447 - SOMOS TODOS CULPADOS

26/03/2015 11:48

    Baseado no artigo de Marcos Araujo
    Fonte: https://www.novoeleitoral.com/index.php/en/opiniao/marcosaraujo/649-culpados

   Novas manifestações estão marcadas para dia 12/04, e é inegável o fato de que políticos e política partidária atravessa uma crise moral e ética sem precedentes. Na visão dos eleitores, já é visivel que está sendo ultrapassada a barreira do mínimo ético, abaixo da qual sobrevém a decadência e a degradação. Só o incomum é objeto de aplauso e divulgação. Virtudes como a honra, a seriedade, a retidão de caráter e a prática do bem comum parece não atrair e nem sensibilizar ninguém mais.

   Mas, convenhamos: a culpa não é do PT, de Dilma, do Lula, FHC, Aécio ou de qualquer outro líder ou partido político nacional. A corrupção e a desonestidade é uma mácula enraizada de maneira lastimável na cultura brasileira. O governo timidamente combate a corrupção, um mal que reconhecidamente já é endêmico, e, por pior ainda, os cidadãos simplificam o problema da corrupção à imagem do político de hábitos escusos.

   Diferentemente do que se comumente pensa, a corrupção não é um fenômeno limitado a uma política perversa e sem ética, revelando, por si mesmo, valores arraigados na formação social brasileira, sendo parte da nossa essência genética exaltar a ética do aventureiro, estimulando a audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade e imoralidade.

   A ausência de projeto, de dedicação permanente e a busca da riqueza fácil dá ao político um nítido aspecto de exploração de ordem pessoal, e também de fazer política prioritária para os amigos.

   As nossas mobilizações populares têm o contraditório produzir heróis de fanfarras. Basta avaliar quem lideravam o Movimento do Passe Livre, em junho passado, todos cooptados e financiados por agremiações políticas.

   Também é contraditório que estudantes falem de corrupção no Governo sendo financiados pelo FIES, programa criado exclusivamente para financiamento de estudantes pobres. Isso não seria uma corrupção da finalidade? É triste ver pessoas das classes A e B gritando palavras de ordem pela melhoria da saúde e do SUS, quando pegam remédios gratuitos por via judicial. É certo? Queremos um país melhor mas não queremos ser esses. Queremos uma sociedade justa, fraterna e solidária, providos do senso da solidariedade, de justiça e do bem-estar coletivo.

   A política não é melhor porque também não somos melhores. Quem pode se dizer cidadão consciente? Um país onde um Pastor tem centenas, milhares, de seguidores não pode criticar os políticos porque também é político e quer estar no poder. A desconstrução intelectual e moral deve ser uma base necessária para a percepção política, e isso requer um conjunto de ações antecipadamente de cada indivíduo e grupos que compõem a sociedade.

  Colocar a culpa no Governo tornou-se uma regra. Odiamos o Estado, mas continuamos elegendo aqueles que dizemos serem os piores candidatos. Então, somos nós os detratores do nosso próprio espelho. Como eleitores, vivemos uma relação sadomasoquista com os governantes e legisladores: os elegemos e depois “batemos” neles e, quando eleitos, eles devolvem a agressão e destroem as nossas vontades. Somos vítimas e também culpados.

   É bem verdade que não se aplica tal condição a toda a sociedade, mas também é por certo que uma boa parte daqueles que estão criticando o governo são responsáveis pela renovação do mandato do político corrupto. Outra contradição ! Falar do Governo e colocar a culpa em Dilma ou em FHC passou a ser “normal”.

   Sendo a conduta um padrão de reconhecimento, como somos reconhecidos lá fora? Qual seria a nossa auto-imagem mais comum? Ao sermos observados, o que diria um estrangeiro a nosso respeito? Diria que somos cidadãos honestos ou um país do “jeitinho” ?

   Quando dizemos que nosso povo não sabe escolher os seus representantes, só podemos explicar a conduta alheia, e não a nossa? Somos nós os responsáveis pela eleição dos que ai estão. Somos nós quem também se corrompe quando o mau político chega ao poder. Somos essa identidade nacional que grita, mas ao mesmo tempo se deixa manipular por falsos políticos. Nesse ponto em particular, criamos ídolos e salvadores da pátria que, ao sentar na cadeira, corrompem suas ditas virtudes.

   Hoje, caminhamos em retrocesso. Na pauta difusa, se reivindica até uma intervenção militar nas manifestações recentes. Cada protesto, um grito diferente...

   A sociedade precisa saber reivindicar. E se reinventar. Temos temas urgentes como a reforma política. Mas, igualmente temos urgência na reforma da administração pública e do Poder Judiciário. Uma pauta bem definida poderia incluir:

a) fim do financiamento privado das campanhas eleitorais;

b) financiamento público das eleições;

c) o fim da reeleição;

d) eleição direta para os Tribunais Superiores e mandato de 08 anos aos eleitos, não renováveis;

e) extinção do chamado “Quinto Constitucional” (Trata-se de uma disposição advinda da lei maior, especificamente de seu artigo 94, segundo a qual “um quinto dos lugares dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais dos Estados, e do Distrito Federal e Territórios será composto de membros do Ministério Público, com mais de dez anos de carreira, e de advogados de notório saber jurídico e reputação ilibada, com mais de dez anos de efetiva atividade profissional, indicados em lista sêxtupla ao Tribunal respectivo, que formará lista tríplice, enviando-a ao chefe do Poder Executivo que, nos vinte dias subsequentes, escolherá um de seus integrante para nomeação”);

f) verdadeira transparência na gestão pública;

g) extinção das verbas dos gabinetes parlamentares e do gasto não-fiscalizado;

h) alteração da Lei Orgânica da Magistratura para permitir a demissão de magistrados ímprobos;

i) preenchimento dos cargos de confiança na Administração Pública apenas por servidores concursados;

j) um melhor aparelhamento do Poder Judiciário; ...

Por isso, nestes dias que antecede o desfecho da quaresma, de coração penitenciado, pensemos nos nossos males e na nossa conduta pessoal. Se mudarmos intimamente, aí sim, temos a forte esperança de que poderemos mudar o Brasil.

 

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