Na democracia, a rua é de todos

Mateus Bandeira, presidente do Banrisul e secretário de Planejamento do RS, escreveu no site do Os Divergentes sobre a Manifestação programada para o dia 15/02:

"O Brasil conviveu durante 21 anos com governos de esquerda. Em que pesem alguns poucos acertos, PSDB e PT moldaram, para pior, o Brasil que vivemos hoje. Nestas duas décadas, o direito de protestar foi amplamente exercido. Não podia ser diferente, já que a Constituição garante este direito. Os protestos, de maneira geral, eram iniciativas de agremiações de esquerda. Caso das manifestações a favor do aborto, contra as privatizações, a favor dos privilégios dos servidores, a favor do desarmamento, contra o agronegócio. O ano de 2013 acabou com este monopólio. No começo, reuniu manifestantes de todas as tendências que protestavam contra alvos diversos, como o aumento das passagens.

Aos poucos, porém, a direita, depois de passar anos recolhida, tratou de aglutinar-se. Com o lançamento da candidatura Jair Bolsonaro, este fenômeno ampliou-se e movimentos diversos de direita e antiesquerda decidiram ocupar as ruas organizadamente. Foi o que bastou para que a esquerda e parte da mídia começassem a taxar as novas manifestações de antidemocráticos. Um caso célebre foi o do Queermuseu. Capitaneado pelo MBL, um grupo de cidadãos desconfortáveis com a exposição de péssimo gosto e desrespeito religioso decidiu protestar. Imediatamente, grupos ligados a siglas de esquerda, com apoio da imprensa, apontaram censura no ato dos manifestantes. Ficou evidente que era legítimo esculachar a fé alheia, mas tratava-se de censura criticar uma arte ofensiva aos valores de milhões de brasileiros. Até hoje, militantes travestidos de artistas debocham da imagem de Jesus Cristo - embora não tenham a mesma coragem para atacar Maomé.

Eis que a direita, cada vez mais organizada e sem medo da patrulha, resolveu sair às ruas novamente. Mais uma vez para dizer que o Congresso Nacional e o STF fazem mal ao Brasil. Embora não tenha se manifestado publicamente em favor do ato de 15 de março, Bolsonaro passou a ser atacado. Equívoco, pois ele não endossou o manifesto contra Legislativo e Judiciário. Mais grave, porém, é o desprezo elitista por tudo que vem da direita. Regados à soberba, pensadores de esquerda acreditam que só eles sabem o caminho da libertação do proletariado e do campesinato. Ultrapassados no pensamento e na linguagem.

Bolsonaro não inventou a direita. Seu mérito foi perceber as insatisfações deste imenso contingente e galvanizar esta disposição que reuniu apoio de 57,7 milhões de eleitores em 2018. Agora que a direita, legitimamente, percebeu que também sabe protestar, a esquerda e parte da mídia classificam estes atos como antidemocráticos. Nada mais antidemocrático do que esta atitude hipócrita. Bater no Bolsonaro, pode. O presidente sofre ataques diários da imprensa, e isto é democrático. Se o presidente revida, isto é antidemocrático.

Os parlamentares criticam virulentamente o Executivo, inclusive com baixarias, e isto é democrático. Se os cidadãos resolvem defender as reformas presidenciais, isto é antidemocrático. O que existe, consequência de um longo domínio político e cultural da esquerda, que aos poucos vai se tornando démodé, é um tremendo preconceito contra a direita. É cool ser de esquerda. É fascista ser de direita. Em vez de forjar rótulos contra os manifestantes, seus críticos deveriam procurar entender o que leva milhões de brasileiros às ruas. Alguns exemplos:

- As pessoas estão cansadas do toma-lá-dá-cá do Legislativo. As pessoas estão cansadas dos ataques à Lava-Jato e ao ministro Sergio Moro.

- As pessoas estão cansadas de financiar, por meio dos fundos partidário e eleitoral, as campanhas de malfeitores e parasitas. 

- As pessoas estão cansadas com um STF que come lagosta às suas custas e veta a prisão em segunda instância, favorecendo criminosos endinheirados.

- As pessoas estão cansadas de um Congresso Nacional que quer assumir o papel do presidente da República ao se apoderar bilhões de reais em recursos públicos por meio de emendas parlamentares. 

- As pessoas estão cansadas do oportunismo dos que falam em impeachment de um presidente que não aceitou fazer negociatas com o Parlamento.

O que acontece hoje no Brasil - e, aos poucos, o velho establishment político vai se dando conta disto - é que a maioria se cansou da esquerda anacrônica e corrupta, cujo legado por onde passou foi a miséria. Quem realmente defende a democracia sabe que as ruas devem ser livres e palco da diversidade de opiniões. Isto vale para os que aplaudem partidos embolorados, defensores de regimes autoritários. E vale para os que defendem a modernidade econômica e os valores da família."

Abordagem de Mateus Bandeira

Fonte: https://osdivergentes.com.br/outras-palavras/na-democracia-a-rua-e-de-todos/