Caso Queiroz é guerra aberta entre Bolsonaro e Doria/Witzel – Parte 2

23/06/2020

...continuação da Parte 1 ...

Continuando sua abordagem sobre a "guerra" entre Bolsonaro e Doria/Witzel, o jornalista José Antônio Severo comenta a passagem da "crise" para a batalha judiciária: 

"A luta foi inteiramente para o Judiciário. Este é um campo novo para o presidente, que construiu sua carreira como "enfant terrible" na área político-congressual e agitador denuncista nas campanhas eleitorais. Ter sucesso nesses espaços é não ter papas na língua. Quando era um político irrelevante, suas polêmicas passavam em branco. Chegando ao Palácio do Planalto, viraram explosivo. Sem ter adversários à altura no Parlamento ou na sociedade civil, foi parar nas barras dos tribunais. Está levando pauladas de todas as instâncias. Aí entra o caso Queiroz, que acendeu o estopim de mais uma bomba nesta semana.

Nestas áreas concentram-se seus opositores com ameaças reais. Os adversários da frente ampla em formação, que vai da centro-esquerda (PDT, PSB, Rede, PV e outros), passando pelo centro e chegando à direita liberal (DEM, PTB e alguns nanicos), apostam no STF, com processos como das fake news envolvendo a família e amigos do presidente da República. Neste caso, o presidente seria deposto assumindo seu vice, o general Hamilton Mourão. O grupo da esquerda ortodoxa, com PT e aliados, sonha com anulação da chapa vencedora das eleições, no TSE [...]. Esse grupo ilude-se com a nova eleição imediata, na expectativa de que poderiam retornar ao poder. Delírios de uma noite de inverno? A verdade é que aqui vale a máxima dos gaúchos: "não está morto quem peleja".

Nos tribunais, o presidente está em francas desvantagens, o que, aparentemente, não o assusta, pois sempre operou em minoria nos seus tempos de político convencional. As composições dos plenários judiciários, de uma maneira geral, são hostis a seu governo. Indicados e nomeados por governos da antiga esquerda paulista, PSDB e PT, não engolem o estilo bolsonarista. Entretanto, só o Judiciário não tem força para criar uma situação capaz de derrubar o presidente, pois seria preciso licença parlamentar, o que se considera impossível neste momento. Bolsonaro vai se equilibrando nesta corda bamba como é sua especialidade desde que criou a confusão que o afastou do Exército, mas lhe deu um eleitorado fiel (graduados aposentados e suas viúvas). Nesse quadro, ele estaria numa manobra de retirada tática. A alternativa seria compor um governo de notáveis, jogando ao mar a ala ideológica.

Alguns figurões estão sendo discretamente consultados. Com isto, teria os dois anos que ainda precisa para completar seu mandato e tentar nova legitimidade nas urnas, com uma reeleição contra todos e tudo, tal qual sua vitória em 2018. Para isto, o núcleo militar de seu governo seria o fiador de sua estabilidade. Bolsonaro teria de enfiar a viola no saco e comportar-se como uma legítima cria das Agulhas Negras, uma academia que cultiva o cavalheirismo e bons modos. Sairia de campo o Bolsonaro dos sargentos e QOAs do Exército e das Polícias Militares, entrando o capitão elegante. Difícil, mas possível. Até essa definição, ele terá de se desvencilhar das pressões judiciárias. Pouco lhe resta, pois está em choque com a última instância de recurso, o STF. Para além disso, como se dizia nos bons tempos do Brasil Colônia, só lhe resta queixar-se para o bispo. Não lhe faltam bispos. Ou seja: é tudo eleição, a alma da política na democracia de massas.


Obs.: Esta abordagem do jornalista José Antônio Severo, transcrita do site Os Divergentes, é de inteira responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Blog Várzea Paulista