900 - O CINISMO NACIONAL MATA O BRASIL

02/03/2018 09:27

   Condensado do artigo de Luiz Ruffato, do site do El País

   Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/31/opinion/1517402958_784015.html?rel=mas

  No dia 18 de maio de 2006, o então governador de São Paulo, Claudio Lembo, filiado ao antigo PFL, hoje Democratas, um partido claramente de direita, disse que o entrave para a solução dos problemas do Brasil residia no fato de termos uma “burguesia muito má, uma minoria branca perversa”. Lembo dizia que para atacar o problema da miséria deveria haver a criação de mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo, mais reciprocidade. E afirmou: “O cinismo nacional mata o Brasil”. Pois bem, o que estamos assistindo é o maior espetáculo de cinismo nacional de todos os tempos, patrocinado pela “minoria branca perversa”. E não estou me referindo à condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – até hoje não sei se ele é ou não corrupto.

  Ao longo de sua história, o PT afastou-se pouco a pouco de sua origem democrática e popular para tornar-se um partido ávido por ampliar suas influências – ou, nas palavras do Frei Betto, o PT trocou um projeto de nação por um projeto de poder. Para isso, fez alianças com o setor mais retrógrado da sociedade brasileira – os evangélicos – e com o que havia de mais sórdido na política – o PMDB de Romero Jucá, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e Edison Lobão, todos ministros de Lula, e Michel Temer, o vice que viria a liderar o afastamento de Dilma. Nos 14 anos em que permaneceu no governo, o PT deixou-se envolver diretamente com a corrupção que sempre havia existido e que seus eleitores acreditavam que seria por ele combatida. Apeado do poder, o partido em momento algum aceitou admitir seus erros. Preferiu, de forma patética, exaltar os condenados José Dirceu e João Vaccari Neto como “presos políticos” e “heróis do povo brasileiro”, e “declarar guerra” ao boneco Pixuleco, que simboliza o ex-presidente Lula vestido com roupa de presidiário.

  Mas não é contra nada disso que se indignaram o juiz federal Sérgio Moro e, depois, os desembargadores João Pedro Gebran Neto, Leandro Paulsen e Victor Luis dos Santos Laus, todos representantes da “minoria branca” de que falava Claudio Lembo. O que esteve, e está, todo o tempo em julgamento é a manutenção dos privilégios de classe que o Poder Judiciário hoje defende – os privilégios da burguesia branca que não aceita “abrir a bolsa” para a construção de um país mais solidário, mais justo, mais equitativo. Apesar de todos os problemas e omissões – e que são muitos e muitas –, Lula organizou o melhor governo de todos os tempos da história brasileira, tanto para os pobres como para os ricos, ou: pai dos pobres... e a mãe dos ricos... E essa afirmação pode ser aferida: ao deixar o governo, após oito anos de mandato, Lula tinha 87% de aprovação, e hoje, oito anos depois, mantém ainda um resíduo de 36% das intenções de voto.

  No governo Lula, passamos a ser a sétima maior economia do mundo; o PIB cresceu em média 4,15% ao ano; o salário mínimo teve um aumento real de 80%; a taxa de desemprego caiu para 4,3%, o que é considerado pleno emprego; o Brasil zerou a dívida externa considerada impagável; a desigualdade melhorou substancialmente; o percentual de jovens de 16 anos com diploma de ensino fundamental subiu de 57% para 74%; foram criadas 14 novas universidades públicas; foi implementado o Estatuto do Desarmamento; e, mais importante que tudo, deixamos de figurar no vergonhoso Mapa da Fome.

  Mais de 35 milhões de pessoas, entre 2002 e 2010, subiram para a Classe C, o que significa que passaram a consumir produtos antes inalcançáveis – carros, eletrodomésticos, televisores e celulares de melhor qualidade -, e a frequentar lugares antes proibidos, como aeroportos, restaurantes, shoppings, e, principalmente, universidades, por meio das cotas raciais e sociais. Mas a “minoria branca perversa”, ainda que também usufruísse do boom econômico, nunca engoliu a ideia de ter de dividir esses espaços privilegiados com seus “serviçais”. 

  O presidente não eleito, Michel Temer, tem se esforçado para, em seu curto governo, eliminar qualquer resquício dos pouquíssimos, mas fundamentais avanços obtidos no período do lulopetismo. Por meio da reforma trabalhista, precarizou as relações empregatícias a níveis impensáveis; por meio da reforma previdenciária, em andamento, inviabiliza o sistema público de amparo social. Devolve, assim, os pobres aos seus devidos lugares, de massa subalterna... Claudio Lembo afirmava, em sua já citada entrevista, que o cinismo nacional poderia ser sintetizado no fato de que, ao abolir a escravatura, no final do século XIX, o Estado brasileiro indenizou os senhores, não os libertos. Não é diferente o que Michel Temer anda fazendo hoje, exatos 130 anos depois... Uma prova cabal de que, infelizmente, aqui o termo “capitalismo selvagem” não é uma metáfora e sim a nossa realidade cotidiana...

 

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