Reeleição, uma incerteza constante

06/03/2020

Para quem ocupa uma cadeira no legislativo, seja em que âmbito for (municipal, estadual ou federal), a proximidade das eleições é sempre marcada por uma imensa angústia. Isso ocorre porque no Brasil a taxa de renovação nos legislativos, também chamada de turnover, é muito elevada. A consequência desse fato é que, a cada eleição ingressam nos legislativos um grande número de novatos que, muitas vezes tomam o lugar dos parlamentares mais experientes. Para que se tenha uma ideia do quanto isso representa em termos numéricos, as pesquisas acadêmicas na área de ciência política mostram que, entre 1945 e 1998 a taxa de renovação da Câmara dos Deputados oscilava entre 35% a 40%.

As razões da incerteza
A boa estratégia faz a diferença

Em termos práticos isso quer dizer que a reeleição para os legislativos no Brasil é inevitavelmente incerta. Os parlamentares que buscam a reeleição sabem que estão fazendo um "investimento de risco", pois, as campanhas eleitorais custam caro e muitas vezes implicam no endividamento ou até mesmo na "queima" de patrimônio do candidato. Embora não exista uma fórmula que possa ser receitada como eficaz para quem busca a reeleição, a melhor compreensão do problema e algumas sugestões de planejamento podem ajudar.

As razões da incerteza
A boa estratégia faz a diferença

Uma das principais causas das elevadas taxas de renovação nos legislativos brasileiros está no sistema eleitoral. Para as eleições legislativas o Brasil adota o sistema proporcional de lista aberta. Neste sistema os partidos políticos não possuem nenhum mecanismo para controlar a distribuição das cadeiras conquistadas entre os candidatos. A fórmula eleitoral é chamada de lista aberta porque a posição do candidato na lista depende exclusivamente da sua votação pessoal e da transferência dos votos de outros candidatos do mesmo partido ou de um partido coligado.

Explicando melhor, o cálculo matemático utilizado para saber quantas cadeiras os partidos ou coligações têm direito, inclui tanto votação nominal como a votação da legenda. Os candidatos que recebem mais votos individuais, obviamente são os que têm mais chances de serem eleitos ou reeleitos. Contudo, o chamado quociente eleitoral inclui a votação total dos candidatos e a votação da legenda. Dessa forma, um candidato que tenha recebido uma grande quantidade de votos - com as "sobras" de sua votação - pode ajudar a eleger mais dois ou três candidatos do seu partido ou de coligações partidárias, através da elevação do quociente eleitoral.

O resultado é que, embora a eleição para os cargos no legislativo dependa da votação individual do candidato, se torna muito difícil para os parlamentares identificar quem são realmente seus eleitores. Com isso o parlamentar muitas vezes não possui uma ideia precisa de sua base eleitoral e, no momento da campanha, seus eleitores podem ser facilmente cativados por outro candidato de outro partido ou do mesmo partido, que faça uma campanha mais próxima da expectativa dos eleitores que lhe deram seu voto na eleição anterior. A rotina no interior do parlamento, muitas vezes, afasta o parlamentar de seus eleitores e aqui entram dois complicadores a mais. O primeiro é que, quanto mais elevado for o âmbito do legislativo, maior é a distancia em relação à base, e o segundo é que os cargos de maior visibilidade pública são também os mais disputados no interior do parlamento.

O âmbito do legislativo está diretamente relacionado com a proximidade geográfica do parlamentar com os eleitores. Assim, por exemplo, um vereador tem seu eleitorado localizado no seu município o que facilita o contato "corpo a corpo". Já os deputados estaduais e os deputados federais são eleitos por eleitores de todo seu estado, o que exige um roteiro de viagem mais amplo com a agravante de que, no caso dos deputados federais, a sede do parlamento é em Brasília, portanto, fora do estado. A ocupação de postos no interior do parlamento como presidência de comissões, liderança de bancada, liderança de governo pode garantir alguns espaços na mídia, o que torna o parlamentar, uma figura pública e transmite para os eleitores a imagem do político que trabalha. 

Contudo esses postos são reduzidos e representam uma estratégia disponível para uma minoria. Para a maioria dos parlamentares que não tem acesso a esses postos nem à exposição na mídia, a busca da reeleição deve ser feita através de uma estratégia de constituição de uma rede permanente de contato a fim de divulgar seu trabalho e dirigir sua mensagem na campanha eleitoral.

Os principais componentes dessa estratégia de busca da reeleição são:

  • foco de ação e público alvo

  • rede de contato e estratégia de comunicação

  • roteiro de visitas.

Certamente você foi eleito com base em alguma proposta, seja em que área for. A partir dessa área você deve focalizar sua atuação no parlamento, assim, por exemplo, se você defende certo tipo de agricultura, a comissão se agricultura é um bom espaço para atuar. Mesmo sem conseguir aprovar projetos, você pode protocolá-lo e divulgar esse projeto para o público interessado.

Definindo o foco de ação e o público alvo, você deve montar uma rede de contatos com pessoas que tenham alguma ligação com o tema de sua ação no parlamento. Essas pessoas podem ser líderes comunitários, sindicalistas, empresários, pessoas que participam de cooperativas de agricultores (continuando com o exemplo do parlamentar que dirige seu foco de ação para a agricultura), bem como prefeitos e vereadores visto que muitos municípios dependem de verbas federais e estaduais, e o parlamentar pode se apresentar sempre como uma pessoa disposta a ajudar na obtenção de tais recursos. Com a rede de contato montada, sua estratégia de comunicação deve partir da realidade de seus potenciais eleitores ou reeleitores.

Hoje a Internet, as redes sociais e o correio eletrônico (e-mail) são ferramentas ágeis e baratas de comunicação o que faz com que a criação de um site pessoal e uma boa lista de pessoas para receber e-mails com "noticias do mandato" seja uma estratégia de comunicação cada vez mais útil. Todavia nem todos os seus eleitores têm acesso a Internet. Neste caso, a utilização de material impresso e do correio tradicional ainda são as melhores ferramentas.

Por fim, o roteiro de visitas mostra-se como um elemento essencial na estratégia de reeleição. Como diz a sabedoria popular "Quem não é visto, não é lembrado". Traduzindo isso do ponto de vista de uma estratégia para a reeleição, significa que nada substitui a presença física do parlamentar junto aos eleitores. Mas para que sua presença física tenha o impacto desejado, é necessário que os roteiros sejam bem traçados.

O planejamento do roteiro de "visitas às bases" precisa levar em conta visitas periódicas aos mesmos locais durante o mandato para que não se crie a imagem do político que só aparece no momento de pedir voto. Nesse sentido, as datas comemorativas, de caráter religioso ou não, são boas oportunidade para que os parlamentares sejam vistos. Além das datas comemorativas é importante aceitar certos convites para festas de casamento, aniversários, pois estas sempre são oportunidades para conversar com eleitores e pessoas que possam vir a ser futuros cabos eleitorais.

A descrição do problema e as sugestões apresentadas aqui não eliminam as incertezas e não apresentam soluções mágicas, mas ajudam a enfrentar o desafio da reeleição de forma mais consciente.

Artigo de Francisco Ferraz

Fonte: https://mundodapolitica.com/o-parlamentar-e-sua-reeleicao-uma-incerteza-constante/


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