A candidatura e o vínculo emocional com o eleitor

Em meio ao fogo cruzado da propaganda eleitoral, com tantas informações contraditórias sobre os candidatos e suas propostas, não é fácil para o eleitor médio decidir seu voto. A questão emocional tem o poder de colocar a eleição no mundo pessoal do eleitor, aproximando-a dos seus interesses e preocupações. O candidato não deve se iludir, a emoção é sempre mais forte que a razão para os eleitores. Ao focar a candidatura num tema que permita a conexão com sentimentos fortes dos eleitores, o candidato se distingue dos outros, adquirindo relevância e identidade própria.

Na política o coração sempre é mais forte que a razão. Isto não significa dizer que o eleitor sempre decide emocionalmente, desprezando considerações de racionalidade. Significa que é pelos sentimentos que o eleitor terá sua atenção despertada, seu interesse na eleição mobilizado. Somente depois que ele passa a ter interesse pessoal na eleição é que o processo mental de analisar e avaliar as candidaturas e suas propostas começa verdadeiramente. É a enquete/pesquisa de diagnóstico o instrumento adequado para identificar quais os sentimentos dominantes no eleitorado. Estes sentimentos são fortes porque dizem respeito sempre a valores muito importantes para a vida das pessoas.

São desejos e temores do eleitor:

- Desejo de viver em segurança e temor de ser vítima da violência;

- Desejo de conseguir emprego e temor de ficar desempregado;

- Desejo de ter sua saúde protegida/ e temor de ficar doente e não receber atendimento;

- Desejo de escolher candidatos honestos e competentes e temor de ser manipulado e governado por corruptos e incapazes;

- Desejo de assegurar oportunidades de progresso para os filhos e temor de não ter acesso a elas,

- Etc.

Criar o foco da candidatura implica em identificar qual destes desejos e temores é mais importante para o eleitorado alvo, amarrar as razões da candidatura na solução e enfrentamento do problema, assegurar-se que a imagem política, a história de vida e os pontos fortes do candidato são compatíveis com o desafio, e relacionar as propostas para as outras áreas de ação com o tema central. Possuir um foco para a candidatura significa também ir ao encontro de uma necessidade do eleitor.

Para o eleitor médio, sobretudo aquele que se decide durante a campanha eleitoral, a política e até mesmo a eleição não são suas principais prioridades. Ele investe a maior parte do seu tempo em questões referentes à sua vida pessoal e familiar, seu trabalho, seus estudos, seu lazer, que são suas principais fontes de gratificação e de preocupações. Para o eleitor médio, o lazer é uma das suas principais fontes de gratificação.

O candidato e seus auxiliares frequentemente cometem o erro de agir como se os eleitores tivessem o mesmo interesse político que eles, e que estivessem acompanhando atentamente a campanha eleitoral. Na realidade, para acompanhar o processo político de forma sistemática e regular o eleitor médio teria que fazer um investimento de tempo que está muito além de suas possibilidades. 

Ele sabe, intuitivamente, que não será no breve espaço de uma campanha eleitoral que ele conseguirá o conhecimento e a informação que até então não adquiriu. Por isso, poucos eleitores acompanham diariamente os programas gratuitos na TV e nas rádios. A título de exemplo é oportuno lembrar que, pouco informado, pouco interessado e pouco versado nas complexas questões políticas, o eleitor médio assim mesmo terá que tomar sua decisão e fazer uma escolha.

Nestas condições, ele é levado a recorrer a "atalhos intuitivos" para formar a sua opinião, o que lhe permite economizar tempo para se informar, simplificando e facilitando seu processo pessoal de decisão. O "atalho" escolhido pode ser a ideologia, o partido, a polaridade situação/oposição, a opinião de pessoas em quem confia e admira e outros. O problema com estes "atalhos" é que todos eles, quando não beneficiam o candidato, estão fora do seu campo de influência. O "foco" da candidatura é também um "atalho intuitivo", mas um "atalho" proposto pelo candidato e com ele identificado.

Se o candidato ligar o foco de sua candidatura com os mais intensos sentimentos dos eleitores, talvez consiga pautar a campanha, forçando seus adversários a competir com ele na área temática por ele criada, e na qual se localizam seus pontos fortes, seus melhores argumentos e suas melhores propostas. Esta é, fora de qualquer dúvida, a melhor situação para disputar uma eleição. Construí-la é o desafio de uma campanha moderna e inteligente.


Artigo de Francisco Ferraz

Fonte: www .mundodapolitica.com