspiração de Deus e do diabo contra Jó! Como se não bastasse, o próprio Deus vem a Jó num sonho e o aterroriza com visões (Jó 7,14), tarefa que parecia reservada a Satanás. Situação semelhante volta a ocorrer na tentação de Jesus, quando ele é conduzido pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mt.4,1).

   Essa ambigüidade de Deus diante do mal é rara na Bíblia, onde, em geral, representa as forças do bem contra o mal. Mas os dois episódios citados são mais do que suficientes para colocar em cheque o velho paradigma nessa questão. Segundo teólogos, Deus representa o bem, é bom e não conhece o mal; este é criação dos anjos rebelados que, mais tarde, através da serpente, vão repassá-lo à humanidade. Nessa doutrina, bem e mal são colocados em pé de igualdade, como se tudo nesse mundo pudesse ser contabilizado em duas colunas. Trata-se de uma visão dualista que começa com um Criador separado da sua obra, passa por um nivelamento de Deus e do diabo e termina numa conclusão mais do que previsível: salvação versus condenação eternas. Deus terá, enfim, seu reino em cima, no céu, e Satanás o seu embaixo, no inferno, para todo o sempre, amém! Diabolu Deus inversus est! (O diabo é Deus às avessas!).

   Premissas absurdas só podem levar a conclusões absurdas. A teologia tradicional não tem uma explicação convincente para a revolta dos anjos. Como auxiliares diretos de Deus, os anjos não têm livre arbítrio, prerrogativa do homem. A vontade dos anjos é a vontade de Deus. Então, como falar em revolta de Lúcifer? O próprio objeto da revolta nunca foi esclarecido. A “rebelião” contra Deus é própria do homem, resultado de sua mente dual. Por outros caminhos chegamos à mesma conclusão apresentada no ensaio anterior: a serpente no Gênesis não é Satanás, mas tem um significado intrínseco ao homem.

  Lúcifer, que significa “portador da luz”, é, na realidade, um símbolo vivo da mente dual. Quem precisa conduzir a luz é porque não tem luz própria. Essa luz que nos é exterior, ao mesmo tempo que ilumina à frente, projeta sombra atrás. Iluminar-se, ao contrário, significa transcender a mente dual e acender em nós a luz que não projeta sombra e nem se apaga.

   A lâmpada do corpo é o olho. Se, pois, teu olho é são, todo o seu corpo estará na luz. Mas se teu olho é doente, todo o teu corpo estará em trevas. Se, pois, a luz que está em ti são trevas, quão densas serão essas trevas (Mt.6,22-23).

   O olho são a que Jesus se refere é a iluminação, o despertar da intuição, e o olho doente a nossa mente dual. Assim, quando mantemos separado o que deveria permanecer unido, estamos sendo diabólicos. A palavra diabo, é sempre bom lembrar, vem do grego “dia-bolo” que significa “aquilo que separa”, em oposição a “syn-bolo”, “aquilo que une”. Ou no dizer do Pe. Eugène Joly, no seu livro “Que é Crer?”:

   O único Mal verdadeiro é a divisão; e o único verdadeiro Bem – a união no Amor.

   Diz a parábola do Bom Samaritano:

   Amarás o Senhor,  teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma, de todos as tuas forças e de todo o teu entendimento, e a teu próximo como a ti mesmo (Lc 10,27; Dt 6,5; Lev 19,18).

   Amor a Deus, amor ao próximo e amor a si mesmo são três aspectos inseparáveis do amor, da mesma forma que o amor, o amante e o amado constituem uma tríade indissociável. Um não existe sem os outros dois. Com o princípio da separação surge na história a ilusão de que pode haver um eu separado de tudo  o mais, o fundamento mesmo da mente dual. Eis aí o verdadeiro “pecado original”. Portanto, transcender o ego e a mente dual é o caminho para restabelecermos o princípio da unidade em nós e no mundo em que vivemos.

 

 

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