O PT foi prático para chegar no Poder, mas se recusa dar as mãos na hora de defender o país – Parte 2

"Há muita gente no campo democrático que discorda de que essa seja uma boa estratégia no combate ao bolsonarismo. Não há como fugir disso. Infelizmente, o cacoete da hegemonia fala mais alto, e o PT se recusa a participar de qualquer movimento que não tenha a liberdade de Lula como bandeira principal. É incrível notar que o partido, que teve seus governos marcados pelo pragmatismo e que se aliou no ano passado a partidos que derrubaram Dilma, se recuse a dar esse passo atrás em nome da luta contra a selvageria bolsonarista.

As lições da última eleição foram ignoradas. As pesquisas indicavam que apenas Lula venceria Bolsonaro em um segundo turno. Com a confirmação de que o ex-presidente não poderia disputar, o partido escolheu Haddad de última hora, apostando que a transferência de votos de Lula para o candidato do PT aconteceria de forma natural. Àquela altura, já estava claro que o antipetismo era mais forte que Haddad. Era a hora de recuar e compor com Ciro Gomes na cabeça de chapa para tentar evitar a tragédia Bolsonaro. O nome do pedetista aparecia nas pesquisas como o único com chances de derrotar Bolsonaro no segundo turno. Mesmo assim, Ciro não seria garantia de vitória, pelo contrário. As chances de perder também eram grandes. Mas ali poderia ser o início da construção de uma oposição sólida ao bolsonarismo.

Mas o PT preferiu perder como protagonista do que tentar ganhar como coadjuvante. A estratégia foi boa para o partido, que perdeu a eleição, mas manteve a hegemonia no campo oposicionista ao formar a maior bancada na Câmara. Mas foi ruim para o país, que, após oito meses, está com uma oposição enfraquecida e desarticulada para enfrentar o desmonte avassalador do estado brasileiro. O PT é o maior partido do Brasil. Tem uma forte base social, alcance no país inteiro e, mesmo com a devassa sofrida pelo conluio lavajatista, conseguiu eleger a maior bancada da Câmara. Difícil imaginar um movimento de oposição efetiva ao bolsonarismo sem a participação do partido. Infelizmente, até aqui tudo indica que os seus dirigentes não irão se engajar nessa frente ampla por temer a perda da hegemonia.

O partido crê que o protagonismo é um direito natural devido ao seu tamanho, à sua força. Isso faria todo sentido se a democracia estivesse sob condições normais de pressão e temperatura, o que definitivamente não é o caso. O antipetismo hoje é maior força política do país. É tão forte que elegeu um homem que disse "vamos fuzilar a petralhada" durante a campanha. Esse é um dado da realidade que não pode ser mais ignorado. O bolsonarismo não é uma força política convencional. É liderado por um ex-militar rancoroso, autoritário, imbuído da missão de desmontar o estado, agradar a horda de seguidores fanáticos e passar o trator em cima de quem pensa diferente.

O PT calcula que o melhor a se fazer é deixar Bolsonaro sangrando até 2022, perdendo popularidade e, assim, derrotar a direita nas urnas. É um erro. É subestimar mais uma vez a força avassaladora do antipetismo, que não vai sumir do dia para noite. Corre-se o risco de não se ter nem democracia nem Lula livre. Como disse o linguista americano Noam Chomsky, presente no evento do movimento Direitos Já, "o componente central da esquerda é o PT e o partido ficou desacreditado, parte por motivos certos, parte por má propaganda e campanhas ultrajantes nas redes sociais das quais não se recuperou".

É urgente juntar as forças democráticas, criar um diálogo plural, formular propostas comuns e criar condições para uma oposição efetiva. Não há mais espaço para disputa de hegemonias e imposições. Ou os democratas se unem agora contra o governo fascistoide, criando uma narrativa única em torno da defesa dos valores democráticos, ou na próxima eleição - se houver eleição! - elegeremos um presidente para administrar os escombros."

Por João Filho

Fonte: https://theintercept.com/2019/09/08/pt-lula-livre-frente-ampla-democracia/


Obs.: A matéria acima é de inteira responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Blog Várzea Paulista