131 - FAZENDO DE CONTA QUE SOMOS CIDADÃOS

30/12/2012 17:13

   Entre erros e acertos, hoje, 31/12/2012, é o último dia do mandato do prefeito de Várzea Paulista, deixando como parte do legado as promessas não cumpridas, as obras iniciadas e inacabadas, as verbas recebidas e sem explicações quanto ao uso ou aplicação, as criticas merecidas ou não, e outros comentários que poderíamos estar fazendo aqui, mas... de que serviria agora que o tempo do prefeito atual se encerra hoje e um outro novo se inicia amanhã ? Não iremos avaliar aqui o governo que sai, o povo já fez isso não elegendo seu sucessor, e nem mesmo o que está assumindo amanhã por vontade popular. Portanto, vamos transcrever um artigo que entendemos ser apropriado ao momento hoje, e que trata justamente de toda a carga de insatisfação que todos temos nos permitido e suportado por nossas próprias escolhas. Como ? Como sempre: fazendo de conta que não é problema nosso, fingindo para nós mesmos...

 

   VAMOS FINGIR

    Adaptação do escrito de Elbson do Carmo   

    Fonte: http://www.universocatolico.com.br/index.php?/vamos-fingir.html

   Vamos continuar fingindo que nos interessamos por política, que sabemos seu real valor, sua importância. Que sabemos que cada decisão política influencia a nossa vida diretamente, ou vida de nossos compatriotas, ou mesmo, que as decisões políticas de hoje influenciarão a vida de brasileiros geração após geração.

   Vamos fingir que gostamos de conversar sobre política com nossos amigos, com nossos familiares. Que política para nós não é um assunto chato, desinteressante, enfadonho, e que a sociedade não cresce quando compartilhamos nossas idéias e pontos-de-vista sobre a política de nossa cidade, de nosso Estado e de nossa nação.
   
Vamos fingir que não está nas decisões políticas de hoje, e de ontem, a explicação para a falta de moradia, para a falência dos serviços de saúde, segurança, previdência; para a existência de meninos de rua, mendigos e toda uma miríade de desassistidos que pulula em nossas cidades. Da mesma forma, vamos fingir que nossa indignação isolada, silenciosa e desarticulada é suficiente a pacificar a nossa consciência enquanto cristãos, homens ou mulheres de bem, diante de tanta injustiça. Mas não nos esqueçamos de fingir que já fazemos o bastante pelo nosso país. Afinal pagamos nossos impostos, trabalhamos duro pelo pão de cada dia. Não somos como “eles”, não matamos, não roubamos. Só queremos viver a nossa vida em paz, em silêncio, na quietude de nosso isolamento, de nossa indiferença diante daquilo que acontece além de nossa janela, afinal, não somos como “eles”.

   
Vamos fingir que não temos esperança de que tudo mude em nosso país, desde que não seja necessário nenhum sacrifício de nossa parte, desde que não precisemos nos comprometer com as mudanças que queremos, já que comprometimento denota esforço, acompanhamento permanente e cobrança de resultados e promessas. Ora essa! Já fazemos muito em sair de nossas casas a cada eleição e digitar o número daquele candidato que é tio do amigo do nosso primo em terceiro grau, que já não vemos há uns anos, mas que nos ligou um dia antes da eleição perguntando como andavam os meninos, e ao final de um rápido papo nos pediu o voto para o seu candidato como um favor pessoal e mais que isso, um pedido de familiar. Ou seja, se já nos esforçamos tanto e escolhemos nossos líderes de forma tão sábia, fizemos a nossa parte.

   
Vamos fingir que nepotismo é a prática imoral de nosso opositor político de empregar parentes. Se somos nós a empregar parentes, a coisa muda de figura, trata-se de bom-senso, e justiça. Afinal, por que respeitar a igualdade de oportunidades e a lisura de concursos públicos, se estaremos empregando pessoas que conhecemos, dignas de nossa confiança, e mais que isso, pessoas que levam nosso sangue em suas veias, ou o nosso imaculado sobrenome? Tudo isso é mais que suficiente para explicar porque nossos parentes são melhores e merecem mais oportunidades que qualquer outro brasileiro.
   
Vamos fazer de conta que não é corrupto e corruptor quem guarda lugar na fila do cinema pros amigos; quem pede ao compadre para retirar aquela multa merecida; quem pede ao amigo para “adiantar” o trâmite de determinado documento; quem fura fila; quem ocupa aquela vaga no estacionamento do shopping, mesmo vendo que outro veículo espera pacientemente pela mesma vaga; quem anda pelo acostamento; quem segue de perto a ambulância que vai abrindo caminho no trânsito; quem dá um jeitinho. Afinal, o jeitinho brasileiro é uma verdadeira instituição, ninguém vive no Brasil sem ele, é quase um DNA do brasileiro. 

   
Vamos fingir que sabemos que a imprensa nem sempre é isenta, e que maioria dos veículos de comunicação no Brasil são propriedade ou estão comprometidos com algum grupo político. Que muitos jornais não noticiam (quando noticiam) toda a verdade dos fatos, tendo em vista que precisam das verbas publicitárias do poder público, e que o mesmo se aplica às grandes redes de tv. Ou seja, vamos fingir que não precisamos conhecer mais de uma versão dos mesmos fatos acerca da política e dos políticos de nosso país, já que isso toma o tempo que dedicaríamos à novela, ao filminho, ao namoro ou ao papo com as comadres.
   Não esqueçamos de fingir também que não temos culpa pela existência e continuidade da corrupção na esfera pública. Afinal, é perfeitamente normal e justo numa sociedade democrática que, por exemplo: um político acusado de fraudar o painel do Senado ou da Câmara, renuncie a seu mandato - e com isso escape de uma eventual punição; logo em seguida, esse mesmo político seja acusado de grampear os telefones dos opositores políticos, e até da amante. Mas logo depois, esse hipotético político é novamente eleito, e para coroar o seu retorno, pouco tempo depois torna-se presidente de uma Comissão de Constituição e Justiça no Congresso. Mas a lei foi cumprida, já que permite o retorno desse político à vida pública. Logo, se essa lei existe, e nós a aceitamos passivamente, sem qualquer mobilização contrária, tanto nós, quanto o dito político, e todos aqueles que o reelegeram, formam uma só coisa.

   Vamos fingir que a violência policial é aceitável, desde que não seja conosco. Já que mesmo ao arrepio da lei, graças a essa "ação" da polícia,  realmente muitos bandidos são mortos, mesmo que muitos inocentes também o sejam. Finjamos que nos importamos pelo fato de que esses inocentes, em sua maioria, são negros e pobres. Mas se a polícia está matando bandidos também, então a morte de favelados, negros e miseráveis e algo aceitável. Dessa forma, se fingirmos aceitar que a polícia está mesmo acima da lei a ponto de ser juiz e executor da justiça, então a corrupção policial é um mal menor, já que os bandidos estão sendo mortos, e é isso o que importa para nós... Desde que não seja conosco é claro.


   Vamos fazer de conta que admiramos o judiciário brasileiro, afinal é o único que temos. Que não precisa de qualquer controle por parte da sociedade, que precisa continuar livre para agir como desejar. Vamos fingir que nossas leis são boas, já que permitem uma infinidade de recursos e manobras judiciais, garantindo que alguém juridicamente bem assessorado, com recursos financeiros disponíveis, ou politicamente bem apadrinhado, dificilmente será punido, afinal, nunca se sabe se precisaremos dessas mesmas leis algum dia não é?

   Vamos fingir também que não sabemos que é na ineficiência da justiça, e na impunidade que reside a gênese de toda a injustiça, de todo desmando. E tem como frutos diretos o incentivo à prática delituosa e a sofisticação do crime e dos criminosos. Mas por outro lado, essa mesma impunidade e ineficiência da justiça, infunde a descrença, a frustração e a indignação manifesta em atos concretos por parte de todos aqueles homens honestos que não fazem como nós - coitados, eles não fingem.

   E por fim, para o bem de nossa própria consciência - se é que há consciência na inconsequência; e para justificar toda a nossa falta de patriotismo, nosso egoísmo, nossa indiferença, nosso desprezo pelo nosso semelhante, e mais que isso, nossa voluntária alienação, vamos continuar fingindo que sempre fazemos as coisas certas, que o que os outros fazem não é problema nosso, e, principalmente, continuar fazendo de conta que somos cidadãos.

 

 

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