A estrutura básica da campanha eleitoral

18/08/2020

A primeira preocupação do candidato a cargo eletivo deve ser entender que se encontra a alguns meses antes do dia da eleição. Este é o tempo que dispõe. A seguir, deverá dividir este tempo em fases, que correspondam a diferentes momentos da candidatura e da eleição. Neste momento, o candidato se encontra na fase pré-campanha, na fase de ainda formalizar sua candidatura no partido e na Justiça Eleitoral. Quando a candidatura for homologada no partido e na Justiça Eleitoral, começará a fase da campanha propriamente dita. 

Mas, atenção, esta é uma época em que não é permitido fazer campanha na condição de candidato. O candidato não pode sair distribuindo "santinhos", fazer cartazes etc. Isto, porém não significa que não possa iniciar a sua campanha. Todo o trabalho de preparação, que não for ostensivo e não o apresente como candidato pode ser realizado neste período, mas poderá se apresentar como pré-candidato sem pedir votos, sobretudo no que se refere em organizar sua estrutura básica de campanha nesta fase.

É útil fazer um mega-calendário do período da campanha - da data da eleição para o presente - que cubra todos os dias da campanha e todas as horas que você poderá disponibilizar para sua candidatura. Este calendário deverá incluir todos os compromissos de campanha, todos os feriados, o período de cada fase, datas de debates, visitas, entrevistas, em suma, todas as atividades de campanha que foram acordadas. Este calendário é um recurso de disciplina e de organização da sua campanha. Deve estar ao alcance apenas de quem tem funções executivas e de confiança. Essa matéria será atualizada depois que se ultrapassar o período da pré-campanha e comece a campanha. A estrutura básica (mínima e de baixo custo) inicial, adequada para esta fase e para campanhas modestas em termos de recursos se constitui de:

  • Local Sede

  • Equipamentos

  • "Biblioteca"

  • Equipe

O candidato deve ter um Local Sede para sua campanha. Se lhe for possível, deve tentar conseguir um escritório, ou uma casa desocupada. Se não for possível, a sede será seu escritório ou sua casa. A sede é importante, porque é a primeira materialização de que uma campanha existe, é um ponto de encontro para a equipe e de guarda de material. Não é ainda necessariamente a sede definitiva, mas deve ser um lugar que garanta a privacidade e que permita a concentração no trabalho, sem distrações. Deve também ser o local para onde são levados, e guardados, os primeiros materiais de campanha. Se lhe for possível ter um espaço exclusivo para a sede fora de sua residência, é importante fazer algumas adaptações no espaço, principalmente para ter uma sala de reuniões separada, uma recepção, e um espaço para trabalho de várias pessoas.

Os equipamentos que você vai necessitar inicialmente são poucos e você sabe quais são além de que possivelmente você já os possua. São basicamente: computador, impressora, celulares, veículos, material de som e projeção, TV, Rádio, material para fotografia e conexão com a internet. É óbvio que estamos listando apenas o essencial. Havendo meios deverá haver mais computadores, seus periféricos e rede telefônica fixa. O computador já deve ser formatado para organizar as informações em diretórios e pastas que, no início, estarão em muitos casos vazias. Seu computador deve ter uma boa capacidade de memória RAM e de memória de disco, além de aplicativos para vídeos, fotos, para navegação e você deve adquirir o hábito de fazer "back up" de tudo que for importante. O acesso ao banco de dados deverá ser seletivo, e as informações mais sigilosas devem estar protegidas. Os custos para a aquisição (ou locação) de equipamentos, contratos e outras despesas deverão seguir as normas da legislação eleitoral vigente.

O termo "biblioteca" está sendo escrito entre "aspas" para significar que não se trata da Biblioteca convencional. Por biblioteca deve se entender o armazenamento organizado de materiais impressos e gravados que você ou seus amigos já possuem e que podem vir a ser úteis na campanha. Nela se encontrarão, entre outras matérias:

  • Os resultados de eleições anteriores;

  • Dados estatísticos sobre o município;

  • Cópias de pesquisas de opinião já feitas na cidade;

  • Matérias jornalísticas sobre problemas da cidade;

  • Declarações de adversários;

  • Material publicitário de campanhas já realizadas na cidade;

  • Catálogos e guias sobre a cidade;

  • Mapas com a planta física da cidade e dos bairros;

  • Material produzido pelo partido;

  • Livros, e publicações sobre legislação eleitoral;

  • Livros e manuais de campanha eleitoral;

  • Listas de associações;

  • Outras listas como as de doadores potenciais, de jornalistas, de apoio potencial, de fornecedores;

  • Fotos, reportagens impressas, material gravado sobre o candidato e sobre os adversários;

  • Relatório circunstanciado de atividades, votos, projetos de lei encaminhados, trabalhos de comissões do vereador que busca a reeleição;

  • Relatório circunstanciado sobre a administração, obras , situação financeira, projetos em andamento, reportagens e comentários da imprensa sobre a prefeitura;

A "Biblioteca", como se vê, é uma estrutura de apoio para todos os setores campanha. Como tal, uma vez iniciada, continuará crescendo sem parar, de acordo com o princípio estabelecido de que papel sempre gera mais papel. Sua utilidade pode ser avaliada fazendo-se um raciocínio pelo contrário, isto é, se ela não existisse. Neste caso, a todo o momento se estariam organizando expedições para a busca "daquele" documento, texto, reportagem, dados nos mais variados lugares e junto a todos os membros da equipe, com a inevitável perda de tempo, exasperação e insegurança que esta situação acarretaria.

sede e os equipamentos básicos já devem estar operacionais, e que são apenas os recursos básicos e indispensáveis, mínimos para começar uma campanha moderna. Trata-se, pois, de um modelo de baixo custo, aplicável à maioria das campanhas eleitorais locais. De pouco adiantaria, para a maioria dos leitores, apresentar a estrutura de uma campanha rica, que fique muito fora da sua realidade. É fundamental não esquecer, entretanto, que, mesmo uma estrutura modesta pode fazer uma campanha moderna. Mais ainda, é exatamente a campanha com poucos recursos que depende da modernização para equilibrar com estratégia, sagacidade, esforço e criatividade sua inferioridade em recursos econômicos. Esta é uma área onde, mesmo com poucos recursos, pode-se levar vantagem. 

Uma equipe composta de pessoas inteligentes, dedicadas e responsáveis, disciplinada e leal faz muita diferença numa campanha eleitoral. O dinheiro pode comprar os melhores especialistas, mas isto não significa que formarão a melhor equipe. Campanhas ricas, compostas de "estrelas" em cada área, nem sempre conseguem dar origem a uma "equipe" que sabe trabalhar em conjunto. O mais das vezes não consegue. O candidato pode então, dependendo de suas relações pessoais e das de seus amigos e familiares, formar uma equipe solidária, idealista, criativa e trabalhadora para disputar sua eleição para vereador ou prefeito. Na eleição local, sobretudo em cidades de porte pequeno ou médio, o contato pessoal com a maioria, ou até mesmo a totalidade dos eleitores é possível e, sendo este método o mais eficiente para conquistar votos, o fator "recursos financeiros" pode ser pelo menos em parte equilibrado.

Essa equipe precisa ter algumas pessoas que, se não são profissionais do setor, pelo menos tenham talento nas respectivas áreas. Assim, você poderá ter na equipe um jornalista seu amigo que funcione como um assessor de imprensa; e de um coordenador de campanha, usualmente uma pessoa com experiência administrativa ou um membro do partido com experiência no ramo. Este é o homem para administrar a campanha no seu conjunto. Precisa ser alguém muito leal a você, mas com certa autonomia para tomar algumas decisões; firme, mas atencioso; organizado e disciplinado; em suma um exemplo de trabalho, dedicação e lealdade. Além desses auxiliares, você vai precisar de um contador ou contabilista para ser o seu tesoureiro que assegure a lisura dos registros e a segurança na movimentação dos recursos; e de um advogado que o assessore nos procedimentos legais ligados à sua candidatura, junto ao partido, à Justiça Eleitoral e a terceiros. 

No que respeita à comunicação, o candidato precisará da ajuda de um publicitário para programar graficamente suas peças impressas. Se não tiver um amigo desta especialidade, deverá contratar um para toda a campanha ou para a realização de trabalhos específicos. Na falta de recursos para contratá-lo, poderá tentar ainda um estudante de publicidade, que sempre terá acesso a seus professores. Ainda na área da comunicação, precisa de um redator. O ideal é que esta pessoa seja também um publicitário, mas se não for possível, talvez um jornalista amigo ou um professor possa ajudar nesta função. Não esquecer que criar slogans, frases fortes (soundbites), usar linguagem clara, simples e acessível, são talentos que nem todos possuem.

A equipe não estaria completa se não estiver reunido nela seus principais conselheiros políticos (que possam trabalhar em conjunto) e que funcionarão como assessoria estratégica. Se for possível incluir também um cientista político com experiência em pesquisa e com alguma vivência ou pelo menos "gosto e talento" para campanhas eleitorais, para que ele cubra sua área de pesquisa e participe da elaboração estratégica. Talvez não haja disponibilidade de recursos para fazer pesquisas, mas com um cientista político que tenha conhecimentos práticos, pode conseguir colocar perguntas "de carona" numa pesquisa que esteja sendo feita por seu partido, ou pelo candidato a prefeito, e terá alguém capacitado a interpretar resultados de pesquisas feitas pelos meios de comunicação social ou, no mínimo, alguém treinado para "filtrar" opiniões, relatos, experiências, em informações com as quais se pode trabalhar.

Com esta equipe básica, o candidato estará em condições de começar uma campanha moderna, a custos muito baixos. O segredo está na capacidade de escolher pessoas que possam desempenhar bem aquelas funções, mesmo que não sejam profissionais famosos e experientes. Na falta do ótimo, usa-se o bom!

Adaptação da abordagem de Francisco Ferraz

Fonte: https://mundodapolitica.com/como-deve-ser-estrutura-basica-da-campanha/