O governo já tem uma cara, a oposição ainda não

Avaliando o momento político atual, atualizamos o contexto da matéria publicada na versão anterior do Blog, dia 19/11/2018, que continua atual a mais de um anos atrás, conforme abordagem de Josias de Souza, jornalista e blogueiro político:

"Eleito pelo voto do contra, Jair Bolsonaro ainda está adquirindo o "jeitão" de um presidente da República. Mas o principal atributo que o capitão irradiou desde o inicio mandato - a sensação de que nada seria como antes - continua presente na no dia-a-dia presidencial. Do ponto de vista econômico, o dono da aura de Bolsonaro é o liberalismo radical de Paulo Guedes. E do ponto de vista político, seu governo algemou-se ao prestígio de Sergio Moro, numa manobra cujo êxito está pautada na liberdade que o ex-juiz tem para infundir na máquina estatal o padrão Lava Jato. Diante desse cenário pós-tsunami, a satanização de Bolsonaro perdeu relevância. Atônitos, os adversários do novo presidente estão demorando a perceber algo simples: ninguém se afoga por cair na água, mas por permanecer lá.

Restam à oposição duas alternativas. Os antagonistas de Bolsonaro podem flutuar agarrados a um feixe de ideias ou ir ao fundo com o sentimento da raiva amarrado ao pescoço. Hoje, a oposição passa a impressão de que procura uma ideia desesperadamente. Mais ou menos como um cachorro que caiu do caminhão de mudança e não sabe o que fazer. Considerando-se que a presidência-tampão de Michel Temer foi herança do petismo, a presidência de Bolsonaro selará o fim de um ciclo de 16 anos. Temer foi levado ao trono graças à traição de legendas que sustentaram o PT. E manteve na Esplanada figurões que enfeitaram o primeiro escalão de Lula e da própria Dilma. Mudança drástica e genuína ocorreu 1º de janeiro de 2019. Goste-se ou não, o capitão chegou ao Planalto pelo voto. O que torna desprezível qualquer debate sobre a legitimidade dpresidência.

Depois da posse, o governo despejou sobre o Congresso suas propostas. E a oposição ainda não informou o que quer da vida. O economista Paulo Guedes colocou sobre a mesa, por exemplo, a proposta de reforma da Previdência - já aprovada. O ex-juiz Sergio Moro desembrulhou e apresentou o seu pacote anticorrupção e anticrime organizado. Como votar contra o equilíbrio fiscal e o combate à roubalheira? A qualidade da oposição depende dessa resposta.Num instante em que o PT continua embrulhado na bandeira 'Lula Livre' e o PSDB está ensaiando sair do muro, tem-se no Congresso uma avenida necessitando de reparos para uma nova oposição, menos venenosa e mais ativa. 

A maioria do petismo quer tomar a mesa, não sentar em torno dela. O tucanato prefere ficar discretamente ao redor da mesa. Terceiro colocado na disputa presidencial, Ciro Gomes certamente enxerga oportunidades que a conjuntura oferece. Mas o esboço de entendimento que existe entre o seu PDT, o PSB, o PPS e a Rede está longe, muito longe de constituir uma frente sólida de oposição. Por ora, há em Brasília apenas dois polos nítidos de oposição aos projetos de Bolsonaro: o próprio Bolsonaro e os auxiliares dele. O capitão não passa uma semana sem atirar para o lado que lhe convém. O disparo mais recente foi contra o jornal Folha de São Paulo. Bom, alguns dos seus auxiliares dedicam-se a transformar a transição de governo numa canoa dividida - metade da tripulação olhando para um lado e metade tentando remar para o outro."

Baseado na abordagem de Josias de Souza

Fonte: https://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/11/18/governo-ja-tem-uma-cara-a-oposicao-ainda-nao/