OS 3 REMÉDIOS (um conto oriental)

21/10/2012 12:20

   Alguém veio a Abu Darda, um dos mais amados dos companheiros do Profeta, pedindo um conselho.

   Ele disse: "Oh, Abu Darda, me ajude. Tenho uma terrível doença  - a doença do amor por este mundo. Meu coração está escuro. Não vejo um sinal da luz de minhas orações e devoções. Não tenho alegria".

   Abu Darda respondeu. "De fato, esta doença é a maior de todas as doenças, e, se não for curada a tempo, pode causar a morte da tua fé. Eu te darei três remédios. Tome-os todos:

1)  Visite os doentes,

2)  Vá a funerais,

3)  Caminhe nos cemitérios.

   Se você fizer todas estas coisas freqüentemente, tua doença o deixará. Teu amor e apego a este mundo desaparecerá; teu coração será iluminado outra vez, e teu olho interior se abrirá".

   Aquela pessoa seguiu o conselho do santo, mas sua doença não o deixou. Ele veio queixar-se a Abu Darda.

   O santo lhe disse:

    - "Se você visitou os doentes como alguns médicos e enfermeiros fazem, acreditando que eles podem curá-los, e fazendo isso como uma parte de sua profissão e sustento, e se você vai a funerais como alguns religiosos fazem, julgando pelas flores e a multidão dos parentes, pensando no pagamento que eles receberão por seus serviços, e se você caminha nos cemitérios lendo as lápides glorificando as virtudes mundanas do morto, você não terá feito nenhuma das coisas que eu lhe disse para fazer. Quando visitar os doentes, veja-se a si mesmo em seu lugar ­ sofrendo, incapaz de comer e beber, próximo da morte, porque é isso que acontecerá com você mais cedo ou mais tarde. Aquilo é tudo o que existe em volta, tudo pelo que se luta. Converse com seu ego, e mostre-lhe que aquela criatura está agonizando sem ajuda e diga-lhe para prestar atenção, porque breve estará partindo, a caminho do seu fim, para deixar o amor do mundo.

    “Quando você for a funerais, imagine que está deitado naquele caixão, envolvido numa peça de roupa, nu como no dia em que nasceu. Todos seus bens, todo seu dinheiro, toda nossa fama, seu lar, sua esposa, seus filhos, tudo aquilo que você amou foi deixado para trás. Diga a seu ego que aquele fascinante caixão é um veículo que brevemente será erguido, que todo mundo tem e todo mundo terá. Todos aqueles bens que você acumulou com tanta dor e esforço, toda a reputação, o resultado de tanta coisa pretendida será desperdiçado. Mostre aquilo a nosso ego. Mostre-lhe como todos aqueles que pensaram amar o morto estão virando suas faces para longe dele, embora ele tenha deixado tudo para eles. Ele não pode trazer-lhes um copo de água ou um bocado de alimento. Ninguém sabe o que acontecerá a ele, nem mesmo ele. Pergunte a seu ego se está pronto.

   "Quando você for ao cemitério, olhe debaixo da terra sobre a qual você está pisando. Peles macias apodrecendo, simpáticas cabeças caindo de seus corpos, olhos formosos cheios de terra; aquelas línguas cantando como rouxinóis, tanto pela glória do mundo como pela glória do Criador, tendo se tornado comida para insetos. Todos seus atos errados tendo se tornado em feios monstros batendo neles. Quando você caminhar, pense nas cabeças daqueles reis que você está pisando, naquelas testas que eram usadas para coroas, e nos encantadores lábios nos quais os homens teriam dado suas vidas para tocar com seus lábios.

    Oh, ego, quando você irá acreditar, quando você terá o bastante das ilusões do mundo? Não vê o que acontecerá a você? Você também, muito breve - como "todo futuro é muito próximo" - será exatamente como aqueles. Você será deixado num buraco negro, que poderia ser um túmulo do inferno, face a face com os horríveis monstros de seus atos. Tire o mundo de dentro de seu coração. Seja puro em suas ações. Oh, ego, antes que caiamos dentro daquele túmulo escuro, antes que as serpentes e os insetos venham alimentar-se de nós, vamos juntos nos preparar".

  Aquela pessoa seguiu a receita de Abu Darda. Seu coração recebeu luz, seu olho interno se abriu, e ele, com gratidão, lembrou-se de seu professor, o médico do coração que reviveu seu coração morto.

 

 

 

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