O cidadão político

Ser cidadão político é ter uma referência permanente em todas as dimensões do nosso cotidiano, na medida que este se desenvolve como vida em sociedade. Embora o termo "política" seja muitas vezes utilizado de um modo vago, é possível precisar seu significado a partir dos movimentos que visam interferir na realidade social a partir da existência de conflitos que não podem ser resolvidos de outra forma. Desta maneira, o cidadão político surge junto com a própria história, com o dinamismo de uma realidade em constante transformação que continuadamente se revela insuficiente e insatisfatória e que não é fruto do acaso, mas resulta da atividade dos próprios homens vivendo em sociedade. Portanto, vejamos a política em sua questão fundamental: sua relação com o poder.

Apesar do grande número de aspectos particulares aplicados a palavra "política", uma delas goza de indiscutível unanimidade: a referência ao poder político, à esfera da política institucional. Portanto, todas as atividades ligadas de algum modo a essa esfera, e o espaço onde se realizam, também são políticas. As pessoas, no seu relacionamento cotidiano, desenvolvem políticas para alcançar seus objetivos nas relações de trabalho, de amor ou de lazer; portanto, dizer "Você precisa se politizar mais" é completamente diferente de dizer "Você precisa ser mais político". Pois, dessa forma, estará se fazendo uma distinção entre valor político, que pretende interferir na estrutura do Poder Institucional, e o valor político não institucional, ligado a qualquer outro movimento fora da esfera da política institucional.

Deste modo, interessa perceber que, na verdade o que existe na sociedade são políticas, ou melhor, propostas políticas - seja elas por anseios e interesses sociais ou pela busca do poder institucional - e que estas se relacionam dinamicamente entre si e com a trama social, a que procuram conferir uma expressão política. A freqüente sensação de força com que a política é encarada pelas pessoas em suas atividades individuais é o que acaba tornando a política uma espécie de mal necessário, uma atividade social transformadora pela qual se visa realizar certos fins utilizando-se de determinados meios. Enfim, um instrumento de que necessita na vida em sociedade.

Portanto, a pessoa alienada oculta-se ao papel de elemento dinâmico principal, de produtor da historia. Portanto, embora o sujeito da política seja o homem, a política é a política da luta de classes. A política na atualidade já não significa limitar-se ao estudo do Estado ou dos partidos, mas repensar as necessidades do passado que levaram a constituir estas instituições. Portanto, hoje o que a política significa é resultado de um longo processo histórico durante o qual ela se firmou como atividade na vida social dos homens, e que continua em movimento, aberta a novas transformações.

Conforme Aristóteles, o conceito de cidadão varia de acordo com o tipo de governo. Isso porque o cidadão é aquele que participa ativamente da elaboração e execução das leis, sendo estas elaboradas pelo rei (monarquia), por poucos (oligarquia) ou por todos os cidadãos livres (democracia). No entanto, nem todos os que moram na cidade são cidadãos. Aristóteles diferencia habitante de cidadão, pois aqueles apenas moram na cidade, não participam dela, enquanto que esses dos que realmente pensam sobre ela tem o direito de deliberar e votar as leis que conservam e salvam o governo. Dito de outro modo, cidadão é aquele que tem o poder executivo, legislativo e judiciário. Os velhos e as crianças não são realmente cidadãos. Os velhos pela idade estão isentos de qualquer serviço e as crianças não têm idade ainda para exercer as funções cívicas.

Seguindo a etiologia estabelecida em sua metafísica, Aristóteles concebe, também, as quatro causas que determinam uma comunidade. Estas são agrupamentos de homens unidos por um fim comum, relacionando-se pela amizade e justiça, isto é, por um vínculo afetivo. São características da comunidade:

- Causa Material: Lares, vilarejos, etc. É a partir de onde nasce a cidade;

- Causa Formal: O regime ou a Constituição que ordena a relação entre suas partes, dando forma a ela;

- Causa Eficiente: Desenvolvimento natural. Para Aristóteles a cidade é um ser natural, um organismo vivo;- Causa Final: A finalidade da cidade é a Felicidade, ou seja, alcançar o bem soberano.

Para Aristóteles, "toda comunidade visa um bem". O bem de que se trata aqui é na verdade um fim determinado. Não se refere ao bem correto, universal, mas a todo ato que tem como finalidade um certo bem. Sendo assim, toda comunidade tem um fim como meta, uma vantagem que deve ser aquela principal e que contém em si todas as outras. Portanto, a maior vantagem possível é o bem soberano.

A comunidade política, afirma Aristóteles, é aquela que é soberana entre todas e inclui todas as outras. Isto significa que a comunidade política é a cidade, que inclui todas as outras formas de comunidade, lares e bairros, que a compõe. A cidade é o último grau de comunidade. Além disso, a cidade é soberana dentre todas as comunidades e visa o bem comum. Assim, o cidadão político é aquele que, por deliberar e criar leis, é um homem melhor do que os outros que não participam do governo e, portanto, ser político ou cidadão é o homem livre que goza de direitos naturais por sua competência em comandar, enquanto que aos homens dotados apenas pouco intelecto são aptos para obedecer, e essa analogia se estende a relação entre a soberania da cidade e as comunidades que participam dela com seus fins específicos. A cidade é soberana porque visa o bem comum, soberano. 

O homem livre é soberano porque sabe ser senhor de si.