569 - O POLÍTICO E VOCE, OU PORQUE NÃO ADIANTA QUEBRAR O ESPELHO

20/04/2016 07:39

Artigo de Daniel Martins de Barros

Fonte: https://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/os-politicos-e-voce-ou-porque-nao-adianta-quebrar-o-espelho/

  A votação na Câmara dos Deputados mexeu com os brasileiros. Ela foi um gigantesco espelho que refletiu a sociedade, mas nós não gostamos do que vimos. Não adianta agora negar o que o espelho mostrou. O jeito é trabalhar para melhorar o objeto que ele reflete – nós mesmos.

  O brasileiro deu de cara consigo mesmo, e parece que não gostou do que viu. A votação na Câmara dos Deputados, no domingo, já foi chamada de tudo: show de horrores, patifaria, palhaçada. Só não foi chamada do que realmente é: espelho. Pela primeira vez vimos e ouvimos a um só tempo o conjunto das pessoas que falam em nosso nome e foi assustador. E não adianta dizer que só poucos deputados foram eleitos pelos próprios votos, que a maioria foi “puxada”. Isso é conversa de quem quer negar a imagem que vê no espelho. Porque os “puxados” também receberam votos, e, principalmente, porque essa é a regra que nós mesmos criamos para eleger nossos representantes.

  Só que um dos maiores problemas não foi o fato de eles nos representarem. Ao contrário, foi a postura explícita de não nos representar. Os votos “pela minha mulher”, “pela minha família”, “por Deus”, “pela memória do meu pai” sobrepujaram, ao que parece, os que deveriam predominar: “pelos meus eleitores”, “pelas pessoas que me puseram aqui para representá-las”. Ou seja, ficamos com o pior dos mundos: os políticos que espelham a sociedade são de uma qualidade lamentável, e ainda assim trabalham por interesses próprios, não por nós.

  Se bem que até isso é um bom reflexo da nossa sociedade. Em sua extensa pesquisa publicada no livro A cabeça do brasileiro, o sociólogo Alberto Carlos Almeida ouviu de praticamente um em cada cinco entrevistados que eles concordavam com a sentença Se alguém é eleito para cargo público deve usá-lo em benefício próprio, como se fosse sua propriedade. Bem, é exatamente o que eles estão fazendo.

  O mais perturbador para mim foi perceber que até mesmo o ódio que cresce entre as pessoas estava ali presente. Quando Jean Wyllys se diz provocado e cospe (afirmando que faria de novo, não foi só o calor da hora) em Bolsonaro, que por sua vez exalta a memória de um torturador, temos o retrato do extremismo mais tacanho, que não só impede o diálogo, mas o próprio convívio. Quem está de um lado deseja nada menos que a aniquilação de quem está de outro. Vejo aí um dos mais sérios problemas do país hoje. Crimes de ódio florescem nesse clima. Guerras civis começam assim. Encarar essa situação como “culpa deles” só aumenta a gravidade. Passou da hora de uma atuação ativa para reverter esse quadro.

  Podemos não gostar do que vemos no espelho, mas não adianta tentar negar a imagem refletida – quem se recusa a examinar a si mesmo só se aprofunda em sua doença. Ouvi muita gente dizer que o brasileiro precisaria votar melhor para que o Congresso Nacional ganhasse em qualidade. Mas se ele é de fato um espelho, a única maneira de mudar a imagem que ele reflete é mudar a nós mesmos.

 

 
 

 

Voltar

Pesquisar no site

BVP © 2012 Todos os direitos reservados.

VárzeaPaulista/SP