434 - OPINIÃO PÚBLICA

05/02/2015 08:52

Artigo de Francisco Ferraz

Fonte: www.politicaparapoliticos.com.br

Opinião pública é outro daqueles conceitos sem os quais parece impossível falar sobre política. O termo costuma ser usado na linguagem política com uma perigosa elasticidade, quanto ao seu significado. 

Opinião é um conceito que se opõe à certeza, decorrente do conhecimento. Pessoas se dividem em relação a quem vai vencer uma partida de futebol, mas ninguém põe em dúvida a lei da gravidade. 

Opinião, portanto não pode ser confundida com: Certeza, Desejo ou Palpite.

Opinião e certeza

Certeza é fruto do conhecimento. Neste caso, os fatos individuais acomodam-se dentro da formulação de uma lei (p.ex. gravidade) ou de uma regularidade (generalização a partir de inúmeros fatos observados que ocorrem da mesma forma).

Não vamos inquirir aqui se é possível humanamente a certeza absoluta. O fato é que nossos comportamentos, nossa vida enfim, dependem de inúmeras certezas. Certeza, neste sentido, é a rigorosa correspondência entre a expectativa e o resultado.

Assim, ao sair de casa temos a “certeza” de sermos reconhecidos pelo nosso cachorro, de que os automóveis vão parar ao sinal vermelho, de que árvores são o que são, e não vão sair caminhando ao nosso lado, de que no nosso trabalho as pessoas serão as mesmas, e nos reconhecerão, de que vamos abrir a torneira e água vai jorrar, de que vamos apertar no botão e a luz vai ser acesa, de que vamos tomar um remédio e ele vai aliviar nossa dor, de que a terra não vai tremer e derrubar nossa casa etc.

Não poderíamos programar nada. Viveríamos com a torturante experiência do imprevisível. Cada momento seria uma nova descoberta do mundo que nos cerca.

Embora estejamos cercados de certezas no nosso dia a dia, vez por outra elas não se confirmam (lâmpada queimou p. ex.), mas a razão da não correspondência entre a expectativa e o resultado nesses casos, é conhecida, previsível e é assumida por nós como possível, portanto não deixa de continuar uma certeza.

Bem diferente de opinião é, pois, a certeza.

Opinião e desejo

Também não se pode confundir opinião com desejo , embora isso ocorra com muita freqüência no mundo da política.

É o caso daquelas situações em que o indivíduo está de tal forma desejoso de que um estado de coisas ocorra, que passa a olhar a realidade sob a ótica da certeza de que ele vai ocorrer. Trata-se do processo cuja melhor definição é a expressão inglesa “Wishful thinking” (isto é, pensamento criado pelo desejo).

O wishfuk thinking afasta-nos da realidade, para uns mundos mesclados de fatos reais e imaginados, direcionados rumo à realização do desejo.

Opinião e palpite

Por fim, opinião também não equivale a palpite. Palpite é uma opinião inconseqüente.

A opinião possui justificativas mais consistentes do que o palpite; integra um quadro mais amplo de percepções; e ainda sustenta-se em razões lógicas.

Embora esteja sujeita a mudança, a opinião possui uma permanência na mente do indivíduo e na vida social muito maior que um palpite.

Foram os gregos, mais especificamente Sócrates, Platão e Aristóteles que criaram a distinção radical entre conhecimento (“sofia”) e opinião (doxa).

O processo educacional, para Platão, p. ex., resume-se a conduzir o aluno do mundo da opinião (caverna) para o do conhecimento (a realidade, onde as coisas parecem como elas verdadeiramente são).

Opinião, portanto é um disposição mental, constituída em reação a um estímulo, em relação ao qual o indivíduo possui interesse e sobre o qual possui algum conhecimento.

A opinião, portanto pode mudar.

Este é um capítulo da psicologia social de extrema importância para a política, já que o trabalho do político e do governante é o de consolidar opiniões favoráveis e mudar opiniões desfavoráveis.


 

As opiniões mudam por várias razões:

1. Em razão de novas informações sobre o assunto;
2. Em razão de experiências pessoais;
3. Em razão de sua falência frente à realidade;
4. Em razão da modificação daquele quadro mais amplo;
5. Em razão da mudança nos valores da pessoa;

Assim, do ângulo de sua solidez e estabilidade, a opinião, situa-se entre o palpite e a crença.

O extremo do palpite representa uma opinião sem maiores responsabilidades de coerência, baixa informação e pouca articulação com o quadro mais amplo que o indivíduo possui para se situar na sociedade. Como tal, o palpite é facilmente modificado, por argumentação ou por informações novas.

O extremo da crença representa o oposto. A crença alimenta-se de opiniões muito sólidas e estáveis, com grande resistência à mudança. Constitui-se num escudo que rejeita informações que com ela colidem. Chega ao ponto de negar a realidade.

Opinião pessoal x opinião pública

Pública é a opinião que é compartilhada por um número expressivo de indivíduos. Seu objeto é um estímulo que pertence à esfera do coletivo, por isso, desperta atenção e interesse em indivíduos, enquanto membros de coletividades.

Seu objeto pode ser o mais variado:

No nosso caso, a opinião pública que queremos estudar, tem por objeto a política.

Essa opinião pública sobre o universo da política, pode ser classificada em quatro níveis:

1. Regime (sistema político, constituição) – tema da legitimidade, da ética, dos direitos individuais;
2. Partido (facções, grupos políticos e ideológicos) – tema da identidade entre indivíduo e grupo, tema do conflito e da ideologia;
3. Líderes (indivíduos) tema do carisma, populismo, liderança;
4. Questões públicas (políticas publicas, problemas, prioridades) tema do interesse coletivo, do Bem Comum, do desempenho, da representatividade.

 

 

 

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