458 - TORNAR-SE REFÉM DE UMA PROMESSA IRREALIZÁVEL

11/05/2015 11:10

    Baseado em artigo de Francisco Ferraz

   No calor da campanha, na busca por aqueles votos indispensáveis à vitória, é muito difícil ao candidato, recusar-se a fazer aquela promessa que vai ao encontro do que os eleitores desejam, seja ela mais ou menos possível de realizar. Aqui em Várzea Paulista tres delas ninguém esquece em 2 anos e 4,5 meses de mandato:

 

   1 - Não faltar medicamentos nas farmácias públicas, mas a falta aumentou neste governo,

   2 - Poupatempo Saúde, que até agora nada de projeto foi apresentado ao público eleitor,

  3 - Maternidade, que o próprio governo admite que não vai ter. Então porque prometeu ?

   É muito difícil, porque muitas vezes uma ideia surge, durante a campanha que, sendo popular, não é contestada por ninguém e que fica à mão para ser abraçada por uma candidatura.

   Frente a esta situação os candidatos ficam numa posição frágil.

   Como a ideia torna-se rapidamente um objeto de desejo, opor-se a ela, é cortejar a impopularidade certa e, adotar uma atitude cautelosa, do tipo – “a ideia é boa, mas precisa ser mais estudada” – parecerá uma forma habilidosa de não se comprometer com ela.

   O problema é agravado pelo fato de que logo um dos candidatos, sem maiores preocupações, a incorpora, dela se apropria e a torna  identificada com a sua candidatura. Diante de uma situação como esta, os demais candidatos não têm outra alternativa a não ser considerá-la também. Na medida em que todos os candidatos se  pensam na ideia, ela é neutralizada como argumento eleitoral.

   Outras vezes é um dos candidatos que tem a “ideia genial” (?!) e compromete-se com uma medida, que ele sabe ser popular, sem dar-se ao trabalho de estudar previamente a sua viabilidade.

   As consequências são as mesmas nos dois casos. Ganhando a eleição aquela promessa torna-se como um pesadelo.

   Consultados os assessores e funcionários, evidencia-se, com dados e números, que a promessa foi além das possibilidades de execução, que é praticamente impossível realizar.

   Que fazer diante de uma situação como esta?

   1. Apostar que as pessoas não vão dar grande importância e que, no final das contas, vão acabar esquecendo ou relevando, porque se você não cumpriu aquela promessa, cumpriu outras.

   Muitos políticos, por absoluta recusa em se retratar publicamente, ou incapacidade de reconhecer os erros publicamente, preferem esta saída. Dão-se mal, invariavelmente por que:

   - As pessoas normalmente não esquecem; se esquecerem, seus adversários na próxima eleição vão se encarregar de refrescar a memória do eleitorado;

   - Fica comprovado que enganou os eleitores, mentindo para se eleger. E deve ficar certo que este será o tema que vai persegui-lo na próxima eleição;

   - Na medida em que não se cumpre a promessa, nem dá explicações, as pessoas vão buscar uma explicação. Pode estar certo que a explicação que vão encontrar, lhe será sempre negativa.

   2. Reconhecer publicamente seu erro, por ter-se comprometido com um projeto, sem ter todas as informações sobre sua viabilidade.

   Esta saída é o oposto da primeira: reconhecer logo o erro afim de retirá-lo da pauta de discussão e impedir que ele seja usado na próxima campanha contra você.

   Reconhecendo logo, estará “sacando” contra o seu capital político inicial; também consegue tirar da pauta de discussão, porque, ao lado desta matéria, inegavelmente negativa, terá muitas outras positivas a divulgar; finalmente, também estará dando uma demonstração de sinceridade e honestidade.

   Apesar de tudo isto, sofrerá um desgaste político. É inevitável.

   É para evitar este desgaste, no início do mandato, que muitos governantes optam pela primeira saída, que, como vimos, é a pior de todas, e se for para disputar reeleição já pode considerar quase que perdida.

   A questão é que deve aceitar que, feito o erro na campanha, terá que pagar por ele. Ou se aceita o desgaste de início, contando com 4 anos para compensá-lo, ou aceita o desgaste futuro de fim de governo e da próxima campanha. Não tem como escapar do desgaste: ou um ou outro, ou mesmo os dois.

   Dentre os dois é preferível o desgaste inicial porque, você reconstitui sua relação com seus eleitores na base da verdade, fica livre daquele “estigma”, dá prova de sinceridade e coragem, e “desativa” a bomba de efeito retardado, preparada para explodir na próxima eleição.

   3. Você decide sacrificar outros projetos do seu governo para se concentrar na realização daquela promessa.

   Esta é a terceira saída do problema. É a saída heróica. Somente cabe adotá-la, naquelas condições em que a promessa feita trate de matéria de tal importância que justifique o sacrifício de outros projetos por ela. Mesmo assim, não vai conseguir resolver completamente. Como nas demais, há também um desgaste. O desgaste político de ter abandonado, ou dado pouca importância a outros projetos.

   De certa forma, se troca o não cumprimento de uma promessa, pelo cumprimento precário de várias outras, ainda que não tão relevantes.

   Nesta situação também corre o risco muito sério de, mesmo concentrando o governo na realização daquela promessa, chegar ao fim do mandato sem obter grandes resultados, ou sem que a população perceba os resultados conquistados.

   Entretanto, se a promessa é nitidamente prioritária para os eleitores, o sacrifício pode ser justificado.

   O exemplo mais comum e frequente de opção por esta saída ocorre quando a questão central, no sentimento da população, é a da sáude pública. Há situações, em que as pessoas podem aceitar, de bom grado, a redução ou postergação de projetos, em troca de uma concentração da ação do governo na saúde pública, que produza resultados visíveis.

   De qualquer forma, não de deve aceitar, em hipótese alguma, tornar-se refém de uma promessa irrealizável. É um dos mais perigosos e letais erros cometidos por um governante.

   Evite escolher a primeira saída, porque ela não é uma saída, e, depois de uma cuidadosa e inteligente análise de situação, escolha entre a segunda e a terceira saída.

   Como regra geral, escolher a segunda sempre será preferível, porque envolve menos riscos e preserva mais a integridade do projeto de governo. Afinal, as eleições são em 2016, ano que vem...

 

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