118 - PORQUE OS POLÍTICOS SE ODEIAM ?

04/12/2012 09:27

 

Transcrito de Work, livro do coletivo anarquista Crimethinc, em processo de tradução

Fonte: https://alemdovoto.milharal.org/porque-todxs-odeiam-xs-politicos/

   “Todo mundo odeia políticos". Isso deveria ser surpreendente, considerando que as carreriras delxs dependem de ser apreciados, mas a razão é bem simples. Eles conseguem seus empregos por nos prometer o mundo, mas o seu trabalho é mantê-lo fora das nossas mãos – governá-lo.

   Como qualquer outra forma de trabalho, essa governança impõe sua própria lógica. Pense no que acontece no Pentágono ou no Kremlin ou nos escritórios de toda prefeitura municipal. Essas atividades do dia-a-dia são as mesmas sob Democratas, assim como são sob os Republicanos; elas não são muito diferentes em Moscou hoje do que elas foram com os Bolcheviques ou mesmo o Czar. Políticos podem brandir poder dentro das estruturas do estado, mas essas estruturas ditam o que eles podem fazer com ele.
   Para entender como isso funciona, nós temos que começar na Europa feudal, quando o capitalismo estava apenas começando e o tecido da sociedade era mais simples. Reis garantiam poder à nobres em troca de apoio militar, nobres davam terras à vassalos em troca de fidelidade; camponeses e servos davam aos seus lordes trabalho grátis e uma parte do que produziam em troca de não serem esterminados. O acesso aos recursos era determinado por um status herdado e um equilíbrio de alianças sempre mutável. Essas hierarquias eram explícitas mas extremamente instáveis: graças a existirem poucas outras maneiras de melhorar a divisão das coisas, as pessoas estavam constantemente se rebelando e derrubando-os.

   Eventualmente, no entanto, os monarcas começaram a consolidar poder. Para alcançar isso, eles tiveram que construir o que nós hoje conhecemos como o aparato do estado: eles integraram seus capangas em uma única máquina monopolizando a força militar, legitimidade judicial e a regulação do comércio.
   Ao contrário dos nobres dos tempos feudais, os funcionários nessa maquina tinham deveres especializados e autoridade limitada; eles respondiam diretamente aos monarcas que pagavam seus salários, frequentemente com dinheiro emprestado dos bancos que estavam florescendo por toda a Europa.

   Os primeiros políticos eram ministros nomeados por reis para operar esse maquinário. De uma certa maneira, eles eram burocratas como aqueles abaixo deles; eles tinham que ser bastante competentes nos campos que supervisionavam, como um advogado da união ou um secretário de estado hoje. Mas competencia era muito menos importante do que a habilidade de arranjar favores com o rei via lisonja, subornos ou promessas remotas.

   O capitalismo se desenvolveu em uma relação simbiótica com o aparato do estado. Em tempos feudais, a maioria das pessoas obtinha o que precisava fora da economia de trocas. Mas conforme o estado consolidou poder, os campos e pastos que eles tinham em comum foram privatizados, e as minorias locais e continentes além-mar foram implacavelmente pilhados. Como os recursos começaram a fluir mais dinamicamente, mercadores e banqueiros ganharam poder e influência crescentes.
   As revoluções Norte Americanas e Européias dos séculos XVIII e XIX trouxeram a um fim o reinado dos reis. Vendo a mensagem escrita nas paredes, mercadores ficaram do lado dos explorados e dos excluídos. Mas o aparato do estado era essencial para proteger suas riquezas; então ao invés de abolir as estruturas pelas quais o rei os comandava, eles argumentaram que as pessoas deviam tomá-las pra si e administrá-las “democraticamente”. Consequentemente, “nós o povo” substitiu o rei como o poder soberano para os políticos cortejarem.
   O aparato do estado veio consolidando poder independentemente dos indivíduos aos quais governava e à soberania à quem   ele supostamente respondia. Polícia, educação, serviços sociais, miltares, instituições financeiras e jurisprudência se expandiram e se multiplicaram. Ao manter suas relações simbióticas com o capitalismo, todos esses tenderam à produzir forças de trabalho dóceis, mercados estáveis, e um fluxo estável de recursos. Como eles vieram a administrar mais e mais aspectos da sociedade de acordo com um corpo de conhecimento especializado, ficou ainda mais difícil imaginar a vida sem eles.
   No século XX, uma nova onda de revoluções estabeleceu a dominação dessa classe burocrática atráves do ”mundo em desenvolvimento”. Dessa vez, mercadores eram destituídos junto com os reis; mas mais uma vez, o aparato estatal em si foi deixado intacto, operado por uma nova geração de políticos que alegavam servir a ‘classe trabalhadora’. Alguns chamaram à isso ”socialismo”, mas falando propriamente era simplesmente capitalismo estatal, aonde o capital é controlado pela burocracia governamental.

   Hoje, o capital e o estado conseguiram substituir quase totalmente as hierarquias da era feudal. Riqueza e influência continuam hereditárias – daí a sucessão dos Roosevelts e dos Bushes na Casa Branca, ou dos ACMs na Bahia – mas são as estruturas que dominam nossas vidas ao invés dos indivíduos operando-as. E enquanto as hierarquias eram fixas porém fragéis, estas novas estruturas são extremamentes resilientes.
   Algumas pessoas ainda tem esperanças de que a democracia vá contra-atacar os efeitos do capitalismo. Mas não é coincidência que os dois se espalhem ao redor do mundo juntos: os dois preservam hierarquias enquanto permitem máxima mobilidade dentro delas. Isso transforma descontentamento em competição interna, permitindo àos indivíduos mudar suas posições sem contestar os inequilíbrios de poder construídos na sociedade. O livre mercado dá a qualquer trabalhadorx sensível um incentivo à se manter investindo em propriedade privada e competição; enquanto parecer mais verossímil melhorar a sua própria posição do que começar uma revolução, ele continuará competindo por uma promoção do que guerra de classes. Similarmente, democracia é a melhor maneira de maximizar investimento popular nas instituições coercitivas do estado porque dá ao maior número de pessoas possível o sentimento de que elas podem realmente ter alguma influências sobre elas.

   Na democracia representativa, assim como na competição capitalista, todos supostamente tem uma chance mas apenas alguns chegam ao topo. Se você não venceu, você não deve ter tentado o suficiente! Essa é a mesma racionalização usada pra justificar injustiças como sexismo e racismo: escute, seus/suas vagabundxs preguiçosxs, vocês poderiam ter sido Pelé ou Dilma Rousseff se vocês tivessem trabalhado duro. Mas não há espaço no topo pra todos nós, não interessa o quanto nós trabalhemos.
   Quando a realidade é gerada via mídia e o acesso à mídia é determinado pela riqueza, eleições são simplesmente campanhas publicitárias. A competição do mercado dita que lobistas ganham os recursos para determinar o campo onde os votantes tomam suas decisões. Sob essas circunstâncias, um partido político é essencialmente um negóico oferecendo oportunidades de investimento em legislação. É tolice esperar que representantes políticos se oponham aos interesses da sua clientela quando eles dependem diretamente deles por poder.
Mas mesmo que pudéssemos reformar o sistema eleitoral e votar em representantes com corações de ouro, o estado ainda seria um obstáculo para estruturas sociais consensuais e auto-determinação. Sua função social é impor controle: reforçar, punir, administrar. Na ausência de reis, a dominação continua – é tudo em que o sistema é bom.

   Debates modernos entre a “esquerda” e a “direita” políticas geralmente se concentram em quando controle de capital deve ir para o estado do que para uma empresa privada. Ambos concordam que poder deve ser centralizados nas mãos de uma elite profissional; a única questão é como essa elite deve ser constituída. Esquerdistas frequentemente desenvolvem seu argumento em diminuir a irracionalidade do mercado e prometer um estado das coisas mais humano.
Ainda assim não há evidência de que estaríamos melhor se o estado possuísse tudo. Da União Soviética à Alemanha Nazista, o século XX nos oferece diversos exemplos disso, nenhum deles promissores. Haja vista suas origens históricas e as demandas de manuntenção de poder, não deveria surpreender que as burocracias estatais não são nada melhores que burocracias corporativas. Toda burocracia aliena seres humanos do seu próprio potencial, tornando-o algo externo que eles só podem acessar pelos seus canais.
   Enquanto alguns políticos podem se opor a indivíduos ou classes poderosos, nenhum político vai contestar o poder hierárquico per se; como os magnatas, sua posição é contingente da centralização de poder, então eles não podem fazer nada diferente. Em casos extremos, um governo pode substituir uma classe capitalista por outra – como os Bolcheviques fizeram depois da Revolução Russa – mas nenhum governo vai se livrar da propriedae privada, pois governar necessariamente implica controlar capital. Se nós queremos criar um mundo sem trabalho, nós teremos que fazê-lo sem políticos.

   Algumas vezes um candidato aparece dizendo tudo o que as pessoas tem dito umas as outras por muito tempo – ele parece ter vindo de fora do mundo da política, parece realmente ser um de nós. Por criticar o sistema dentro da sua própria lógica, ele subitamente persuade as pessoas de que ele pode ser reformado – de que ele pode funcionar, se as pessoas certas tiverem poder. Assim muita energia que poderia ter ido para desafiar o sistema em si é redirecionado em apoiar outro candidato para o posto, que inevitavelmente falha em solucionar os problemas à que se propôs.
   Esses candidatos só recebem tanta atenção porque eles se baseiam em sentimentos populares; uma coisa na qual eles são muito bons é desviar energia de movimentos das bases. Quando eles chegam ao poder e vendem o público, os partidos de oposição podem capitalizar em cima disso, ao associar as supostamente idéias radicais deles com os problemas que eles prometeram resolver – e conectar desilusão com o governo pra mais uma campanha política! Então devemos colocar nossa energia em apoiar políticos, ou em criar o momentum social que os força a assumir posições radicais em primeiro lugar?

   Mais frequentemente ainda, somos aterrorizados à se concentrar no espetáculo eleitoral pelo panorama de sermos comandados pelos piores candidatos possíveis. “E se ele chegar ao poder?” Pensar que as coisas podem ficar ainda piores!
Mas o problema em primeiro lugar é que os políticos dominem tanto poder – de outra maneira não faria diferença quem segurasse as rédeas. Então enquanto for esse o caso, sempre haverão tiranos. E é por isso que temos que colocar nossa energia em soluções duradouras, não campanhas políticas.”

 

 

 

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