Virgem Sofia e a Alma Gêmea

02/12/2012 08:47

Por Jacob Boehme

A alma, regozijando por tudo, diz para a Virgem Sophia:

Louvado, agraciado, força, honra e toda glória sejas Tu, Ó grande Deus, em Teu poder e doçura, pois Tu me redimistes da agonia do condutor ígneo.

Ó Tu Amor justo! Meu coração Te abraça; onde estiveste por tanto tempo?

Acredito que me encontrava no inferno, na ira de Deus.

Ó Amor gracioso!

Fique comigo, eu Te imploro, e seja minha alegria e meu conforto.

Conduza-me no caminho reto.

Eu me entrego ao Teu amor.

Sou obscuro diante de Ti, ilumina-me Tu mesmo.

Ó nobre Amor, dai-me Tua doce Pérola; rogo-Te para que a coloque em mim.

Ó grande Deus em Cristo Jesus, eu Te louvo e Te dignifico agora, em Tua verdade, em Teu grande poder e glória,

pois Tu perdoastes meus pecados e me enchestes de Tua força.

Clamo por alegria diante de Ti, em minha nova vida, exaltando em Teu firmamento de céu, onde nada pode se abrir senão Teu espírito, em Tua misericórdia.

Meus ossos regozijam-se em Tua força, e meu coração se deleita em Teu amor.

Graças a Ti para todo o sempre, pois Tu me livrastes do inferno, e transformastes a morte em vida em mim.

Ó doce Amor!

Que eu nunca mais me separe de Ti.

Conceda-me Tua Grinalda de Pérolas, e habite em mim.

Sejas minha própria possessão, a fim de que me regozije em Ti para sempre.

 

Então a Virgem Sophia, sua Alma Gêmea,  diz  para a alma:

“Meu nobre noivo, minha força e poder, tu és mil vezes bem vindo.

Por que me esquecestes por tanto tempo,

me contraindo em grande aflição por permanecer sem a porta e sem o bater?

Não tenho eu sempre te chamado e suplicado?

Mas tu voltastes o rosto contra mim, e teus ouvidos ignoraram meus pedidos.

Tu não pudestes ver a minha luz, pois tu caminhavas no vale das trevas.

Eu me encontrava bem perto de ti, chamando-te continuamente,

mas o teu pecado te mantinha cativo na morte, a fim de que não me conhecestes.

Vim até a ti com grande humildade e te chamei,

mas tu estavas suntuoso no poder da cólera de Deus,

e não se importou com minha humildade e solidão.

Tu tomastes o mal como teu superior, que assim o aceitou,

construindo seu forte de rapina em ti,

te afastando de meu amor e o fazendo acreditar em seu reino hipócrita de falsidade;

onde tu cometestes muitos pecados e fraquezas e virastes tua vontade para fora do meu amor.

Tu rompestes o laço do matrimônio e dedicou teu amor e afeição a um estranho, me fez sofrer,

eu tua noiva, a quem Deus, de fato, te deu para que permanecesse por si só na substância extinta,

sem o poder de tua força ígnea.

Não pude me alegrar sem tua força ígnea, pois tu és meu marido;

o brilho de meu esplendor se manifesta através de ti.

Tu não podes manifestar minhas maravilhas ocultas em tua vida ígnea,

nem traze-las à majestade;

sem mim, tu és uma casa escura,

onde não há nada senão angústia, miséria e tormentos horríveis”.

 

“Ó nobre noivo, permaneça com teu semblante voltado para mim,

me dê teus raios de fogo.

Traga teu desejo para o meu interior e com este ato me inflame,

então trarei os raios de meu amor, de minha meiguice para a tua essência ígnea,

permanecendo unida a ti para sempre”.

 

“Ó meu noivo, estou bem, agora que me uni a ti?

Beije-me com teu desejo, com tua força e poder,

então lhe revelarei toda a minha beleza,

me exultarei e serei consolada com teu doce amor e esplendor em tua vida ígnea.

Todos os santos anjos se exultam ao nos ver novamente unidos.

Meu querido Amor, te imploro para que habites em minha fé,

e nunca mais vire teu rosto para mim.

Opera tuas maravilhas em meu amor,

foi para isto que Deus te criou e te deu a existência”.

 

A alma fala novamente com a Nobre Sophia, seu Amor, que renasceu.

Ó minha nobre Pérola, chama de luz em minha ansiosa vida ígnea, que me transformastes em tua alegria!

Ó Amor belo, perdi a minha fé em Ti, em meu pai Adão e com minha força ígnea me voltei para o prazer e a vaidade do mundo exterior.

Apaixonei-me pelo que é estranho, sendo obrigado a caminhar no vale das trevas neste estranho amor, caso Tu não tiveste vindo na casa de minha miséria, com grande fé, através de Tua penetrante destruição da cólera, inferno e morte negra de Deus e restaurado Tua meiguice e amor em minha vida ígnea.

Ó doce Amor, trouxestes a água da vida eterna da montanha de Deus para o meu interior, saciando minha grande sede, vejo em Ti a misericórdia de Deus, até então oculta por causa de meu estranho amor.

Em Ti posso regozijar-me; Tu transformastes minha angústia de fogo em grande alegria.

Ó afável Amor, conceda-me Tua Pérola, a fim de que eu continue nesta alegria para sempre.

 

A nobre Sophia responde à alma dizendo:

“Meu querido amor e tesouro fiel,

muito me alegras em tua iniciação.

De fato, já rompi em ti os profundos portões divinos,

através da cólera de Deus, através do inferno e da morte, na casa de minha miséria.

Ofereci meu amor graciosamente a ti,

libertando-te das correntes e laços pelos quais te encontravas firmemente amarrado.

Continuei fiel a ti, embora tu não permanecestes fiel a mim.

Mas, tu desejas algo excessivamente grande de mim, que não posso confiar em tuas mãos.

Queres minha Pérola como sendo tua.

Lembre-se, Ó meu amado noivo,

roguei para que tu não a perdesses displicentemente, em Adão;

tu permaneces em grande perigo, caminhando em dois perigosos reinos.

Pois em teu fogo original, caminhas por aquelas terras

onde Deus chamava a Si mesmo um Deus forte e ciumento e um fogo que consome.

O outro reino no qual caminhas, é o mundo exterior, onde habita a vã e corrupta carne e sangue,

onde os prazeres do mundo e os assaltos do demônio te perseguem a cada instante.

Tu poderás talvez, em tua grande alegria

trazer outra vez as coisas terrenas para junto de minha beleza, obscurecendo minha Pérola.

Poderás te tornar orgulhoso,

como Lúcifer, quando tinha a Pérola em seu poder, e se afastar da harmonia de Deus, como ele fez,

então ficarei privada de meu amor para sempre.

 

Não, guardarei minha Pérola em mim, e habitarei no céu em ti,

em tua extinta, mas agora revivida humanidade em mim;

reservarei minha Pérola para o paraíso, até que tu afastes as coisas terrenas de ti,

então permitirei que tu a possuas.

Irei contudo, lhe mostrar meu amável semblante e os doces raios da Pérola,

durante o curso desta vida terrestre.

Irei habitar com a própria Pérola no coral interno e serei tua amável e fiel noiva.

Não posso me expor a tua carne terrestre,

pois sou uma Rainha celeste, e meu reino não é deste mundo.

Ainda assim, não irei por um fim em tua vida exterior,

mas aliviá-la freqüentemente com meus raios de amor;

pois tua humanidade exterior pode voltar.

Não posso aceitar a besta da vaidade,

nem Deus a criou em Adão com o propósito de ser tão rude e terrestre.

Mas, em Adão, teu desejo através do poder de sua forte luxúria, formou esta grosseria bestial

utilizando-se de todas as essências da vaidade despertada da propriedade terrestre,

onde o calor e o frio, a dor e a inimizade, a divisão e a corrupção, subsistem.

 

Ora, meu caro amor e noivo, não faça outra coisa senão submeter-se à minha vontade;

não irei te desamparar nesta vida terrestre, no perigo.

Ainda que a ira de Deus deva passar sobre ti, a fim de que temas e seja desapegado,

ou pense que eu tenha desistido de ti, ainda que irei estar contigo,

preservando-te pois, tu nada sabes sobre teu trabalho.

Tu deves, durante esta vida, trabalhar e gerar frutos.

Tu és a raiz desta Árvore de Pérola; galhos devem ser gerados de ti,

todos eles devem brotar na angústia.

Mas eu também surjo com teus galhos, na seiva, produzindo frutos em teus ramos,

e tu nada sabe sobre isto; pois o Altíssimo assim ordenou, que eu habitasse contigo e em ti.

 

Revista-se pois de paciência, e se livre dos prazeres da carne.

Afaste daí o desejo e a vontade; coloque rédeas como a um cavalo indisciplinado.

Assim, irei visitá-lo freqüentemente na essência ígnea e te dar o meu beijo de amor.

Irei trazer comigo, do paraíso, uma grinalda como prova de minha afeição,

a colocarei sobre ti, o que te deixará muito feliz.

Mas não te darei minha Pérola para que possuas durante a vida terrestre.

Deves permanecer na resignação,

ouvindo o que o Senhor toca em Seu instrumento, na harmonia que há em ti.

Mais que isto, tu deves dar o som e a essência ao teu tom a partir de minha força e virtude,

pois tu és agora um mensageiro de Seu Verbo, e deve buscar Sua benção e glória.

É por esta causa que eu renovei meu pacto contigo,

colocando minha grinalda triunfante sobre ti,

a qual conquistei durante a batalha contra o demônio e a morte.

Mas a Coroa de Pérola com a qual te coroei, está reservada a ti.

Tu não mais a usará até que te tornes puro aos meus olhos.

 

A alma  diz à nobre Sophia:

“Ó Tu, doce e justa consorte, que devo dizer diante de Ti?

Permita me comprometer inteiramente contigo, não posso me preservar.

Se Tu não me dá Tua Pérola, me submeto à Tua vontade; mas me dê Teus raios de amor e conduza-me com segurança durante minha peregrinação.

Desperte realmente o que desejas em mim; Daqui para frente serei só Teu.

Não desejarei nada para mim mesmo, senão aquilo que Tu desejas através de mim.

Tenho desprezado Teu doce amor e rompido minha fidelidade para contigo, o que estava me fazendo cair na cólera de Deus.

Mas vendo que por amor Tu viestes ao meu encontro na angústia do inferno, me livrando do tormento e me recebendo, mais uma vez, como consorte, irei agora deixar minha vontade de lado por causa de Teu amor; serei obediente a Ti, esperando por Teu amor.

Estou satisfeito agora que sei que Tu estais comigo em todos os meus problemas e que não irás me abandonar”.

“Ó gracioso Amor, volto minha face ígnea para Ti.

Ó justa Coroa, toma-me rapidamente para Ti, tira-me da inquietude: serei Teu para sempre e nunca mais Te deixarei”.

 

A nobre Sophia responde seguramente dizendo:

“Meu nobre noivo, fique tranqüilo.

Guardo comigo o teu compromisso em meu mais alto amor

e me comprometo contigo com toda minha fidelidade.

Estarei contigo para sempre, até o fim do mundo.

Virei até a ti e contigo farei minha morada, em tua câmara interior.

Tu irás beber de minha fonte pois, agora sou tua e tu és meu, o inimigo não irá nos separar.

Trabalha em tua propriedade ígnea e eu colocarei meus raios de amor em tua obra.

Iremos assim, plantar e fertilizar a vinha de Jesus Cristo.

Disponha da essência do fogo, eu irei dispor da essência da luz, e do crescimento.

Sejas tu o fogo, eu serei a água;

juntos iremos realizar esta obra neste mundo, que Deus nos designou,

servindo-O em Seu templo que somos.

                                                                                                        

Amém”.

 

 

 

 

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