O candidato vitima

A cada eleição surge um leque variado de candidatos cuja possibilidade de vitória é nula. Aquele que anuncia aos quatro ventos que concorre em sacrifício pelo partido é o primeiro tipo dessa galeria de derrotados

Há candidatos predestinados à derrota por suas próprias características particulares. São pessoas cujos traços individuais mais fortes afastam-nas do eleitor, contrariando - quando não antagonizando - sua disposição e seus sentimentos. Chega a ser um contra-senso que elas se disponham a concorrer e que, em número expressivo, efetivamente sejam escolhidas pelos partidos políticos. Elas estão em todos as legendas e aparecem em todos anos eleitorais, embora só muito raramente aconteça que alguma vença a eleição.

A motivação para disputar a eleição provém, muitas vezes, de pressões de amigos ou colegas de sigla; do sucesso pessoal na atividade privada; de uma alegada superioridade intelectual, social ou econômica; ou ainda de um otimismo ingênuo, uma ilusão poderosa ou mesmo de um voluntarismo exacerbado. Em todos os casos, entretanto, os argumentos que levam tais pessoas a se candidatar conseguem ultrapassar a barreira da sua autocrítica. Há candidatos que assumem sua candidatura por "sacrifício". Nestes casos, o ato costuma ser anunciado como uma "doação pessoal" à agremiação ou a uma causa nobre. 

Atenção! Não confunda o argumento do sacrifício com as usuais e costumeiras declarações do tipo "fui convocado pelo meu partido" e "sou um soldado do partido" com as quais se revestem as candidaturas de um conveniente verniz altruísta. Quem foi convocado e se considera soldado do partido não fala em sacrifício. Muito ao contrário, aceita a convocação com gosto e disposição para a luta. Sua referência ao partido não passa de uma fórmula de cortesia política, uma maneira de registrar que sua candidatura não se limita a um projeto pessoal e que ele não é um "candidato de si mesmo". Muito diferente do candidato-vítima, que vai para o sacrifício assumindo a missão como um pesado ônus que contraria projetos de vida, interesses pessoais, familiares e profissionais. 

Por isso, a palavra-chave é sacrifício. Ele é persuadido pelos colegas de partido a abrir mão de suas conveniências e projetos pessoais, em prol do plano partidário. Sua candidatura nasce, pois, de uma decisão de concorrer que não apenas não era contemplada nos seus planos, como também contraria seus interesses, reverte suas prioridades e consome seu tempo. Esse tipo de candidatura possui vários significados - todos negativos - os quais, ainda que implícitos, não passam despercebidos ao eleitor. Desde logo, passam a mensagem de uma candidatura de má-vontade, de um candidato que - contrariamente a todos os outros - está fazendo um "favor" ao eleitor ao sair do seu conforto e dispor-se a disputar uma eleição. Além disso, transmite também a mensagem sobre a irrelevância do cargo em disputa. Afinal, ele tinha coisas mais importantes a fazer e foi afastado delas para disputar a eleição. Por fim, passa ainda o sentimento de que o melhor que o eleitor pode fazer pelo candidato é não votar nele para que possa, o mais breve possível, retornar a suas atividades e ocupar-se daquilo a que atribui verdadeira importância e prioridade.

O candidato-vítima constitui-se num convite para não votar nele. De resto, ele não perde uma ocasião de reiterar que "não precisa do cargo", que vai ter "prejuízo se ganhar", que se dependesse dele "não teria entrado na eleição". Com declarações assim ele reforça no eleitor a sensação de que está mesmo lhe fazendo um favor ao oferecer seu nome; que sua candidatura, assim como o exercício eventual do cargo, se submete a condições por ele fixadas; que ele é independente, tanto do partido como do eleitor. Ora, esse conjunto de significados é exatamente o oposto do que o eleitor espera dos candidatos numa eleição.

O eleitor aprecia a dependência do candidato em relação a seu voto; aproveita essa peculiar condição de fragilidade para dele arrancar compromissos; sente-se valorizado porque a ele - eleitor - é confiada a tarefa de escolher os governantes; gosta da lisonja que os candidatos lhe dispensam na campanha. Mas o candidato-vítima, ao enfatizar sua independência, os sacrifícios a que se submete e o desinteresse pessoal pelo cargo que disputa, desvaloriza o eleitor e retira a relevância do voto. Não deve, pois, surpreender que o eleitor devolva-lhe esses agravos na urna de votação. Esta é, portanto, uma candidatura que já nasce sem chance de vencer, já surge derrotada.