SINAL VERMELHO PARA OS EXCESSOS NO TRABALHO

17/10/2012 13:41

   Por Merzel Kernkraut
   Coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo

   O trabalho faz parte de nossa vida. Por isso, precisa ser administrado e equilibrado. Grande parte de nosso tempo é dedicado às atividades laborais: no mínimo, 40% do dia. O restante é dividido entre atividades pessoais, sociais e fisiológicas. Isso, claro, é uma média. Hoje em dia, cada vez mais pessoas levam trabalho para casa – o que, obviamente, reduz o tempo de dedicação a outras esferas da vida.

   A causa desses excessos pode estar na demanda exagerada de produtividade ou mesmo em problemas pessoais, como falta de prazer em estar em casa e complicações na vida familiar e social. Nesses casos, o trabalho pode funcionar como válvula de escape – uma fuga disfarçada em uma explicação lógica e racional que a sociedade compreende e valoriza. Contudo, uma vez que se identifica a causa do excesso de trabalho, é possível realizar mudanças, inclusive com ajuda psicoterápica.

   Toda atenção é necessária quando o trabalho começa a ameaçar o bem-estar e a saúde. As consequências podem variar de um simples descuido com a alimentação até a Síndrome de Burnout (exaustão emocional), que é um nível de estresse máximo, associado à atividade laboral. 

   A diferença entre simples estresse e Burnout está na intensidade e na abrangência dos sintomas. Pessoas com a Síndrome de Burnout apresentam sintomas físicos e emocionais como sentimentos de baixa realização, depressão, perda de iniciativa, distanciamento nas relações pessoais, exaustão profissional, cansaço constante, irritabilidade, alterações de humor e memória, dificuldade de concentração, distúrbios do sono, dores musculares e de cabeça e falta de apetite. A soma de tudo isso pode levar ao isolamento, ao alcoolismo, ao uso de drogas e até mesmo a tentativas de suicídio. A Síndrome de Burnout pode surgir em qualquer profissão, mas em especial naquelas em que o trabalho tem impacto direto na vida de outras pessoas. As vítimas mais comuns dessa síndrome são os chamados workaholics, que vivem para o trabalho e têm altos níveis de exigência. Outros fatores que podem acarretar esse nível máximo de estresse são problemas de relacionamento com colegas, clientes e chefes e a falta de equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. 

   Muitas vezes, o profissional acredita que algumas semanas de férias resolverão o problema; no entanto, tão logo retorna às atividades, ele passa a reproduzir a postura anterior, e o ciclo recomeça. Isso não significa que tirar uma boa folga não seja importante. As férias ajudam a promover o bem-estar do indivíduo, pois o fator desencadeante do estresse fica em segundo plano – pelo menos, por algum tempo. Mas é preciso, também, buscar outras soluções, como a mudança no ritmo de vida e a busca de tratamento psicológico.

   Para detectar a síndrome, deve-se fazer um exame minucioso e analisar se os problemas enfrentados estão relacionados ao ambiente de trabalho ou à profissão. O ideal é procurar um especialista, psicólogo ou psiquiatra para se fazer o diagnóstico. É necessário avaliar se é o ambiente profissional que causa o estresse, ou se o estopim da crise está nas atitudes da própria pessoa. 

   O tratamento psicoterápico pode focar a relação com a profissão, combatendo sintomas inclusive no ambiente de trabalho – por exemplo, a dificuldade de concentração. Também é essencial melhorar a qualidade de vida – cultivar hobbies, ter uma vida social ativa, cuidar da saúde física, dormir e alimentar-se bem. Ainda assim, muitas vezes se faz necessário introduzir um tratamento medicamentoso sob acompanhamento do psiquiatra.

 

 

 

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