O inimigo de seu inimigo é seu amigo?

Acreditar que o inimigo de seu inimigo é seu amigo é uma das muitas ilusões que formam a atmosfera da política. Como toda ilusão, gera falsas expectativas, conduz a conclusões precipitadas e induz ao erro, sob variadas formas. Geralmente, o inimigo de seu inimigo, que busca aproximar-se de você, é um indivíduo passional, dominado pelo ódio, cujo objetivo único, ao apoia-lo é infligir um dano ao seu objeto de ódio, pouco ou nada lhe importando a sua candidatura.
Normalmente é ex-amigo do seu adversário que, por motivos de ordem pessoal, desiludiu-se com o antigo amigo, sentiu-se traído por ele, ou julgou-se prejudicado por alguma ação ou atitude, a tal ponto que a amizade de outrora se transformou num ódio pessoal, radical e irreversível. Quando ele aparece no diretório da campanha e é recebido por um de seus assessores, ele é encarado como um misto de doido e "enviado dos céus".
Parece doido, às vezes pela aparência, outras pela forma como fala, ou pelas informações que deixa escapar, ou mesmo pela ousadia das afirmações contra o adversário. Parece o "enviado dos céus" pela pasta que traz embaixo do braço. Ah! Aquela pasta... Ali, segundo ele, encontram-se fatos, fotos e documentos que vão liquidar definitivamente com as chances do seu adversário. Mas, a pasta ele não abre para ninguém, a não ser para você, o candidato, por isso, ele quer se encontrar com você, e a sós. Ele fica esperando, sorvendo o cafezinho que lhe é servido junto com um dos assessores que tentam arrancar mais alguma peça de informação, enquanto um outro sobe até você para discutir o assunto.
Quem tem experiência de campanha há de se lembrar de uma situação como esta. Raras são as campanhas - pelo menos para o executivo - em que este personagem não faz a sua aparição. A sua primeira reação é de não recebe-lo, não perder tempo com ele. Mas a pasta.... a pasta faz pensar. E se afinal dentro dela estiver, realmente, os documentos destruidores que ele alega possuir, aqueles que ninguém tem e que ninguém descobriu? Em 8 de cada 10 situações como esta em que, havendo a insistência do "homem da pasta", que somente a abre para o chefe, ele será recebido pelo candidato!!!
Aberta a pasta, a campanha entra então na sua operação de mineração. Dentro dela pode-se encontrar tudo.
Em geral o resultado é pífio: são matérias de jornais, desgravações de fitas, cds, bilhetes, fotos, copias de documentos oficiais, anotações, e o que mais se imaginar. Não é impossível que, dentro da pasta se encontre material explosivo contra o adversário, mas é raro... Usualmente, os alegados documentos não comprovam nada, ou as acusações já são conhecidas e já foram respondidas, e o material dito "sigiloso", quanto mais grave for, menos comprovação terá para validá-lo. Às vezes acontece, embora seja raro, que alguma coisa do que ele traz na pasta, possa ser de utilidade para a campanha. Não se iluda, vai lhe custar muito caro. Normalmente ele não se satisfará em entregar o material para você usar. Ele vai querer determinar como deve ser usado e quando, interferindo com sua estratégia.
Cuidado pois com o homem da pasta. Ele é um passional, dominado pela ideia de destruição do seu inimigo pessoal que, circunstancialmente é seu adversário naquela eleição. Mesmo quando pode ser útil, dá muito trabalho lidar com ele. Além disso, você não deve perder de vista que é uma pessoa extremamente passional. Se se decepcionar com você, não terá nenhum problema de inclui-lo no rol dos seus desafetos pessoais.
Outra situação, completamente diferente, é a de pessoas que estavam ligadas ao seu adversário por vínculos políticos e que dele se afastam por sentirem-se politicamente traídos. Estes se aproximam de você, por razoes políticas, pelas posições políticas que você defende. Nestes casos, embora a motivação inicial de aproximar-se de você tenha sido derrotar aquele que se tornou inimigo deles, há uma racionalidade clara e explicita a impulsionar a aproximação. Há uma razão forte, de natureza política, para eles lutarem pela vitória da sua candidatura.
Essas pessoas constituem uma ajuda importante para sua campanha. Eles por certo, vão exigir uma reunião de acerto político com você, onde, uma espécie de pacto vai ser acordado. Nos termos daquele pacto você poderá contar com eles. Nos dois casos, entretanto, é sempre avisado não esquecer que os inimigos de seus inimigos não são seus amigos.
A frase possui duas ideias: a primeira é que eles são inimigos de seu adversário. Sobre isto não resta duvidas. A aproximação que buscam de você é para derrotar e destruir o inimigo deles. A segunda ideia é que não são seus amigos. O sentimento que os move esta referenciado não a você e sim ao seu adversário, seja no caso das razoes pessoais, ou no das razões políticas.
A postura ingênua de trata-los como amigos, pelo fato de que compartilham um adversário comum, leva invariavelmente, a uma situação de conflito com eles. Tratados como amigos desenvolvem expectativas que você não quererá, nem poderá atender, porque você esta interessado em vencer seu adversário, enquanto eles estão interessados em destruir o inimigo deles. Para você, há um limite claro no uso de armas de ataque contra seu adversário na campanha: as vantagens eleitorais que daí se deriva.
Para eles, não há limites. Principalmente para aqueles cuja hostilidade é de natureza pessoal. A hipótese de derrotar o inimigo, ao custo da sua vitória é perfeitamente aceitável e ate satisfatória. Por isso, a relação entre você e eles deve ser tangencial, oportunista, baseada no interesse comum em derrotar o adversário, sem prejudicar as suas chances de eleição. Isto precisa ficar muito claro na conversa ou pacto que tiver com eles, para que não se sintam mais tarde, traídos por você.
Tentar ultrapassar este limite configura situação de guerra, não de eleição, e você esta disputando uma eleição, não combatendo uma guerra. Se eles não aceitarem que o uso das armas de ataque deverá estar subordinado à sua estratégia maior, então é melhor agradecer, e dispensa-los na hora.

Artigo de Francisco Ferraz

Fonte: www.politicaparapoliticos.com.br