ADVERSÁRIOS E INIMIGOS NA DISPUTA ELEITORAL

01/09/2016 07:47

    O que os mestres da política têm a ensinar sobre como lidar com adversários e “inimigos” políticos?

   Adversários você sempre terá e com eles vai disputar espaços. Este é um alerta de fundamental importância para quem atua na política. Não caia na tentação de tratar adversários como inimigos. Os primeiros poderão acabar tornando-se inimigos e os segundos não mudarão seus sentimentos. Portanto nunca confunda adversário com inimigo. Adversários o candidato sempre terá. Contra eles vai concorrer, com eles vai disputar espaço político, prestígio, poder. Adversários, entretanto, mudam com o tempo e as circunstâncias, são conjunturais. O adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã.

   A disputa entre adversários pode e costuma ser dura. Envolve ataques, acusações e hostilidade. Seu desfecho eleitoral implica, necessariamente, em exclusão do poder para um dos concorrentes. Entre adversários, porém, não existe ódio. O que distingue o conflito entre adversários e entre inimigos é a presença do ódio como fator dominante, como motivação principal. O ódio é pessoal, definitivo, irreversível e irracional. É um sentimento que lança suas raízes no plano mais íntimo da individualidade das pessoas. Seu objetivo real (muitas vezes não reconhecido) é a eliminação completa do inimigo (eliminação seja no campo da vida política, da vida social, econômica, profissional, e, no limite, o próprio desejo da morte física).

   As instituições democráticas são as formas mais civilizadas de convívio político, exatamente porque institucionalizam o conflito, ao tempo em que fixam os seus limites. O pluralismo, a liberdade de organização política e de associação, os direitos individuais, os direitos das minorias, a divisão de poderes, as eleições periódicas, são princípios constitucionalmente garantidos, para proteger a liberdade. Suas normas, ao manterem o conflito dentro de limites que respeitem os direitos dos cidadãos, tornam o conflito político previsível, limitado e, por consequência, legítimo. O que são as eleições senão um conflito limitado entre adversários, com regras explícitas, isentas e compartilhadas para definir quem vence?

   A política, pela sua inevitável natureza competitiva, e, mais ainda, pela forma pública que esta competição assume, é um campo de atividades, onde proliferam adversários e inimigos. Só não tem adversário, nem se expõe a criar inimigos, quem é politicamente inofensivo. Quem tem ambição e luta por seus objetivos, por certo terá adversário, e talvez, ao longo da carreira, inimigos.

   Com os adversários não é preciso gastar tempo para analisá-los. São participantes do jogo da política democrática, são competidores, por vezes duros e até desleais, mas o que desejam é vencer a eleição, assumir o poder, e ocupar os cargos.    Não os move um ódio pessoal, nem um desejo de destruição que são característicos dos inimigos. O adversário contenta-se em derrotá-lo. O inimigo, ao contrário, só encontra paz destruindo-o. Quando as razões da inimizade são pessoais. Há inimizades, cuja razão é de natureza pessoal, e outras em que a razão é de natureza estritamente política. 

  Quando a razão da inimizade for pessoal, ela é irremovível. Inimigos costumam ser mais fiéis que amigos, e, quando a razão é pessoal, ela é “curtida” em silêncio, cultivada com o adubo do ódio, crescendo e cristalizando-se com o tempo. Ao se transferir para o mundo da política, entretanto, ela é “fantasiada” de motivos nobres e elevados, para poder se justificar perante a opinião pública. Assim, a inimizade pessoal, quando se exterioriza na política, assume convenientemente a forma de um conflito político. É preciso, pois, saber distinguir com clareza a hostilidade política da inimizade pessoal travestida de argumentos políticos. É muito difícil lidar com uma situação como essa. Em primeiro lugar, porque é muito perturbador encarar o ódio contra si em ação. Em segundo lugar porque o candidato fica com poucas alternativas de ação para dele se defender.

   Ao candidato não interessa tentar desmascarar seu inimigo, mostrando ao eleitor que a razão da hostilidade não é política e sim pessoal. Caso convença o eleitor, o resultado, para ele é a sensação de que há uma tentativa de envolvê-lo num conflito que não lhe interessa, e que depõe contra aqueles, que usam uma eleição para resolver suas diferenças pessoais. Além disso, saiba que não será fácil convencer o eleitor. Seu inimigo vai insistir que, da parte dele, não há nada de pessoal no conflito, que a diferença que tem contra você, por mais profunda e radical que seja, é exclusivamente política.

   Fica o candidato então, na obrigação de provar que ele mente e que a razão é pessoal. Em outras palavras, fica com o ônus de remexer baús, buscar lembranças de agravos e, em resumo, assumir a responsabilidade de arrastar o debate político para o campo das desavenças pessoais, que não interessam ao eleitorPara não cair nessa situação desgastante, não resta alternativa senão a de tratar politicamente o conflito, embora saiba que a razão e motivação dele é pessoal. Ter que lidar com um conflito irremovível, cuja razão é pessoal, “fazendo de conta” que é um conflito político, é muito exasperante, psicologicamente oneroso, além de complicado estrategicamente.

 

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