Ciência e política são compatíveis?

Com o Covid-19 vemos fatos novos no cenário político, desde mudanças no governo até pedidos de impeachment do presidente, tudo em torno de discussões, avaliações, dilemas e convicções nas fronteiras que a ciência e a política precisam ter. Entretanto, quanto e como a ciência e a política podem justificar ações jurídicas para solução de conflitos? Ora, se a diferença entre uma e outra é que "a ciência está em contínuo e irreversível progresso, enquanto os avanços na política podem ser perdidos rapidamente", então a política não tem o mesmo compromisso com o tempo e o avanço do progresso da ciência, tornando-as diferentes e incompatíveis.

Ora, tais divergências podem ser atribuídas a conceitos particulares de ciência e de política, quando nem sempre prevalecem as mesmas regras de neutralidade e imparcialidade nas análises, como a própria ciência recomenda. Se a ciência pode ser vista como promotora de avanços em favor da humanidade, a política nem sempre é entendida como um legítimo e democrático meio de diálogo em favor do bem comum. A ideia que prevalece na opinião pública é a da má política, na qual interesses particulares é maior que os da sociedade.

Nota-se conflitos e dilemas de coexistência entre ciência e política, mais observáveis em sociedades modernas, diante dos desafios do Estado em garantir a participação democrática do cidadão e atender aos interesses da vida burocrática e administrativa do Estado. De certa forma, esses objetivos eram percebidos como incompatíveis e a ciência, de modo geral, ganhavam espaço na política e da gestão do Estado, quando sugiram os movimentos em defesa da competência e da avaliação como critérios para a construção de políticas públicas em razão das evidências científicas.

Ciência e política nunca tiveram valor conceitual pacífico. Dúvidas e contradições sobre a participação de cada uma se destacavam, particularmente nas democracias modernas, a ponto de se estabelecer forte linha de pensamento em favor da separação dos fatos jurídicos entre elas, baseada na crença de que, enquanto a ciência se firmava no conhecimento e nos fundamentos técnicos e científicos, a política sofria de dúvidas insolúveis em torno das paixões e contradições humanas. Dessa forma, para proteger a ciência, foi dado a ela o princípio de neutralidade e da autonomia na condução de seu próprio destino.

De tal forma, defendeu-se que a sociedade e o Estado deveriam ser conduzidos pela "racionalidade dos sábios", sobrepondo assim à política e afastando da sua vida a influência humana, com os seus desejos divergentes e carentes de conhecimento científico. Seria, então, a democracia relativa pelo empoderamento do Governante Esclarecido, sendo ele capaz de promover o bem comum. Nessa linha, o homem, baseado no conhecimento científico, colocaria fim "às controvérsias e diferenças de opinião, decorrentes das inconciliáveis paixões humanas". Auguste Comte, filósofo, afirmava que, "graças à ciência, a humanidade poderia livrar-se da política".

Obs.: A abordagem acima é adaptação da publicação de Eli Macedo no site Gazeta do Povo.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/ciencia-e-politica-os-verdadeiros-e-os-falsos-dilemas/