COMO PERDER A ELEIÇÃO - Parte 2

20/08/2016 07:53

  ... continuação da parte 1... (final)

  A máquina de campanha, como qualquer organização complexa, precisa construir a sua unidade, por meio de uma articulação harmoniosa entre diferentes setores, que respondem por diferenciadas tarefas de uma sofisticada divisão do trabalho.  Cada um desses setores é responsável por produtos que, por sua vez, se constituem em insumos indispensáveis para o produto final: os votos.

  Tal qual qualquer produto humanamente construído, se começar o trabalho usando recursos materiais e humanos deficientes não se chegará nunca ao nível bom. Essa organização complexa equivale a uma empresa. Divide-se internamente em setores especializados, que se responsabilizam por diferentes tarefas como, por exemplo, os seguintes:

  · Captação de recursos (setor financeiro)

  · Produção de informações (setor de pesquisas)

  · Análise de informações e conteúdo da candidatura (estratégia)

  · Formatação e apresentação da candidatura (publicidade)

  · Comunicação do produto aos eleitores (mídias, trabalho de campo, ação do candidato, programas de radio e TV)

  · Escolha de alternativas e tomada de decisão (comando da campanha, estratégia)

  · Administração das atividades meio para colocar e manter o produto no mercado político (comando executivo operacional, coordenador de campanha).

  Com exceção, então, apenas das campanhas muito modestas, feitas para eleitorados muito pequenos, o tamanho, custo, e complexidade da organização eleitoral será gritantemente desproporcional ao tempo em que vai operar. Eleitorados a partir de 20.000 eleitores já demandam organizações de campanha razoavelmente complexas e onerosas. Essa organização complexa - por si só um desafio de enorme proporção, para conceber, montar e financiar - vai operar no mais inóspito dos ambientes: a campanha eleitoral.

  A campanha eleitoral ocorre num período de tempo muito reduzido (alguns meses); em condições extremamente competitivas, (nas quais é tão válido atacar os concorrentes, quanto promover o seu produto); em um ambiente de intensa tensão, nervosismo, incertezas e ansiedade; com um desfecho radicalmente resolutivo (pelo menos para cargos executivos) tudo isso em um único dia. Em outras palavras, trata-se de uma situação extremamente favorável a decisões impulsivas, passionais, casuísticas e, hostil às decisões racionais, equilibradas e estratégicas. Talvez seja interessante, por ilustrativo, comparar a campanha eleitoral com a situação de empresas competindo no mercado.

  Contrariamente a essas, a organização eleitoral equivaleria a uma empresa que jogasse sua sobrevivência econômica numa única campanha de vendas, restrita a um único produto, e cuja venda fosse realizada num único dia. Estaria assim sujeita à mais selvagem forma de competição que se pode imaginar. Não se trataria de ocupar um espaço no mercado, de deter uma fatia do mercado e continuar competindo. Ou se ganha a competição, aufere-se os lucros devidos e, de modo excludente, coloca-se seu produto como único (por um período fixo de tempo - mandato), ou perde-se a competição, assume-se o prejuízo, liquida-se a empresa e retira-se o produto das prateleiras, pelo menos até a próxima campanha de vendas.

  Por essas razões costuma-se dizer que as campanhas eleitorais são organizações que tendem para o caos. São como cavalos selvagens ou mal domados que, a qualquer momento, podem escapar do controle e sair em louca disparada. Quem já participou de campanhas eleitorais há de se lembrar que, na medida em que a data da eleição se aproxima; e/ou que as pesquisas tragam más notícias; e/ou que a competição se acirre sob a forma de ataque; e/ou comece a faltar recursos indispensáveis; a atmosfera da campanha muda, tornando-se intensamente nervosa, internamente dividida, muito suscetível a atitudes passionais e impulsivas.

  Nestes momentos está em curso uma dinâmica autodestrutiva, fácil de entrar, mas difícil de sair. O foco da campanha desloca-se do eleitor para a equipe, na busca de culpados e responsáveis pelos maus resultados; perdendo-se o precioso tempo de campanha em discussões estéreis e divisivas; tendo seu rumo pautado pelos adversários; tomando decisões impulsivas, emocionais e que resultam na fragilização do candidato e da candidatura.

  Esta é a história da campanha para perder eleição, aquela que fracassa antes de começar, em razão da montagem e operação de uma estrutura organizacional de campanha ineficiente, ou da escolha de uma equipe e/ou de um candidato “destinado à derrota”. É fácil apontar o dedo acusador e imputar, à deficiente estrutura organizacional da campanha, a responsabilidade principal pelo insucesso eleitoral.

Como foi exposto, não há nada de fácil no desafio da montagem de uma estrutura de campanha moderna e eficiente. Pelo contrário, trata-se de um desafio de grandes proporções, agravado, sobretudo pelo ambiente inóspito da disputa eleitoral, no interior do qual esta organização será concebida, criada e operada. 

 

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