JOAQUIM BARBOSA, EX-MINISTRO DO STF, PODE DESEQUILIBRAR A DISPUTA PRESIDENCIAL

23/04/2018 07:10

  Condensado da abordagem de Rudolfo Lago e Tábata Viapiana

   Fonte: https://istoe.com.br/joaquim-embaralha-o-jogo/

  Em dezembro de 2017, uma delegação de 9 deputados do PSB foi conversar com o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, em seu escritório de advocacia em São Paulo. O articulador da reunião, o líder do PSB na Câmara, Júlio Delgado (MG), pediu a todos que chegassem uma hora antes e que se reunissem primeiro numa padaria próxima do escritório. “Olhem só, ele não é fácil”, advertiu Delgado. “É muito formal, fechado. Exige ser tratado como ministro. Vamos, então, com cuidado”. Para surpresa de todos, Barbosa recebeu-os com sorrisos. O deputado César Messias (AL) não se conteve: “Ministro, o Júlio Delgado fez todo mundo chegar uma hora antes, cheio de recomendações sobre como tratar o senhor”. Barbosa sorriu: “É porque ele é mineiro e desconfiado, como eu”. Risos gerais.

  O ex-ministro acabava de ser mordido pela mosca azul da política. Se ainda havia dúvidas em Joaquim Barbosa quanto a disputar a Presidência, elas diminuíram bastante com a pesquisa Datafolha, publicada no dia 15/04, onde ele já aparece em terceiro lugar, atrás apenas de Jair Bolsonaro com 17% e Marina Silva com 15%. Tem mais intenções de votos do que Geraldo Alckmin, que varia entre 6% e 8%. A entrada de Barbosa na disputa presidencial embaralha o jogo, pois ele tira votos tanto da direita como da esquerda, além de interferir nas candidaturas do centro. Joaquim não é dado a conceder entrevistas mas, desde que deixou o STF, tem usado muito as redes sociais para se expressar. E, por esses meios, apresenta uma plataforma de ideias que mescla posições mais de esquerda nos costumes com outras mais liberais na economia. Ele defende, por exemplo, a privatização de estatais desde que não se mexa nas chamadas “joias da coroa” como a Petrobras. Defende reformas estruturais como a da Previdência, cobrando também empresas devedoras.

  Mas o que explica o fato de um ex-ministro do STF, há quatro anos aposentado e afastado do noticiário, que nunca teve militância político-partidária, embaralhar um jogo sucessório dos mais complexos já vividos pelos brasileiros? “Ele entra no perfil ideal do que quer o eleitor. Tem origem humilde, carrega a bandeira do combate à corrupção e não está envolvido em problemas éticos”, afirmou Murilo Hidalgo, diretor do Instituto Paraná Pesquisas. Na condução do processo do mensalão, ele ganhou notoriedade nacional ao enfrentar o poder político e econômico de maneira até então jamais vista no País: 25 políticos do PT, incluindo o ex-ministro José Dirceu, foram condenados por corrupção. Mas, nem tudo são flores.

  Na reunião de quinta-feira, 19/04, Joaquim Barbosa pôde sentir o peso de problemas regionais que sua candidatura representa dentro do PSB. Ao participar da primeira reunião com a cúpula do partido, ele percebeu que vai ter que vencer fortes opositores internos. Joaquim ainda não falou como candidato, mas foi o centro das atenções. O ex-ministro disse que ainda não se sentia candidato: “Ainda falta muita coisa”. Para vencer as resistências, Siqueira criou uma “comissão eleitoral”, com a executiva do partido e seus quatro governadores. A reunião contou com a presença dos integrantes desse grupo. Quando desceu de seu carro, havia um grupo de cerca de 20 militantes da Negritude Socialista Brasileira. Pretendiam fazer Barbosa entrar na sede do partido debaixo de uma chuva de pétalas de rosa. Ele evitou contornando o grupo, despistou também um pelotão de jornalistas. “Que aparato foi esse? “Foi o senhor que trouxe essa gente para cá, ministro”, respondeu o vice-presidente do PSB.

  As resistências ficaram explicitadas na reunião, com o governador Márcio França (SP), deixando o encontro apenas 30 minutos depois do início. Ricardo Coutinho também saiu antes. “A pesquisa Datafolha foi realmente um fator muito importante, mas ainda não definitivo”, disse o governador da Paraíba, que deixou clara sua opção por fazer uma aliança com o PT. Ao final da reunião, o próprio Barbosa disse que há questões regionais a serem contornadas. Mais do que isso. Ainda pesam questões pessoais. “Eu mesmo ainda não me convenci a ser candidato”, afirmou. “Para quem não frequenta o ambiente político, não dá entrevistas e tem uma vida pacata, foi muito boa a pesquisa”, disse. “Nós já sabemos que ele tem potencial para ir ainda bem mais longe”, avalia Carlos Siqueira.

  Um estudo realizado pela empresa Idéia Big Data, indicou que eleitores das classes C, D e E acreditam que ele reúne características do juiz Sergio Moro e as do ex-presidente Lula. Ou seja, possui qualidades no combate à corrupção e empatia com os mais pobres — uma combinação eleitoral poderosa. Joaquim Barbosa é visto “como um batalhador, vencedor, o menino pobre que venceu na vida”. O ex-ministro não vem de uma linhagem política e nem de grupos econômicos poderosos. Pelo contrário, tem uma história que o aproxima da maioria dos eleitores. Nasceu em lar humilde, filho de um pedreiro e uma faxineira, primogênito de oito irmãos, estudou com dificuldade, formou-se em Direito e chegou à presidência do STF, o lugar mais alto que um advogado pode chegar.

   “Ele encarna a necessidade de renovação política, mas mantendo princípios e valores claros, trazidos da sua atuação no Supremo”, resume o deputado Júlio Delgado. Em maio do ano passado, o ex-ministro fez uma provocação nas redes sociais: “Será que o País estaria preparado para ter um presidente negro?”. Ao ler a frase, Júlio Delgado pediu uma audiência com Barbosa e foi ao seu encontro no em Brasília. Encontrou um Joaquim formal, grave e rigoroso. “Pois não? Em que lhe posso ser útil?”, perguntou Joaquim. “Vim aqui porque fui provocado pelo senhor. Acho que o Brasil está mais do que preparado para ter um presidente negro”. A partir daí as conversas evoluíram. O presidente do PSB comprou a idéia. Tem sido ele o responsável por tentar quebrar as resistências internas. “Aparentemente, Joaquim é o candidato que queremos. Mas ainda precisamos conhecê-lo melhor. Inicialmente, Barbosa dizia que só entraria no PSB se o partido garantisse que ele seria candidato à Presidência. “Ministro, isso não tenho como garantir. A candidatura vai precisar passar por conversas internas. Nem o Eduardo Campos conseguiu isso”.

  Foram 8 meses até que Joaquim Barbosa, enfim, assinasse a filiação ao partido no dia 06/04. Mas ainda há que pavimentar a estrada que vai levá-lo à Presidência. Para Murilo Hidalgo, ele “terá que aprender a lidar com o meio político e minimizar sua personalidade autoritária”. Pesa contra o ex-ministro justamente seu temperamento explosivo e falta de paciência. Durante o mensalão, Barbosa abusou de discussões e trocas de farpas com colegas de Corte, especialmente com os ministros Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes. Em 2009, ele chegou a dizer a Gilmar Mendes: “Vossa excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso”. Barbosa foi também condenado em segunda instância por ofender um jornalista, dizendo que ele deveria “chafurdar na lama”. Sua sorte é que condenação por crimes de opinião não entram na vedação prevista na Lei da Ficha Limpa e ele pode ser candidato. Superando as dificuldades, Joaquim já tem a receita para um bom plano de governo: respeitar a Justiça, a ética e a moralidade

 

Voltar

Pesquisar no site

BVP © 2012 Todos os direitos reservados.

VárzeaPaulista/SP