Política com humildade, ou nem tudo é como parecer ser

Texto adaptado de Laurita Arruda

Fonte: https://lauritaarruda.com.br/politica-com-humildade/96798

Hoje o eleitor chegou à conclusão de que lideres de verdade estão em extinção, dando vez a pretensos, autoproclamados e falsos profetas da democracia e da moral. Não se vê mais humildade nos políticos, salvo raras exceções que ainda podem existir. A vez da hipocrisia passa a ser latente e indisfarçável publicamente. Verdadeiros pavões na política, pretendem e lutam para assumir o poder municipal de Várzea Paulista, sob olhares compassivos de seus aparentes amigos e simpatizantes, mas também dos que vêem com apreensão o lado instável do emocional destes, e que pode comprometer e desandar toda uma expectativa da cidade em um projeto que aparentemente diz ser bem intencionado da parte deles. Há motivos muito sérios, e de sobra, para desconfianças.

Isso posto, reproduzimos abaixo um texto muito apropriado para se meditar no que pode ser visto na campanha eleitoral, mas está obscuro na política e na democracia de modo geral.

Nos bons tempos do PDS - registra o folclore político - um coronel da política mineira, cuidando da própria sucessão, decidiu entregar o aprimoramento do seu herdeiro ao velho amigo Tancredo Neves, que o recebeu como todo o carinho e paciência, sabendo que se tratava de um jovem advogado que gastava toda a sua energia na busca de elementos capazes permitir que ele fosse um político diferenciado e aparelhado para representar bem o seu povo. Feitas as apresentações, Dr. Tancredo (para deixar o jovem à vontade) colocou-se à disposição para responder qualquer pergunta que ele quisesse fazer, fato que estimulou o discípulo a engatar de primeira:

- Qual é a primeira virtude que um político precisa ter?

- Humildade!

A pronta resposta contrariava a manha de quem sabia a necessidade de pesar, medir e contar as suas palavras, para deixar o espaço para um eventual realinhamento ou negociação, que é o principal fundamento dessa atividade que se define como a arte do possível.

- O problema, Dr. Tancredo, é que eu não sou humilde...

E Tancredo mais uma vez de bate-pronto, contrariando a sua própria natureza, para demonstrar a sua convicção e destacar a importância de uma das poucas coisas que ele considerava inegociáveis na política:

- Então finja, meu filho... Finja que é humilde. Ou, então vá fazer outra coisa na vida.

Se essa história aconteceu ou não, ninguém pode afiançar, mas ela serve para demonstrar a absoluta necessidade da adoção da tolerância como um primeiro passo para quem se propõe a assumir algum cargo público, renunciando à convicção de ser dono da verdade e capaz de impor as suas vontades, além de estimular a capacidade de transigir e acomodar. Afinal, o tempo do absolutismo acabou juntamente com a cabeça dos soberanos decapitados na Revolução Francesa, há mais de duzentos anos.

O estado democrático de direito existe para permitir a possibilidade de harmonizar diferentes opiniões, respeitando a decisão da maioria, que não pode ser exercida imperialmente. Mesmo porque a maioria de hoje, pode virar minoria, amanhã. Que o diga Fernando Collor de Melo que, depois de ungido e sacramentado pela maioria absoluta dos brasileiros terminou execrado pela sociedade brasileira.

Estimular a divergência (de lado a lado) não será bom para a política e termina contrariando o sentimento, a índole da grande maioria da população. Campanhas eleitorais existem para que os candidatos, além de propostas, possam se mostrar de corpo inteiro ao eleitorado, com suas virtudes ou defeitos e, sobretudo, o seu preparo para o pleno exercício de um cargo eminentemente político. Do contrário, o preenchimento desses cargos eletivos não seria feito em eleição, mas através de concurso público, que dispensaria o teste de muitas percepções subjetivas sobre o candidato exposto, muitas vezes, ao próprio limite. O eleitor deve avaliar como o candidato vai agir quando eleito.