OS RUBAIYAT DE OMAR KHAYYAM

30/12/2012 08:00

 

(1 a 20)

versão em português de Afredo Braga

 


1

 Nunca murmurei uma prece,

nem escondi os meus pecados.

Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;

mas não desespero: sou um homem sincero.

 

 2

 O que vale mais? Meditar numa taverna,

ou prosternado na mesquita implorar o Céu?

Não sei se temos um Senhor,

nem que destino me reservou.

 

3

Olha com indulgência aqueles que se embriagam;

os teus defeitos não são menores.

Se queres paz e serenidade, lembra-te

da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.

 

4

 Que o teu saber não humilhe o teu próximo.

Cuidado, não deixes que a ira te domine.

Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;

não firas ninguém.

 

 5

 Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.

Apanha um grande copo cheio de vinho,

senta-te ao luar, e pensa:

Talvez amanhã a lua me procure em vão.

 

 6

 Não procures muitos amigos, nem busques prolongar

a simpatia que alguém te inspirou;

antes de apertares a mão que te estendem,

considera se um dia ela não se erguerá contra ti.

 

 7

 Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,

mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.

No copo de vinho está gravado um texto de adorável

sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.

 

 8

 Há muito tempo, esta ânfora foi um amante,

como eu: sofria com a indiferença de uma mulher;

a asa curva no gargalo é o braço que enlaçava

os ombros lisos da bem amada.

 

 

9

 

Que pobre o coração que não sabe amar

e não conhece o delírio da paixão.

Se não amas, que sol pode te aquecer,

ou que lua te consolar?

 

 10

 Hoje os meus anos reflorescem.

Quero o vinho que me dá calor.

Dizes que é amargo? Vinho!

Que seja amargo, como a vida.

 

 11

 É inútil a tua aflição;

nada podes sobre o teu destino.

Se és prudente, toma o que tens à mão.

Amanhã... que sabes do amanhã?

 

12

 Além da Terra, pelo Infinito,

procurei, em vão, o Céu e o Inferno.

Depois uma voz me disse:

Céu e Inferno estão em ti.

 

 13

 Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite

a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.

Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;

o meu remorso será leve como os teus cabelos.

 

14

 Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.

Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?

Conheces alguém que visitou esses lugares?

E ainda queres encher o mar com pedras?

 

 15

 Na sombra azulada do jardim

o ar da primavera renova as rosas

e ilumina os meigos olhos da minha amada.

Ontem, amanhã... é tão grande o prazer agora.

 

16

 Bebo, mas não sei quem te fez, ó grande ânfora;

podes conter três medidas de vinho, mas um dia

a Morte te quebrará. Numa outra hora perguntarei

como foste criada, se foste feliz, ou por que serás pó.

 

17

 Como o rio, ou como o vento,

vão passando os dias.

Há dois dias que me são indiferentes:

O que foi ontem, o que virá amanhã.

 

 18

 Não me lembro do dia em que nasci;

não sei em que dia morrerei.

Vem, minha doce amiga, vamos beber deste copo

e esquecer a nossa incurável ignorância.

 

 19

 Khayyam, enquanto erguias a tenda da Sabedoria,

caíste na fogueira da dor; agora és cinzas.

O Anjo Azrail cortou as cordas da tua tenda

e a Morte vendeu-a por uma ninharia.

 

 20

 É inútil te afligires por teres pecado;

também é inútil a tua contrição:

além da morte estará o Nada,

ou a Misericórdia.

 

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