Fé e política

No decorrer da história do cristianismo, Fé e Política sempre estiveram juntas. Os cristãos, fiéis aos ensinamentos da Bíblia, entendiam que a Fé tinha que se desdobrar em ações sociais e políticas que interferissem na organização da sociedade. O que se discute na atualidade é a forma como se articula Fé e Política e suas conseqüências. Os profetas foram cristãos político-críticos das injustiças e dos explorados. No Brasil, a Igreja tem incentivado a participação efetiva dos cristãos em conselhos paritário, grupos, movimentos e organizações coletivas que visem à transformação da sociedade, pela via da ação política, e essa construção passa pela ação política.

Um dos mais consistentes segmentos Pastorais da Igreja Católica é a PASTORAL FÉ E POLÍTICA. Conscientes da necessidade de uma política que atenda o bem comum, a Pastoral procura educar as Comunidades e a população na responsabilidade do governo público, através da escolha consciente do seu representante. Avanços e desafios para a participação política da sociedade. O tema da política tem possibilitado movimentos importantes da sociedade civil e da sociedade política em 2012, permitindo vislumbrar avanços significativos.

Um dos principais avanços é o da Lei da Ficha Limpa. A vitoriosa confirmação de sua constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal permitirá sua vigência já nas eleições deste ano para prefeitos e vereadores. Mas a expressão da vontade popular foi além e fez com que esta discussão avançasse também pelas casas legislativas, desde a Câmara dos Deputados, passando pelas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. 

E há outras questões também importantes. Hoje temos poucas prefeitas no Brasil, o que é menos de 10%. Pesquisas demonstram não só que a sociedade está disposta a votar em mulheres para quaisquer cargos como, também, que uma expressiva maioria acredita que a população brasileira ganha com maior número de mulheres disputando e elegendo-se para cargos executivos ou legislativos. O principal resultado é a recomendação de que os juízes de todas as regiões vigiem que esses percentuais de mulheres candidatas sejam finalmente obedecidos!

Frentes importantes de mobilização por mudanças que aprimorem a relação entre cidadania e política, a favor da cidadania, estão ativas!! Nunca é demais reforçar que quando acompanhamos pautas da vida política, que modificam as regras do jogo político há sempre interesses diversos, e é nosso dever buscar meios de construção de nossa opinião e de participação. Por exemplo, na participação social ou na aproximação com entidades e organizações que atuam nesse campo, como a Plataforma dos Movimentos Sociais para a Reforma do Sistema Político no Brasil. 

Aliás, esse processo de reforma eleitoral já gerou grandes frustrações em um passado recente. Fazia parte da proposta defendida por segmentos democráticos importantes da sociedade civil, apenas para citar um exemplo, a aprovação da lista fechada de candidatos a cargos legislativos, com alternância de gênero, o que significa que o sistema eleitoral fortaleceria os partidos e, dentro deles, consolidaria mecanismos para democratizar mais a definição dos candidatos, ampliando a participação das mulheres e, assim, estimulando maior participação social na política. Esse sistema não visava impedir o voto em pessoas, como foi acusado, mas visava melhorar a organização da lista de candidatos. 

O voto continuava podendo ser feito na legenda ou na pessoa, mas se reduzia aquele personalismo que prioriza os candidatos campeões de votos ou puxadores de votos, em detrimento da qualidade da lista de candidatos que os partidos oferecem à sociedade. Essa proposta, ainda no passado, restou rejeitada e a reforma eleitoral viu sua abrangência reduzida a temas também importantes mas perdendo-se aquele sentido mais abrangente que modifica a atual forma de funcionamento dos partidos. Em tempo: um dos motivos da derrota dessa proposta foi... a infidelidade partidária.

A política é uma atividade complexa e difícil de ser entendida pelas pessoas que não a acompanha mais de perto. Os padrões de moralidade do homem público diferem dos que regem a ordem privada e daqueles que se dedicam a religião. No Brasil a falta de participação da população na vida pública torna a política incompreensível. Habilmente exploradas por certos meios de divulgação, geram a imagem de que todo político é um homem interesseiro, falso, "vira-casaca", vaidoso aproveitador; uma pessoa que trabalha pouco e ganha muito; um parasita, quando não, desde logo, um ladrão. Essa imagem precisa ser trabalhada. Qualquer forma de generalização compromete as instituições a que as pessoas pertencem.

Acompanhar a vida política não é só para políticos. Nem é indispensável que todos se envolvam diretamente. Pode ser por meio de comunidades, grupos, estudantes, trabalhadores, mantendo contato com organizações com histórico de respeitabilidade e informando-se melhor. O que pode ser fundamental é perceber, como dizia uma velha frase de ciência política que, o problema de não nos interessarmos por política é que acabamos sendo governados por aqueles que se interessam

Igreja e Estado têm diferentes finalidades, o espiritual e o temporal. Existe sempre o perigo de uma instituição sobrepor a outra ou de construírem paralelismos entre as duas instituições. Dessa forma, respeitando a distinção entre as duas ordens e a autonomia da ordem temporal, e por isso a diferença fundamental entre Igreja e Estado, afirma-se que ao mesmo tempo a existência de uma relação entre as duas ordens, na qual a Igreja atua no mundo não só como oferta de salvação às pessoas, mas também à história humana. Acompanhar as mudanças e buscar formular opinião a partir de propostas talvez seja o maior recurso de que dispomos. Além, é claro, da organização e participação em movimentos sociais, reivindicando, apresentando propostas e acompanhando a sua implementação!!